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"A Menina Que Trouxe o Rei da Noite de Volta" Capítulo 4 — O Preço de Ser Protegida

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Capítulo 4 — O Preço de Ser Protegida

“Ninguém toca nelas.”

A voz de Augusto ainda era baixa, castigada pelos dias de intubação, mas Caio reconheceu o peso da ordem.

“Eu entendi.”

“Não. Você entendeu que quero segurança. Eu estou dizendo que qualquer ameaça contra Marina ou a menina deve ser tratada como uma ameaça contra mim.”

Caio olhou para a folha amassada na mão do chefe.

“E o pai da criança?”

“Converse com ele.”

“Que tipo de conversa?”

Augusto ergueu os olhos.

Durante vinte anos, Caio recebera ordens que não precisavam ser explicadas. Naquela manhã, contudo, permaneceu parado.

“Marina está juntando provas”, disse ele. “Marcou atendimento na Defensoria e procurou a Delegacia da Mulher. Se Leandro aparecer machucado depois disso, ela perde o controle da própria denúncia.”

“Ele ameaçou pegar a filha dela.”

“E ela já começou a impedi-lo.”

Augusto desviou o olhar para a janela. O vidro refletia um homem pálido, mais magro, com marcas de adesivo no pescoço e uma cicatriz recente desaparecendo sob o avental.

Em seu mundo, uma ameaça recebia outra maior. Um homem como Leandro só precisava compreender quanto custaria insistir.

Mas Marina não havia pedido que ele resolvesse nada.

“Descubra onde ele está”, Augusto decidiu. “Não encoste nele. Quero duas pessoas vigiando a creche e o prédio dela, sem serem vistas.”

Caio assentiu.

“E os dezoito mil?”

“Quite.”

“Ela vai perceber.”

“Use um fundo assistencial.”

“Isso continua sendo decidir por ela.”

Augusto virou o rosto devagar.

“Desde quando você questiona minhas ordens?”

“Desde que voltou da morte por causa de uma mulher que provavelmente vai odiar todas elas.”

O silêncio entre os dois durou vários segundos.

“Quite”, repetiu Augusto.

Caio saiu sem responder.

Na tarde do mesmo dia, Marina sentou-se diante de uma defensora pública com uma pasta transparente no colo.

Dentro havia capturas de tela, o boletim antigo, fotografias das lesões, comprovantes da creche e uma declaração assinada por Dona Célia confirmando que Bia nunca ficava sozinha durante os plantões.

“Você fez certo em não responder às provocações”, disse a defensora. “A ameaça de retirar a criança da creche é grave. Vamos pedir a renovação da medida protetiva e comunicar formalmente a escola.”

Marina soltou o ar que prendia.

“Ele pode conseguir a guarda?”

“Não por enviar uma mensagem e fazer uma acusação. Guarda não muda por ameaça. O que importa agora é documentar tudo e não negociar sozinha com ele.”

A defensora entregou uma lista de próximos passos.

Marina leu cada linha antes de guardar o papel.

Não saiu dali salva.

Saiu com um procedimento, um protocolo e a primeira sensação concreta de que Leandro não controlaria a história apenas por falar mais alto.

Quando chegou ao Santa Aurora para o plantão, foi chamada ao setor administrativo.

Dois representantes da empresa terceirizada e uma gestora do hospital esperavam por ela. Sobre a mesa havia um relatório com imagens das câmeras do corredor.

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Uma mostrava Bia nos braços da mãe.

Outra mostrava Marina entrando no quarto 1804.

“Trazer uma criança doente para uma área restrita é uma infração grave”, disse o supervisor da terceirizada. “Além do risco ao paciente, houve quebra do protocolo sanitário.”

“Eu sei.”

“Então entende que existe motivo para demissão por justa causa.”

Marina abriu a própria pasta.

“Antes de decidirem, quero que anexem minha declaração, a orientação médica que recebi, o registro de temperatura da Bia e o depoimento da colega que ficou com ela.”

O supervisor não tocou nos documentos.

“Nada disso autoriza sua entrada no quarto.”

