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"A Menina Que Trouxe o Rei da Noite de Volta" Capítulo 2 — A Noite Sem Escolha

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Capítulo 2 — A Noite Sem Escolha

Bia acordou tossindo às três e vinte da manhã.

Marina acendeu o abajur da kitnet e encontrou a filha sentada no colchão, o cabelo grudado na testa e o Coelho preso contra o peito.

“Mamãe, está frio.”

O corpo da menina ardia.

Marina pegou o termômetro na gaveta. Trinta e oito vírgula sete.

Anotou o horário e a temperatura no bloco que mantinha ao lado dos remédios. Conferiu a dose do antitérmico, leu o rótulo duas vezes e deu a quantidade indicada para o peso de Bia.

Depois ligou para o serviço de orientação médica do bairro.

A profissional perguntou sobre respiração, sonolência, hidratação e manchas na pele. Marina respondeu uma a uma. Bia respirava sem esforço, aceitava água e continuava alerta.

“Se a febre não baixar, se ela ficar muito sonolenta ou tiver dificuldade para respirar, leve ao pronto atendimento imediatamente”, orientou a voz. “Mesmo que melhore, procure a UBS pela manhã.”

Marina anotou tudo.

Às quatro e dez, a temperatura caiu para trinta e oito. Bia adormeceu com a cabeça no colo da mãe.

O celular vibrou novamente.

“Você tem até hoje à noite”, escreveu Leandro. “Depois não diga que não avisei.”

Marina fez outra captura de tela.

Desta vez, salvou também o número, a data e o histórico inteiro da conversa. Abriu a pasta digital onde guardava o boletim de ocorrência antigo, fotografias do pulso quebrado e o documento da medida protetiva que já havia expirado.

Na segunda-feira, procuraria a Defensoria Pública.

Leandro não transformaria o medo dela em silêncio outra vez.

Às oito da manhã, Dona Célia bateu à porta.

Trazia uma sacola de pão e uma expressão preocupada.

“Eu ficaria com ela, minha filha, mas hoje tenho a consulta no Graacc com meu neto. Só volto depois das dez da noite.”

“Não se preocupe. Vou resolver.”

Marina fechou a porta e olhou para o calendário preso à geladeira.

O aluguel estava atrasado havia dois meses. Na prateleira, três envelopes somavam quase dezoito mil reais entre exames particulares feitos quando Bia teve pneumonia, medicamentos, juros e mensalidades pendentes da pequena creche comunitária.

Ela tinha cento e vinte e três reais na conta.

Às onze, a supervisora do Santa Aurora telefonou.

“Três pessoas faltaram com gripe. Preciso que você entre às seis e cubra até as seis da manhã.”

“Minha filha está com febre.”

Houve uma pausa.

“Plantão dobrado.”

Marina fechou os olhos.

“Não posso deixá-la sozinha.”

“Traga-a até a troca de turno. Talvez alguém consiga ficar com ela no descanso. Eu não deveria dizer isso, mas estou sem opção.”

Marina tampou o microfone e respirou fundo.

Não havia escolha boa. Havia somente riscos diferentes.

Ela ligou para a UBS e conseguiu um encaixe para a manhã seguinte. Mandou mensagem a Joana, uma colega do hospital, explicando a situação. Joana prometeu verificar Bia sempre que Marina estivesse em outro andar.

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Às cinco da tarde, a febre estava em trinta e sete vírgula oito. Bia bebia água, comera meia banana e discutia seriamente com o Coelho porque ele não queria usar meias.

Marina decidiu ir.

Colocou documentos, termômetro, água, remédio e uma troca de roupa na mochila. Se a temperatura subisse ou a respiração mudasse, abandonaria o plantão e seguiria direto para o pronto atendimento.

Às seis e cinco, entrou no Santa Aurora pelo acesso de funcionários com Bia nos braços.

Joana as esperava perto do vestiário.

“Preparei o sofá da sala de descanso. Eu cubro você nos primeiros quartos.”

“Se ela tossir diferente, me chama. Não importa onde eu estiver.”

“Eu sei.”

Marina se agachou diante da filha.

“A mamãe vai trabalhar aqui perto. A tia Joana fica com você. Se sentir qualquer coisa, chama, está bem?”

Bia assentiu e apertou o Coelho.

Por quatro horas, o acordo funcionou.

Marina limpava um quarto, enviava mensagem, descia dois lances de escada e conferia a temperatura. Joana levava água, trocava o desenho no celular e mantinha Bia sob observação.

Pouco depois das dez, a menina voltou a tremer.

Trinta e nove vírgula um.

