"A Menininha que Destruiu o Bolo de Aniversário do Don" Capítulo 5
Isadora Moretti abandonara o carro no aeroporto de Guarulhos aos vinte e sete anos.
A conta bancária fora esvaziada na mesma manhã. O pai declarou traição, Vítor procurou um corpo e Dante passou anos acreditando que a irmã escolhera desaparecer.
Renato acabara de provar que ela voltara seis anos antes.
Marco encontrou pagamentos de empresas suíças para uma conta em nome de Isadora Marchetti. As transferências partiam de sociedades ligadas a Júlio.
— Trabalharam juntos — disse Dante.
— Ou ele pagou para mantê-la presa — respondeu Lívia.
— Ela levou dinheiro ao homem que matou Sofia.
— Renato disse que ela entregou um envelope. Não sabe o que ela conhecia.
Dante fechou o tablet.
— Você sempre encontra espaço para dúvida.
— Passei seis anos corrigindo acusações entre funcionários. A primeira história raramente contém todas as chaves.
Malu desenhava no chão da biblioteca enquanto eles discutiam. Usava o vermelho para Dante, o amarelo para Enzo e traços pretos muito compridos para representar os braços da mãe.
Depois desenhou uma mulher de vestido verde.
— Quem é? — perguntou Lívia.
— A moça do homem do bolo.
Dante se abaixou.
— Ela estava na festa?
— Atrás das flores.
Marco localizou a figura em vinte minutos. Cabelos loiros, olhos verdes, vestido escuro e uma pequena cicatriz abaixo da orelha esquerda.
Malu pediu o lápis verde de volta e desenhou uma linha entre a mulher e Júlio.
— Eles falaram aqui.
— Você ouviu? — perguntou Marco.
— A moça disse "não faz". O homem falou que era tarde.
Dante aproximou a fotografia.
— Ela tentou impedir também.
— Ou queria que uma criança acreditasse nisso — disse Marco.
Lívia colocou o desenho ao lado da tela.
— Malu estava escondida. Eles não sabiam que ela ouvia.
Uma gravação lateral mostrou Isadora alcançando o braço de Júlio perto das flores. Ele a soltou e seguiu para o corredor.
Dante assistiu três vezes. A raiva continuava no rosto, mas a decisão de ouvi-la já estava tomada.
— Localize a ligação que ela tentou fazer — ordenou.
Marco encontrou o registro no escritório executivo. A chamada bloqueada durara nove segundos antes de a assistente desligar.
A mulher pedira demissão dois dias depois e comprara passagem para Lisboa. A Polícia Federal a retirou do avião antes da decolagem.
No depoimento inicial, ela admitiu que Júlio pagava para filtrar mensagens destinadas a Dante. Também confirmou que Isadora tentara alertar sobre "uma ação contra o menino" na semana da festa.
— Sua irmã não ficou em silêncio — disse Lívia.
Dante guardou o desenho de Malu.
— Tentou uma vez.
— Depois de dezoito anos fugindo, uma vez pode ter custado tudo o que ela tinha.
A cirurgia mudara o rosto. O sinal permanecera.
— Ela esteve a quarenta metros de mim — disse Dante.
Enzo, sentado ao lado de Malu, tocou a fotografia.
— Ouvi essa mulher perguntar quanto demorava até o Hotel Emiliano.
Uma hóspede chamada Isadora Marchetti deixara o hotel pouco antes da chegada da equipe. No quarto vazio, havia um envelope sobre a cama.
A fotografia mostrava Dante e Isadora ainda crianças, junto a uma represa. No verso, lia-se: EU NUNCA QUIS MACHUCAR ENZO.
Também havia um número.
Dante ligou no viva-voz.
— Você ainda respira como o papai quando está com raiva — disse uma mulher.
Ele fechou os olhos.
— Onde está?
— Longe do alcance de Júlio.
— Você ajudou a matar Sofia.
— Tentei impedir.
Isadora contou que Júlio a ajudara a fugir do controle do pai. Anos depois, chamou-a de volta dizendo que Sofia descobrira crimes de Augusto Moretti e corria perigo.
Ele apresentou a sabotagem como ameaça para fazê-la deixar Dante. Isadora descobriu tarde demais que a falha fora projetada para acontecer na serra.
