"A Menininha que Destruiu o Bolo de Aniversário do Don" Capítulo 3
Às seis da manhã, as rosas desapareceram.
Funcionários carregaram os vasos do salão para um caminhão, enquanto Marco supervisionava a retirada como se as flores escondessem explosivos.
— São rosas — disse Lívia.
— São objetos que entraram sem inspeção individual.
— As cortinas serão interrogadas depois?
Marco quase sorriu.
— Se continuarem suspeitas.
A leveza durou pouco. Um mensageiro chegou com um celular descartável encontrado dentro do carro abandonado de Júlio.
Havia uma única fotografia na memória. Mostrava Lívia e Malu diante da janela do terceiro andar, na manhã anterior.
A menina abraçava o coelho de pano que Enzo lhe emprestara. Lívia reconheceu o cardigan azul e a xícara quebrada no parapeito.
— Alguém nos fotografou depois da mudança — disse.
Dante examinou a imagem.
— O ângulo veio da mata ao norte.
Marco abriu uma vista aérea.
— Existe uma trilha pública na elevação, a setecentos metros. Uma lente longa alcança a janela.
— Feche a trilha.
— A prefeitura não fecha parque público por ordem nossa.
Dante apoiou as mãos na mesa.
— Encontre uma forma legal.
Lívia pegou a fotografia.
— Quero levar Malu embora.
— Não — respondeu Dante.
— Ele enxerga dentro desta casa.
— Fora dela, escolhe o terreno.
— Aqui ele escolheu o bolo do seu filho.
O silêncio alcançou até os seguranças na porta. Dante olhou para Enzo, que montava um castelo de papelão com Malu na biblioteca.
— Eu sei — disse.
Lívia baixou a voz.
— Fui cruel.
— Você foi exata.
Dante entrou na biblioteca e recolheu um pedaço de papelão do chão. As crianças tinham desenhado uma coroa sobre a figura de um homem carrancudo.
Enzo mostrou uma porta recortada na lateral do castelo.
— Esta saída é secreta.
— Segredo de segurança deve ser conhecido por quem protege você — disse Dante.
O menino retirou a porta e a colocou no colo do pai.
— Então você pode saber.
Lívia percebeu que Enzo aprendera a tratar confiança como permissão. Vivia entre códigos, homens armados e conversas interrompidas quando entrava numa sala.
— Ele deveria ter um botão para chamar ajuda — sugeriu.
— Há botões em três cômodos — respondeu Dante.
— Ele sabe usar?
Dante olhou para o filho.
— Você sabe?
Enzo apontou para a estante, a escrivaninha e o corredor. Acertou dois, errou um.
Naquela tarde, Marco transformou a orientação em brincadeira. As crianças percorriam a casa procurando saídas, telefones e adultos seguros, sem mencionar armas ou invasores.
Malu corrigiu um segurança que bloqueava a escada.
— Saída não pode ficar tampada.
Marco moveu-se para o lado.
— Sim, senhora.
O exercício revelou uma porta de serviço cuja fechadura travava. Dante mandou consertá-la, depois pediu que Lívia revisasse o percurso.
— Eu cuido de quartos, não de evacuação.
— Você vê o que meus relatórios não veem.
Ela aceitou a planta e marcou dois corredores estreitos. Pela primeira vez, o nome dela apareceu numa reunião sem estar acompanhado da palavra "funcionária".
— Quem é?
— O rei bravo — respondeu Enzo.
— Parece com você — acrescentou Malu.
Dante ergueu a sobrancelha.
— Eu faço essa cara?
Os dois juntaram as sobrancelhas e apertaram a boca. Lívia levou a mão ao rosto, mas uma risada escapou.
Dante encarou-a. O canto da boca dele subiu por um instante.
— Sua filha não tem medo de mim.
— Ela ainda não aprendeu a ler jornais.
— Melhor assim.
Ele sentou no tapete, ainda de camisa e calça social, e ajudou Enzo a prender uma torre. A fita adesiva colou no relógio caro.
O telefone tocou antes que conseguissem soltá-la.
Naquela tarde, Enzo apareceu na cozinha enquanto Lívia preparava chocolate quente. Malu estava sobre um banco, contando marshmallows.
— Minha mãe tinha medo do meu pai? — perguntou o menino.