Marina nem tentou negociar consigo mesma.

“Acabou. Vou levá-la ao pronto atendimento.”

“Eu aviso a supervisora”, disse Joana.

Marina guardou o termômetro. Bia choramingou quando foi erguida, cansada demais para abrir os olhos.

No corredor do elevador, Marina viu no painel a indicação do décimo oitavo andar.

Faltavam menos de vinte e quatro horas para a nova avaliação de Augusto.

Ela hesitou.

Não subiria para limpar. Não terminaria o plantão. Mas não suportou a ideia de partir sem cumprir a promessa feita na noite anterior.

“Cinco minutos”, disse a Joana. “Depois vou direto para a emergência.”

No décimo oitavo andar, os seguranças olharam para a criança.

“Ela não pode entrar.”

“Então fique com ela enquanto eu me despeço do paciente.”

O mais velho abriu a boca, mas Bia começou a tossir contra o ombro da mãe. O som áspero ecoou pelo corredor vazio.

Marina ajustou a filha nos braços.

“Estou deixando o plantão para levá-la ao atendimento. Só quero entrar, dizer duas frases e sair. Vocês podem ficar com a porta aberta.”

O segurança consultou o companheiro.

Por fim, afastou-se.

“Dois minutos.”

Marina entrou com Bia.

O quarto estava na penumbra. Os monitores piscavam como sempre, mas o silêncio pareceu mais definitivo naquela noite.

“Eu voltei”, disse Marina, aproximando-se da cama. “Só não posso ficar.”

Bia se agitou em seus braços. O choro começou baixo, depois cresceu com o desconforto da febre.

Marina tentou apoiá-la na poltrona, mas a menina arqueou o corpo.

“Mamãe, não.”

“Eu estou aqui, meu amor.”

Ela tentou abrir a mochila com uma mão para buscar a água. Bia chorava, o Coelho caiu no chão e os passos de um segurança se aproximaram da porta.

Marina viu a cama.

Viu o peito de Augusto subir e descer sob o lençol, aquecido pelos cobertores.

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“Perdoe-me”, sussurrou.

Sentou-se na beirada e apoiou Bia de lado sobre o peito dele, mantendo um braço em torno da filha para que ela não pressionasse nenhum tubo.

O choro parou.

Não diminuiu.

Parou.

Bia encostou a bochecha quente no avental de Augusto e soltou um suspiro profundo. Seus dedos pequenos agarraram o tecido. Em menos de um minuto, a respiração ficou lenta.

Marina permaneceu imóvel.

Tentou levantá-la.

Bia abriu a boca e chorou de novo.

Marina tornou a deitá-la com cuidado. A menina relaxou no mesmo instante.

“Está bem”, murmurou. “Só até você dormir de verdade.”

Pegou o Coelho do chão, colocou-o junto ao braço da filha e puxou a cadeira para perto.

Os dois minutos se transformaram em vinte.

O segurança olhou pela porta, viu Marina segurando a criança e não entrou. Talvez soubesse que aquela seria a última noite. Talvez estivesse cansado de obedecer a homens que tratavam a morte como uma reunião de negócios.

Marina começou a falar.

Contou a Augusto que Bia estava doente, que ela havia escolhido trabalhar mesmo odiando a própria decisão e que, em poucos minutos, levaria a menina ao pronto atendimento.

Contou que Leandro reaparecera.

“Mas desta vez eu guardei tudo”, disse. “Não vou apagar mensagem. Não vou fingir que ameaça não aconteceu só porque tenho medo de piorar.”

O monitor cardíaco oscilou.

Marina levantou os olhos.

O número subiu dois pontos e voltou. Poderia ser uma reação automática, uma interferência, qualquer coisa.

Ela se inclinou.

“A Bia diz que a lua não vai embora durante o dia. Só fica escondida até a gente precisar olhar de novo.”

O ritmo mudou outra vez.

Na névoa, Augusto sentiu peso.

Calor.

Um coração pequeno batendo depressa contra o seu.

A voz conhecida atravessava o cinza, mas agora não vinha de longe. Estava ao lado dele. Perto o bastante para que cada palavra tivesse forma.

Lua.

Medo.

Voltar.

Algo segurava o tecido sobre seu peito.

Augusto tentou se mover em direção àquele toque.

Seu corpo não respondeu.

Tentou novamente.

Marina olhou para a mão direita dele.

O indicador havia se mexido.

Ela prendeu a respiração e tocou os dedos dele.

“Augusto?”

O indicador se moveu uma segunda vez.

Então, devagar, os dedos frios se fecharam ao redor do dedo de Marina.

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