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"A Filha Tremia Diante da Madrasta" Capítulo 4

正文开头

Daniel tentou retornar. O número não aceitava chamadas.

Anotou os últimos dígitos, salvou uma captura do registro e foi até a janela. As lanternas traseiras do carro de Clara desapareceram na esquina.

— Era a Célia? — perguntou Lívia.

— Talvez.

— Ela fala baixinho assim.

Daniel bloqueou o número no telefone fixo e pediu a Cida que dormisse no quarto de hóspedes. Não queria transformar a casa num posto de vigilância, mas também não pretendia fingir que uma desconhecida ligada a Clara não acabara de procurar por ela.

Na manhã seguinte, ligou para a empresa. Cancelou a viagem a Curitiba, transferiu a vistoria de obra para outro engenheiro e pediu dois dias de trabalho remoto.

O diretor reclamou.

— Você já ficou quatro dias no canteiro, Daniel. A entrega é sexta.

— Minha filha precisa de mim hoje.

— E semana que vem?

Daniel olhou pela porta do escritório. Lívia tentava abrir um pote de geleia sem chamar ninguém.

— Semana que vem eu redistribuo minhas visitas. Mando o plano até o fim do dia.

Ele desligou antes que a conversa virasse pedido de licença para ser pai.

Clara enviou o contato de Célia sem sobrenome. Depois escreveu três parágrafos sobre cansaço, sacrifício e injustiça. Daniel respondeu com uma frase: "Guarde as mensagens e não procure Lívia sem combinar comigo."

Helena conseguiu encaixe na clínica naquela tarde.

Daniel estacionou perto da entrada. Quando foi abrir a porta traseira, Lívia segurou o aro.

— Eu consigo fazer.

Ele recuou.

Ela destravou a cadeira, posicionou a tábua de transferência e passou do banco para o assento com movimentos conhecidos. Daniel segurou apenas a cadeira para que não deslizasse.

— Você tá me olhando demais.

— Mau hábito novo.

— Parece câmera de segurança.

Daniel ergueu as mãos e deu dois passos para trás.

Na sala de fisioterapia, Helena se agachou diante da menina.

— A gente pode conversar antes de começar?

Lívia assentiu.

— O que aconteceu em casa não faz parte de nenhum exercício. Água fria não é tratamento. Cansaço não é fracasso. Se você disser para, todo mundo para.

Daniel ficou junto à parede.

— Inclusive seu pai — acrescentou Helena.

— Principalmente ele — disse Lívia.

Helena sorriu.

Ela colocou o cinto de marcha ao redor da cintura da menina e conferiu o ajuste com dois dedos. As barras paralelas ocupavam o centro da sala. Daniel conhecia o equipamento, mas naquele dia a distância entre a cadeira e o fim das barras pareceu enorme.

— Qual é a meta? — perguntou ele.

Lívia apontou.

— Chegar até a fita azul.

A fita estava a menos de um metro.

— E se não chegar?

— Eu volto outro dia.

Helena transferiu a menina para um banco alto, posicionou os pés e ficou ao lado esquerdo. Lívia apoiou as mãos nas barras.

— Preparada?

— Não.

— Quer esperar?

— Também não.

正文1

Ela empurrou o banco. O corpo subiu. Helena manteve dois dedos no cinto, sem carregar o peso.

Daniel levou a mão à boca.

— Pai.

— Oi.

— Para de olhar desse jeito.

Ele virou-se para a janela.

— Melhor?

— Um pouco.

Lívia riu. O riso soltou os ombros. Ela ergueu o pé direito e o colocou alguns centímetros à frente.

O tênis raspou no piso.

Helena não comemorou antes da hora.

— Confere o joelho.

Lívia alinhou a perna, transferiu parte do peso e moveu o esquerdo.

Dois passos.

Ela alcançou a fita azul e sentou no banco que Helena havia deixado do outro lado.

Daniel virou-se quando ouviu o assento ranger. Os olhos da filha estavam arregalados.

— Eu cheguei.

— Chegou.

Ele chorou. Não escondeu, mas também não correu até ela.

— Posso chegar perto?

— Agora pode.

Daniel ajoelhou e recebeu o abraço.

No carro, Lívia ficou olhando as pernas.

— Você acha que eu levantei ontem por causa da água?

— Não.

— Foi bem na hora.

— Seu corpo treinou por meses. A água te assustou e te machucou. O trabalho foi seu.

— Então não foi milagre?

— Você não precisa de milagre pra valer alguma coisa.

Ela encostou a cabeça no banco.

— Ainda bem. Milagre parece cansativo.

Três semanas passaram. Daniel manteve as viagens curtas, assistiu a uma sessão por semana e recebeu cada relatório em um endereço ao qual só ele, Lívia e a clínica tinham acesso. Clara falava com o advogado e começou acompanhamento psicológico. O contato com Lívia permaneceu suspenso a pedido da menina.

Numa quinta-feira, Helena telefonou durante o almoço.

— Consegue vir à clínica sem a Lívia?

— Aconteceu alguma coisa?

— Encontrei um documento antigo no sistema migrado.

Daniel chegou quarenta minutos depois. Helena o esperava com uma pasta e o médico da clínica em uma chamada de vídeo.

— Este é o doutor Henrique Hayes — disse ela.

O homem na tela cumprimentou Daniel.

— Avaliei sua filha quatro meses atrás. Clara a acompanhou.

Helena empurrou o papel pela mesa.

A data ficava muito antes do primeiro avanço que Clara admitira.

Na linha de autorização havia uma assinatura que não era de Daniel.

Helena abriu o histórico de alterações. O retorno recomendado fora removido da agenda às 22h14, pelo portal familiar. Naquela noite, Daniel estava num voo sem conexão.

— Guarde uma cópia do registro — pediu ele.

— Já preservei.

— A Clara sabia que isso ficava gravado?

— Muita gente acha que cancelar apaga o caminho.

Daniel observou a assinatura mais uma vez. Quatro meses de decisões estavam comprimidos numa linha escrita por outra pessoa.

Helena imprimiu os registros das sessões e marcou cada avanço comunicado a Clara.

— Isto mede a informação disponível — disse. — Guarde com o prontuário.

Daniel fotografou o lacre, enviou uma cópia ao endereço novo e fechou a pasta. Só então telefonou para Clara.

O papel permaneceu sobre a mesa por alguns segundos. Helena não tentou preencher o silêncio. Daniel conferiu o nome da filha, a data e a assinatura antes de iniciar a chamada.

No corredor, um paciente treinava passos ao som de um metrônomo. Cada batida atravessava a porta. Daniel guardou o documento na mochila. A ligação podia esperar até a cópia estar protegida.

Helena assinou o registro de entrega e ficou com a segunda via. Daniel respirou junto às batidas regulares, levantou-se e confirmou que a recepção possuía os contatos corretos.

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