“Não estou dizendo que autoriza. Estou dizendo que a empresa me chamou para um plantão de doze horas depois que informei que minha filha estava doente. Minha supervisora sugeriu que eu a trouxesse porque faltavam funcionários.”

A gestora do hospital olhou para o representante da terceirizada.

“Isso consta no relatório?”

Ele endureceu o maxilar.

“Ainda estamos apurando.”

“Então apurem antes de me demitir”, disse Marina. “Eu errei ao entrar no quarto. Mas não vou aceitar que apaguem tudo o que aconteceu antes para parecer que fiz isso por irresponsabilidade.”

O telefone da gestora tocou.

Ela pediu licença e atendeu.

Nos primeiros segundos, manteve a expressão neutra. Depois olhou para Marina. Em seguida, para os dois homens da terceirizada.

“Compreendo”, disse. “Sim, transmitirei a informação.”

Quando desligou, a sala parecia outra.

“A assessoria jurídica recebeu contato de um representante da Ferraz Logística”, informou. “A família é uma das doadoras do hospital e manifestou preocupação com qualquer punição à funcionária envolvida no despertar do senhor Augusto.”

Marina sentiu uma raiva limpa atravessar o medo.

“Quem ligou?”

“Não posso compartilhar detalhes.”

“Eu posso.”

Ela fechou a pasta e se levantou.

“Registrem que não autorizo ninguém a negociar meu emprego em meu nome. Quero a apuração formal, por escrito, com o registro da ligação da minha supervisora e a escala daquele plantão.”

O representante da terceirizada abriu as mãos.

“Marina, talvez possamos resolver isso sem conflito.”

“O conflito já existe. Eu só estou pedindo que ele seja registrado.”

Ela saiu da sala, pegou o celular e ligou para o número que Caio deixara.

Augusto atendeu no terceiro toque.

“Marina.”

Ela parou no corredor vazio.

“Mande seu advogado retirar a pressão sobre o hospital.”

“Eles queriam demitir você.”

“E eu estava me defendendo.”

“Você poderia perder o emprego.”

“É meu emprego.”

Do outro lado, ele ficou em silêncio.

“O que fez parece ajuda para você”, Marina continuou. “Para mim, parece outro homem entrando na minha vida e decidindo o que deve acontecer sem me perguntar.”

“Não sou Leandro.”

“Então não aja como se ter mais dinheiro tornasse a decisão menos minha.”

Augusto respirou com dificuldade.

“Vou retirar o contato.”

“Hoje.”

“Hoje.”

Marina desligou.

Na manhã seguinte, recebeu por e-mail a confirmação de que o caso seria analisado por uma comissão conjunta e que nenhuma medida seria tomada antes da conclusão. A supervisora também fora chamada a prestar depoimento.

Era uma vitória pequena, mas era dela.

No fim da tarde, outro aviso chegou.

O saldo dos exames particulares de Bia, somado às parcelas atrasadas dos medicamentos, havia sido quitado por um programa assistencial que Marina nunca solicitara.

Ela ficou olhando para a tela.

Augusto podia ter retirado a mão do hospital.

Talvez não a tivesse retirado de todo o resto.

Marina telefonou para a clínica. Pediu o nome do programa, o número do protocolo e a origem do pagamento.

A atendente só conseguiu informar que a transferência fora feita por uma entidade chamada Fundo Aurora de Apoio à Infância.

Uma busca rápida revelou que o fundo havia sido criado havia quatro dias.

Marina salvou a página.

Naquela noite, no ônibus para o Grajaú, percebeu um sedã preto duas fileiras atrás do coletivo.

O carro acompanhou o ônibus por seis quilômetros.

Desapareceu quando ela desceu.

Na noite seguinte, estava diante da creche.

Na terceira, parou do outro lado da rua de sua casa.

Marina observou por uma fresta da cortina. Não via o motorista, apenas o brilho vermelho de um cigarro atrás do vidro escuro.

Pegou o celular, fotografou a placa e enviou a imagem para Dona Célia, para a defensora e para o próprio e-mail.

Depois ampliou a foto.

O veículo não tinha o logotipo da Ferraz Logística.

Mas isso não significava que Augusto não o tivesse enviado.

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