Lívia derramou um pouco de leite no balcão.
— Por que está perguntando isso?
— Tio Vítor disse que papai não conseguiu salvar mamãe.
— Quando?
— No Natal. Eles discutiram na escada.
Enzo empurrou um marshmallow com o dedo.
— Ele falou: "Primeiro Sofia, agora todo o resto. Quantas pessoas precisam sumir?"
Lívia levou o assunto a Dante depois que as crianças dormiram.
O escritório tinha ganhado caixas de documentos. Ele destrancou um armário e retirou o inquérito da morte de Sofia.
— Ela morreu três meses antes de Júlio — disse.
— Também numa tempestade?
— O carro perdeu os freios na serra de Campos do Jordão.
Fotos mostravam o veículo contra uma árvore. O relatório atribuía a falha a detritos na pista.
Lívia encontrou uma ordem de manutenção feita três dias antes.
— Os freios foram inspecionados.
Dante pegou a página. O responsável pela frota era Vítor.
— Meu tio amava Sofia.
— E escondeu Júlio por três meses.
— Ele disse que protegia Margarida.
— Pode ter escondido mais de uma coisa.
Dante caminhou até a janela.
— Onde está o pai de Malu?
A pergunta veio sem relação aparente, mas Lívia entendeu o que a provocara: um homem morto, um tio suspeito e o medo de falhar com um filho.
— Na Califórnia, na última notícia. Foi embora quando ela tinha cinco meses.
— Telefona?
— Quando a culpa lembra meu número.
— Dinheiro?
— Às vezes.
Dante apertou a pasta de Sofia.
— Ele tem uma filha capaz de enfrentar um salão inteiro e escolheu não conhecê-la.
— Algumas pessoas só valorizam o que perderam.
Os olhos dele voltaram à foto da esposa.
— Eu valorizava. Só não enxerguei o perigo.
Marco entrou sem bater e abriu uma gravação recuperada. Júlio atravessava o salão na direção do corredor de serviço; vinte segundos depois, Vítor surgia atrás dele.
O homem mais velho tocava dois dedos no paletó. Júlio respondia com um aceno.
Outra câmera mostrou Vítor entrando no corredor e saindo quatro minutos depois.
Lívia acordou Malu e mostrou uma fotografia do tio de Dante.
— Ele estava com o homem do bolo?
— Estava.
— O que ele fez?
— Falou "Júlio, para".
Dante ouviu da porta.
— Vítor tentou impedir.
— E escondeu isso — disse Marco.
Foram ao quarto seguro. A cama estava intacta, a janela fechada e o guarda desacordado no corredor.
O telefone de Vítor foi encontrado no apartamento dele, na capital. O carro apareceu sob um viaduto de Osasco.
Antes de sair, Dante passou pelo quarto das crianças. Enzo dormia dentro do castelo de papelão, com a porta secreta apoiada no peito; Malu mantinha uma mão fechada ao redor do lápis azul.
Lívia retirou o lápis devagar para evitar que a ponta a ferisse.
— Se Vítor estiver vivo, Júlio quer que você o encontre — disse ela.
— Então a caixa pode ser um mapa.
— Ou um relógio. Ele pode estar medindo quanto tempo você leva para reagir.
Dante chamou Marco e ordenou que as equipes procurassem hospitais, igrejas e abrigos num raio compatível com o horário do abandono. Pediu também que ninguém divulgasse o sangue à imprensa.
— Júlio espera pânico — falou. — Vamos dar silêncio e busca organizada.
Lívia percebeu que ele havia escutado o alerta do salão vazio antes mesmo de ela formulá-lo.
Na garagem, Dante lhe entregou um telefone com apenas quatro contatos: ele, Marco, Raul e a central pública de emergência.
— Não quero um aparelho monitorado no meu bolso.
— A localização fica desligada até você acionar o alerta.
Ela verificou a tela e guardou o aparelho.
— Assim serve.
O telefone vibrou antes que ela alcançasse o elevador. Era o alerta de Marco: uma caixa preta acabara de ser localizada no carro de Vítor.
No banco do passageiro havia outra caixa preta.
Marco levantou a tampa com luvas. O anel da família repousava sobre algodão branco, coberto de sangue.
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