"A Menina Que Trouxe o Rei da Noite de Volta" Capítulo 1 — O Homem Que Ninguém Veio Amar
Capítulo 1 — O Homem Que Ninguém Veio Amar
O arranjo de lírios brancos chegou ao Hospital Santa Aurora pouco depois das duas da manhã.
Era grande demais para passar pela porta giratória sem que o entregador o inclinasse. As flores estavam frescas, caras e presas por uma fita preta que lembrava uma faixa de funeral.
No cartão, havia apenas uma frase.
“Ao rei que já morreu.”
Caio Nunes leu duas vezes.
Depois arrancou o cartão, amassou-o dentro do punho e mandou que levassem o arranjo para o lixo.
As pétalas brancas caíram pelo corredor do décimo oitavo andar enquanto dois seguranças empurravam a coroa para o elevador de serviço.
Nenhum deles perguntou quem a havia enviado.
Não era necessário.
Mauro Siqueira queria que todos soubessem que, para ele, Augusto Ferraz já estava morto.
Dentro do quarto 1804, as máquinas ainda discordavam.
O monitor cardíaco marcava um ritmo lento. O respirador enchia os pulmões de Augusto com uma regularidade impessoal. Três bolsas transparentes pendiam ao lado da cama, alimentando um corpo que havia sobrevivido a três tiros, duas cirurgias e vinte e um dias de silêncio.
Sobreviver, porém, não era o mesmo que voltar.
Aos trinta e sete anos, Augusto Ferraz controlava a maior empresa privada de transporte refrigerado do estado e uma rede de restaurantes que estampava revistas de negócios.
Também controlava galpões que não apareciam em contrato algum, rotas noturnas que nenhuma fiscalização conseguia acompanhar e homens que obedeciam antes mesmo de ele terminar uma ordem.
Em São Paulo, os jornais o chamavam de empresário.
Nos bairros onde caminhões sem placa cruzavam a madrugada, chamavam-no de Rei da Noite.
Naquela cama, era apenas um homem imóvel.
E os homens que o visitavam não perguntavam se ele sentia dor.
Perguntavam quem assinaria as transferências.
Quem assumiria os centros de distribuição.
Quem responderia quando Mauro avançasse sobre as rotas da zona sul.
Naquela tarde, quatro diretores haviam entrado no quarto em horários diferentes. Nenhum permaneceu por mais de cinco minutos. Uma mulher de vestido preto deixou um perfume caro no ar, tirou uma fotografia escondida e saiu sem tocar nele.
Até Henrique Ferraz, seu irmão mais velho, parou do lado de fora.
Henrique segurava uma pasta azul contra o peito. Tinha quarenta e dois anos, um terno impecável e o rosto de alguém que passara três semanas sem dormir direito, embora continuasse fingindo o contrário.
“A junta médica se reúne novamente em setenta e duas horas”, disse ele.
Caio bloqueou a porta com o próprio corpo.
“Ele ainda está respirando.”
“Por uma máquina.”
“Ainda está respirando.”
Henrique apertou a pasta.
Dentro dela estavam o relatório neurológico, o parecer do comitê de ética e a autorização familiar para interromper medidas consideradas inúteis caso não surgisse nenhuma mudança clínica.
Ele já havia assinado.
“Você quer que eu faça o quê?”, perguntou Henrique. “Que eu mantenha meu irmão preso a uma cama para você não admitir que falhou?”
Caio avançou um passo.
Por um instante, os dois ficaram próximos o bastante para que a raiva de um alcançasse a culpa do outro.
“Eu tirei Augusto daquele asfalto com sangue até nos cotovelos”, Caio respondeu. “Não vou ajudar vocês a enterrá-lo enquanto o coração dele ainda bate.”
Henrique olhou através do vidro estreito da porta.
Augusto parecia menor entre os lençóis, apesar dos ombros largos. Havia tubos em sua boca, curativos sob o avental hospitalar e uma cicatriz antiga cortando a sobrancelha esquerda.
“Ele não me perdoaria por deixá-lo assim”, murmurou Henrique.
“Então entre e pergunte.”
Henrique não entrou.
Virou-se e caminhou até o elevador sem olhar para trás.
Marina Alves viu tudo da extremidade do corredor, com as duas mãos apoiadas no carrinho de limpeza.
Ela conhecia o nome do paciente, mas não conhecia sua história.
Na ficha presa aos pés da cama estava escrito apenas Augusto Ferraz, trinta e sete anos. Os seguranças armados e o andar quase isolado diziam que ele era importante. Os ternos escuros, as conversas interrompidas quando ela se aproximava e o arranjo de funeral diziam que talvez fosse perigoso.
Nada disso mudava o que Marina via todas as noites.
Um homem sozinho.
Ela esperou Henrique desaparecer e aproximou o crachá do leitor.
Um dos seguranças conferiu seu rosto.
“Dez minutos.”
“O quarto leva quinze.”
