"A Menininha que Destruiu o Bolo de Aniversário do Don" Capítulo 4
O sangue pertencia a Vítor.
Raul comparou a amostra com o prontuário e telefonou para Dante antes do amanhecer. Não havia quantidade suficiente para indicar morte, e nenhuma câmera mostrava o homem entrando ou saindo do viaduto.
Durante quarenta e oito horas, Dante dormiu em intervalos de vinte minutos. Lívia reconhecia o padrão pela luz acesa sob a porta do escritório.
Ela também não conseguia descansar. Qualquer passo no terceiro andar a fazia procurar Malu; qualquer porta fechada levava Enzo a conferir se o pai continuava na casa.
Na terceira noite, Lívia encontrou Dante no salão vazio. Os enfeites já tinham sido retirados, mas uma linha de creme cor-de-rosa permanecia entre duas placas de mármore.
— Raul disse que você precisa dormir.
— Ele disse o mesmo sobre você.
Lívia puxou uma cadeira, deixando duas vagas entre eles.
— Júlio quer que você olhe para o sangue e pare de olhar para o resto.
Dante virou o anel entre os dedos.
— Meu tio me criou. Meu pai pagava professores; Vítor me ensinou a andar de bicicleta, dirigir e fazer a barba.
— Isso explica por que a caixa funcionou.
— Funcionou?
— Você está há dois dias perseguindo a imagem que Júlio escolheu. Ele decide quando você fica com raiva, de quem você desconfia e para onde olha.
Dante recostou na cadeira.
— Você administra camareiras ou interrogatórios?
— Vinte e três camareiras. Interrogatório costuma ser mais simples.
Ele soltou uma risada curta. O som pareceu estranho no salão onde todos ainda lembravam a queda do bolo.
O celular vibrou.
Enquanto aguardavam a equipe preparar o carro, Lívia voltou ao risco de creme entre os azulejos. Pediu um pano e limpou a mancha até a superfície ficar branca outra vez.
Dante observou.
— Eu mandaria trocar a placa inteira.
— Malu não precisa encontrar o bolo toda vez que entrar aqui.
Ele se abaixou e ajudou a recolher os últimos resíduos com um cartão. O relógio caro raspou no piso; Dante não pareceu notar.
— Sofia dizia que eu tentava resolver culpa comprando paredes novas.
— Ela conhecia você.
— Melhor do que eu a conheci no fim.
Lívia entregou-lhe o pano.
— Encontrar Vítor vem antes de julgar o que você não viu.
Ele assentiu e levantou.
— Encontramos Vítor — informou Marco. — Hospital São José, em Osasco. Um padre o achou atrás de uma igreja.
Dante se levantou.
— Vivo?
— Consciente por alguns minutos. Pediu por Enzo e pela menina.
Lívia pegou o casaco.
— Você fica — disse Dante.
— Malu ouviu Vítor chamar Júlio pelo nome. Se ele acordar confuso, minha presença pode ajudá-lo a organizar a lembrança.
— O hospital pode estar vigiado.
— Então ande perto de mim.
Ele sustentou o olhar dela, depois abriu a porta.
— Muito perto.
Vítor tinha duas costelas quebradas, um corte no pulso e hematomas que cobriam metade do rosto. Dante parou ao lado da cama e tomou a mão do tio sem dizer nada.
Quando Vítor abriu os olhos, procurou o sobrinho.
— Enzo?
— Seguro.
— Malu?
— Com a mãe.
O homem expirou e fechou os olhos.
— Graças a Deus.
Dante aproximou a cadeira.
— Júlio quer o quê?
— Sua vida.
— Ele tentou tirar a vida do meu filho.
— Quer tudo o que você tem. Nome, empresas, família. Até a mulher que escolheu você.
O monitor acelerou. Raul pediu calma, mas Vítor insistiu em falar.
Júlio amara Sofia desde a juventude. Depois do casamento, aparecia quando Dante viajava, telefonava à noite e dizia que ela escolhera o homem errado.
— Sofia me contou duas semanas antes do acidente — disse Vítor.
Dante largou a mão dele.
— Você sabia que ele a perseguia.
— Ela pediu que eu não contasse. Queria resolver sem provocar uma guerra.
— E morreu.
— Eu suspeitei dele. Não tinha prova.
Vítor explicou que, três meses antes, Júlio ressurgira e mostrara fotos de Margarida. Exigira encontros, rotinas e senhas; Vítor fingira colaborar para manter a esposa viva.
— Onde está Margarida agora? — perguntou Lívia.