— Por que não me procurou? — perguntou Dante.
— Júlio ligou meu nome ao pagamento da oficina. Disse que você me mataria antes de ouvir.
— E você acreditou.
— Eu conhecia o nosso pai. Ainda não conhecia o homem em que você tinha se transformado.
— Agora conhece?
— Vi você ajoelhar diante de uma criança que destruiu seu salão.
Isadora pediu que Lívia acompanhasse o encontro. Queria alguém de fora do código dos Moretti.
Dante recusou de imediato. Lívia esperou que ele terminasse de listar riscos e colocou o telefone sobre a mesa.
— Sua irmã escolheu a condição. Sem mim, não há encontro.
— Posso rastrear a chamada.
— E chegar a uma sala vazia.
— Ela pode estar usando você.
— Pode. Por isso Marco vai planejar a segurança e eu vou decidir se aceito.
Dante caminhou até a janela. Quando voltou, trouxe um colete discreto e explicou como acionar o transmissor.
— Você mudou de ideia rápido — disse Lívia.
— Você já tinha decidido.
— Estou permitindo que se acostume.
Ele ajustou o fecho no ombro dela sem tocar a pele. A proximidade durou pouco, mas os dois ficaram em silêncio depois.
— Se Isadora mandar você sair comigo, saímos — disse Dante.
— Se eu enxergar uma arma, não espero sua autorização.
— Justo.
No trajeto, ele contou que Isadora cantava para ele durante tempestades. Era a primeira lembrança da irmã que não envolvia acusação ou fuga.
Lívia ouviu sem fazer perguntas até a igreja aparecer atrás das árvores. Dante desligou o carro, mas permaneceu com as mãos no volante.
— Se ela estiver mentindo, eu tiro você de lá primeiro.
— Tire as crianças desse plano primeiro — respondeu Lívia.
Ele assentiu. Marco abriu a porta, e os três atravessaram o portão quebrado sem saber se Isadora chegara para confessar ou conduzi-los a Júlio.
Encontraram-se numa igreja desativada em Santana de Parnaíba. Marco cercou o terreno, e Malu ficou com Enzo sob a proteção de Raul.
Isadora esperava sob um vitral quebrado, usando um casaco cor de camelo. Ao ver o irmão, levou a mão à boca.
— Meu irmãozinho.
Dante parou a vinte passos. Dezoito anos cabiam naquela distância.
Ele atravessou a nave e a abraçou. Isadora chorou contra o ombro dele por três segundos; quando se separaram, Dante pediu a localização de Júlio.
— Não sei onde ele dorme. Sei o que pretende fazer.
Ela abriu uma pasta. Júlio precisava destruir os documentos originais guardados num cofre subterrâneo sob uma antiga propriedade da família, perto de Jundiaí.
O envenenamento falhara. Agora ele pretendia sequestrar Enzo e Malu para forçar Dante a abrir o cofre.
— Por que a minha filha? — perguntou Lívia.
— Ela reconhece o rosto dele. E Dante entregaria qualquer coisa pelas duas crianças.
— Entregaria — confirmou Dante.
Isadora segurou o braço do irmão.
— É isso que ele espera.
As janelas explodiram antes que Marco completasse o aviso. Os três caíram atrás dos bancos, enquanto tiros atingiam madeira e reboco.
A equipe retirou-os por uma porta lateral. O ataque durou menos de um minuto.
Dante recebeu a ligação da mansão já dentro do carro.
Um alarme de incêndio falso provocara a evacuação. Dois homens com uniformes do Corpo de Bombeiros desviaram as crianças antes que a equipe percebesse a troca.
Lívia agarrou o encosto do banco.
— Onde está Malu?
Dante não conseguiu responder de imediato.
— Levaram os dois.
Dez minutos depois, o vídeo chegou.
Enzo e Malu estavam amarrados a cadeiras num galpão escuro. O menino segurava os dedos da amiga.
Júlio entrou no quadro com a andorinha azul exposta.
— Traga os originais para a propriedade do vale até meia-noite — disse. — Venha sozinho.
Malu olhou para a câmera.
— Mamãe.
Lívia tocou a imagem congelada. A mão esquerda da filha descansava sobre o vestido, com três dedos levantados.
— Ela está falando comigo.
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