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"A Menina Que Trouxe o Rei da Noite de Volta" Capítulo 5 — O Monstro da Televisão

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Capítulo 5 — O Monstro da Televisão

Marina não ligou para Augusto.

Passou a manhã fazendo perguntas.

Consultou a situação da placa em um serviço oficial. O veículo estava registrado em nome de uma locadora. Telefonou para a creche e pediu que ninguém entregasse Bia sem confirmação por vídeo. Combinou uma palavra de segurança com Dona Célia e alterou o caminho entre o ponto de ônibus e a kitnet.

Depois pesquisou o Fundo Aurora.

O endereço cadastrado pertencia a um escritório de advocacia que representava a Ferraz Logística.

Marina imprimiu tudo.

Na sala de descanso do hospital, encontrou a confirmação que faltava.

O televisor antigo exibia imagens de Augusto deixando um fórum dois anos antes. Ele vestia preto, cercado por homens de terno. Caio caminhava atrás dele.

A faixa vermelha na tela dizia:

“EMPRESÁRIO CONHECIDO COMO ‘REI DA NOITE’ VOLTA DO COMA.”

O repórter falava sobre investigações por lavagem de dinheiro, extorsão de comerciantes, depósitos clandestinos e desaparecimento de cargas. Nenhuma denúncia havia resultado em condenação. Testemunhas recuavam. Documentos sumiam. Empresas trocavam de dono antes das buscas.

Marina reconheceu os olhos do homem na televisão.

Não eram os olhos perdidos que haviam se aberto sob sua mão.

Eram os olhos de alguém diante de quem a multidão abria caminho.

Joana entrou e viu o rosto da amiga.

“Você não sabia?”

Marina não respondeu.

O repórter chamou Augusto de suspeito de comandar uma estrutura que cobrava proteção de pequenos transportadores e usava ameaças para dominar galpões da periferia.

Ela pensou nos seguranças armados.

Nos homens que sussurravam sobre rotas.

No pagamento secreto.

Naquele instante, a gratidão de Augusto deixou de parecer perigosa apenas por ser excessiva. Tornou-se perigosa porque vinha de um homem acostumado a transformar vontade em fato.

Marina ligou para Caio.

“Quero falar com ele.”

“Ele está em fisioterapia.”

“Então diga que a mulher da lua descobriu quem ele é.”

Caio ficou calado.

“Uma hora”, respondeu.

Augusto a recebeu em uma sala reservada do hospital. Já caminhava com uma bengala, embora o esforço deixasse suor em sua testa. Duas pessoas ficaram do lado de fora quando Marina entrou.

Ela colocou as folhas impressas sobre a mesa.

“O Fundo Aurora foi criado quatro dias atrás por seus advogados.”

Augusto não negou.

“Você quitou minhas dívidas.”

“As dívidas médicas da Bia.”

“Minhas.”

“Ela precisava dos exames.”

“E eu precisava escolher como pagá-los.”

Augusto apoiou as duas mãos na bengala.

“Você trabalha doze horas para pagar juros de uma doença que sua filha já venceu.”

“Isso não lhe dá direito sobre a minha vida.”

“Não pedi nada em troca.”

“Esse é o problema. Você faz coisas que mudam minha vida e só depois decide que não preciso saber.”

Marina empurrou a fotografia do sedã para ele.

“Também mandou me seguir?”

Augusto olhou a placa.

“Coloquei segurança perto da creche e do seu prédio.”

“Sem me contar.”

“Leandro ameaçou sua filha.”

“Como sabe exatamente o que ele escreveu?”

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Augusto ergueu os olhos.

Marina compreendeu antes que ele respondesse.

“Você me investigou.”

“Eu precisava saber quem entrou no meu quarto.”

“Não. Você queria saber. Precisar é a palavra que homens como você usam quando querem tornar uma invasão inevitável.”

Augusto ficou de pé com esforço.

Mesmo enfraquecido, era alto o bastante para fazer a sala parecer menor. Marina sentiu medo, mas não recuou.

“Eu acordei sabendo seu medo, o nome da sua filha e o som da sua voz”, disse ele. “Não sabia se você havia sido colocada ali por Mauro.”

“E quando descobriu que não?”

“Descobri um homem ameaçando levar Bia.”

“Então decidiu que seria o homem mais forte da história.”

Augusto fechou o maxilar.

“Você viu as notícias”, concluiu.

“Vi.”

“Nem tudo é verdade.”

“Quanto é?”

Ele não respondeu.

Marina recolheu as folhas.

“Homens foram ameaçados por sua ordem?”

Silêncio.

“Comerciantes pagaram para trabalhar sem que seus caminhões desaparecessem?”

Augusto segurou a bengala com mais força.

“Meu mundo não cabe em uma reportagem de três minutos.”

“Mas sua resposta cabia em uma palavra.”

Ela caminhou até a porta.

“Não se aproxime da Bia. Retire seus homens da creche e da minha rua. Não pague outra conta. Não ligue para meu emprego. Não escolha por mim.”

“O carro da foto não é meu.”

Marina parou.

“Como sabe?”

“Minha equipe usa motos e dois veículos cinza. Ninguém fuma em vigilância.”

“Então dê a informação à polícia. Não mande alguém desaparecer.”

Augusto a fitou como se ela tivesse pedido que ele desaprendesse a respirar.

“Se quer usar bem sua segunda chance”, Marina disse, “pare de criar pessoas que precisem ser salvas de você.”

Ela abriu a porta.

Pela primeira vez, Augusto falou sem a força de uma ordem.

“Não tire de mim a única coisa verdadeira que encontrei naquele quarto.”

Marina olhou para ele.

“Eu não sou uma coisa que você encontrou.”

“Eu sei.”

“Ainda não sabe.”

Marina saiu.

Naquela tarde, levou o registro do sedã à Delegacia da Mulher. A investigadora Renata Vasconcelos anexou a foto ao pedido de proteção e recomendou que Marina alterasse temporariamente a rotina de Bia.

Leandro foi intimado a manter distância da creche e da residência até a análise judicial. Dona Célia recebeu uma cópia da palavra de segurança. A coordenadora da creche registrou por escrito quem estava autorizado a buscar a menina.

Marina criou também uma pasta compartilhada com Joana e a defensora. Cada nova mensagem, placa ou ocorrência seria enviada para lá.

Não era uma muralha.

Mas não dependia da vontade de um único homem.

Do outro lado da cidade, Caio ampliava a mesma fotografia em uma tela.

“O carro foi alugado por uma empresa de fachada”, explicou a Augusto. “A empresa recebeu dinheiro de um galpão ligado a Mauro.”

Augusto ficou em silêncio.

“Retirei nossos homens, como ela pediu”, Caio acrescentou. “Mas antes disso, um deles viu alguém fotografando a entrada da creche.”

Colocou três imagens sobre a mesa.

Na primeira, Marina segurava a mão de Bia.

Na segunda, a menina abraçava o Coelho no portão.

Na terceira, um círculo vermelho fora desenhado ao redor da cabeça da criança.

No verso, havia duas palavras escritas à mão:

“A fraqueza dele.”

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