Vítor virou o rosto para Raul.
— Num apartamento em Santos. Ou estava.
Dante chamou Marco. A equipe costeira encontrou a tia trancada num quarto, sedada, com um cuidador contratado por uma empresa falsa.
Ela estava viva. O cuidador fugira horas antes, deixando ampolas, um telefone descartável e fotografias da mansão.
Vítor chorou sem som quando ouviu a voz da esposa pelo telefone do hospital.
— Eu devia ter contado — disse a ela.
Margarida respondeu com dificuldade:
— Devia ter confiado em mim.
Dante ficou perto da porta durante a ligação. A frase atingiu todos na sala.
Depois, autorizou que a polícia recolhesse o aparelho e pediu proteção oficial para a tia. Marco pareceu surpreso por ele escolher agentes públicos, mas Dante apontou para Vítor.
— Júlio conhece nossos homens e nossos hábitos. Quero uma estrutura que ele não tenha desenhado.
Lívia fechou a cortina para reduzir a luz sobre o paciente.
— Você está mudando o plano.
— Estou ouvindo fatos novos.
— Isso é diferente do rei bravo do castelo.
— Não conte às crianças. Tenho uma reputação.
Vítor riu e gemeu de dor ao mesmo tempo. Raul mandou todos se calarem por cinco minutos.
Na festa, ele vira Júlio seguir para a câmara fria. Correu atrás e mandou que parasse.
— Ele me jogou contra a prateleira. Disse que Margarida morreria se eu chamasse Marco.
— Depois você foi encontrá-lo sozinho.
— Eu queria tirá-la do alcance dele.
— Você quase morreu.
— Eu errei.
Dante ficou junto à janela até a respiração do tio se estabilizar.
— Que acesso ele queria?
— O fideicomisso de Enzo.
O pai de Dante deixara ações de controle em um fundo. Se Dante morresse, elas passariam ao filho; caso Enzo morresse menor de idade, o administrador temporário assumiria bilhões em participações.
Júlio falsificara uma emenda antes de desaparecer. O documento o tornava administrador e venceria quando Enzo completasse nove anos.
— O aniversário abriu a última janela — disse Lívia.
Vítor assentiu.
— Ele tem onze meses para validar a fraude ou destruir os originais.
Marco ligou durante a explicação. Um invasor entrara no escritório da mansão e deixara uma fotografia de Sofia diante do carro, três dias antes do acidente.
No verso, uma frase: ELA ESCOLHEU VOCÊ.
A ampliação revelou dois homens refletidos numa janela. Um era Júlio; o outro usava uniforme de uma oficina de Santo André.
Encontraram o mecânico, Renato Pires, em uma casa pequena na Vila Prudente. Ele começou a chorar assim que viu Dante no portão.
— Eu sabia que este dia chegaria.
Dante colocou a fotografia sobre a mesa.
— Conte o que fez nos freios de Sofia.
Renato admitiu ter enfraquecido a mangueira. Júlio prometera que o defeito surgiria com o carro estacionado, apenas para assustá-la.
— Você recebeu de quem?
— Uma mulher levou o dinheiro.
— Nome.
— Nunca soube. Era loira, olhos verdes, sotaque da família de vocês. Tinha uma cicatriz debaixo da orelha esquerda.
Marco prendeu a respiração.
Lívia olhou para Dante.
— Quem é?
Ele guardou a fotografia com cuidado.
— Minha irmã, Isadora. Desapareceu há dezoito anos.
Renato abriu uma gaveta e tirou um recibo antigo. O pagamento viera de uma empresa de fachada, mas o verso carregava duas anotações: um número de telefone suíço e as iniciais I.M.
— Guardei para me proteger — disse. — Passei seis anos olhando para isso e esperando alguém bater na porta.
Marco lacrou o papel.
Dante perguntou por que o mecânico nunca procurara a polícia.
— Porque seu sobrenome estava de um lado e Júlio do outro.
— Uma mulher morreu.
— Eu sei.
Renato não pediu perdão. Ofereceu nomes, contas e o endereço do intermediário que falsificara a inspeção dos freios.
Ao sair, Lívia encontrou Dante parado junto ao carro, com a mão apoiada no teto.
— Você quer acreditar que Isadora matou Sofia — disse ela.
— Quero uma resposta que eu possa alcançar.
— A resposta fácil já enterrou Júlio uma vez.
Ele abriu a porta para ela.
— Então vamos procurar a difícil.
De repente, Júlio deixou de ser o único fantasma que voltara.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4