“Hoje leva dez.”
Marina ergueu o queixo.
“Se alguém pegar uma infecção porque vocês têm pressa, não coloquem meu nome no relatório.”
O homem a encarou. Ela sustentou o olhar até que ele se afastasse da porta.
“Quinze”, concedeu.
Marina entrou.
Trocou o saco do lixo, limpou as superfícies, verificou se havia líquido no chão e passou o pano longe dos cabos. Trabalhava depressa, mas não de qualquer jeito. Na empresa terceirizada, os supervisores lembravam às funcionárias que eram substituíveis. As bactérias, entretanto, não se importavam com contratos precários.
Quando terminou, Marina puxou a cadeira para perto da cama.
Fazia aquilo havia dezessete noites.
Na primeira, falara apenas para avisar que acenderia a luz.
Na segunda, comentara sobre a chuva.
Na terceira, percebeu que ninguém tinha dito uma única palavra diretamente a Augusto durante todo o plantão. Falavam sobre ele, ao redor dele e como se ele já não estivesse ali.
Então Marina começou a conversar.
“A Bia aprendeu uma palavra nova hoje”, disse, em voz baixa. “Lua.”
O monitor continuou apitando.
“Ela aponta para qualquer coisa redonda e diz que é lua. O prato, a tampa da panela, até uma mancha de umidade no teto.”
Marina sorriu apesar do cansaço.
“Acho que ela pensa que a lua mora dentro de casa durante o dia.”
Ela pegou um pano limpo e retirou uma marca quase invisível da mesa lateral.
“Também tentou dar mingau ao Coelho. É o nome do bichinho dela. Ele não é bem um coelho bonito. Falta uma orelha e o enchimento está saindo de uma pata. Mas a Bia decidiu que ele sente fome.”
Marina olhou para o rosto imóvel.
“Se você puder ouvir, não ria. Todo mundo precisa cuidar de alguma coisa.”
Do lado de fora, Caio permanecia encostado na parede.
Ele ouvira homens implorarem a Augusto por dinheiro, território e pela própria vida. Ouvira aliados jurarem lealdade e inimigos oferecerem acordos.
Nunca ouvira alguém falar com ele sobre mingau e um coelho sem orelha.
Caio não interrompeu.
No lugar onde Augusto existia, não havia teto, cama ou dor.
Havia um espaço cinzento sem direção. Sons médicos atravessavam a névoa, mas se desfaziam antes que ele pudesse compreendê-los.
Pressão.
Resposta pupilar.
Prognóstico.
Depois vinham vozes masculinas carregadas de números e medo.
Rotas.
Contas.
Sucessão.
Essas palavras o empurravam para mais fundo.
Mas, todas as noites, surgia outra voz.
Ela não exigia que ele voltasse. Não o chamava de chefe. Não prometia vingança nem perguntava onde estava escondido o dinheiro.
Contava histórias pequenas.
Uma menina que acreditava que a lua morava numa tampa de panela.
Um ônibus que demorava cinquenta minutos para atravessar a cidade.
Um coelho de pano que precisava ser alimentado.
Augusto não sabia quem falava.
Não sabia sequer se Augusto era seu nome.
Mas, quando aquela voz chegava, o cinza ficava menos espesso.
Naquela noite, Marina permaneceu até o segurança bater duas vezes no vidro.
Ela se levantou.
“Amanhã eu volto”, prometeu, sem saber por que sentia necessidade de prometer.
Ao abrir a porta, encontrou a enfermeira Lúcia esperando no corredor. A mulher tinha olheiras profundas e segurava dois prontuários contra o peito.
“Marina, posso falar com você?”
As duas se afastaram dos seguranças.
“A família autorizou a última avaliação”, disse Lúcia. “Se ele continuar sem resposta, o suporte será revisto em setenta e duas horas.”
Marina olhou para a porta fechada.
“Então é isso?”
“Não exatamente. Há protocolos, exames, uma equipe inteira. Mas… você conversa com ele todas as noites. Achei que deveria saber.”
O celular de Marina vibrou no bolso.
Ela o tirou pensando que fosse Dona Célia, a vizinha que cuidava de Bia durante o plantão.
O nome na tela fez seu corpo inteiro endurecer.
Leandro.
Havia quase dois anos que o pai de Bia não aparecia.
A mensagem dizia:
“Soube que você deixa minha filha com qualquer pessoa para trabalhar de madrugada. Isso pode ser abandono de incapaz. Ou você conversa comigo, ou amanhã faço uma denúncia e peço a guarda da Bia.”
Marina leu até o fim.
Depois tirou uma captura de tela, encaminhou-a para um e-mail que Leandro não conhecia e guardou o telefone.
Atrás da porta, um homem tinha setenta e duas horas para provar que ainda estava vivo.
Na tela apagada de seu celular, outro homem acabava de ameaçar tirar dela a única pessoa por quem continuava vivendo.
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