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"A Filha Tremia Diante da Madrasta" Capítulo 3

正文开头

— Eu apaguei.

Clara puxou a cadeira, mas Daniel colocou a mão sobre o encosto.

— Fica em pé.

— Vai me interrogar agora?

— Vou ouvir. A Lívia fica na casa da Cida durante essa conversa.

Ele abriu a porta e chamou a vizinha. Lívia não discutiu. Levou a caneca vazia no colo, e Cida empurrou a cadeira até a saída.

Clara esperou o portão fechar.

— Eu estava protegendo ela.

Daniel voltou ao escritório.

— Apagando relatório?

— Você conhece a Lívia. Quando você aparece numa sessão, ela tenta fazer o dobro. Fica exausta, chora no carro, mal dorme.

— Eu fui a duas sessões em onze meses.

— Exatamente. Você não vê o depois.

— Então me mostra o depois. Me liga. Não mente.

Clara juntou os braços contra o peito.

— Você queria resultado. Toda vez que voltava perguntava quantos movimentos, quantos segundos, quando ela passaria pro andador.

Daniel fechou o notebook com cuidado.

— Perguntar não te dá direito de apagar o que a equipe escreve.

— Eu abandonei meu trabalho. Mudei minha rotina. Aprendi a transferir ela pro banho, medir remédio, dobrar cadeira, lidar com crise. Você chegava no fim de semana com presente e pergunta.

— Eu sei que fiquei longe.

— Sabe agora.

Daniel puxou o celular do bolso e abriu o calendário de viagens.

— Vou mudar isso. E você ainda precisa explicar a mangueira.

Clara caminhou até a janela. A mangueira verde permanecia no chão, ao lado do vaso quebrado.

— Ela decidiu mexer na planta sozinha.

— Isso já foi dito.

— Quando pedi que esperasse, ela continuou. O vaso caiu no colo. Tinha terra em tudo. Ela não queria entrar porque achou que conseguiria limpar.

— E você jogou água nela.

— Na cadeira.

— A roupa estava encharcada até o ombro.

Clara esfregou a testa.

— Eu perdi a mão.

— Quanto tempo?

— O quê?

— Quanto tempo deixou a água nela?

— Dois minutos. Talvez menos.

— Ela gritava.

— Eu ouvi.

Daniel abriu a porta do escritório.

— Arruma uma mala.

Clara se virou.

— Você não pode decidir isso no meio de uma briga.

— Não é uma briga.

— Eu cometi um erro.

— Você ouviu uma criança pedir que parasse e continuou.

Clara caminhou até ele.

— Eu amo a Lívia.

Daniel não saiu da passagem.

— Vai ficar na sua irmã hoje. Amanhã tratamos do resto com alguém presente.

— Você vai me tirar da vida dela por causa de uma tarde?

A porta da frente abriu. Lívia voltara com Cida porque esquecera o tablet. Ela parou no corredor.

— Não foi uma tarde.

Clara perdeu a cor.

— Liv, a gente combinou que...

Daniel levantou a mão.

— Não termina essa frase.

Lívia girou uma das rodas para trás, mas ficou.

— O que mais aconteceu? — perguntou Daniel.

正文1

— Ela não me bateu.

— Eu não perguntei só de bater.

— Quando eu pedia ajuda pra passar da cama pra cadeira, às vezes ela deixava eu tentar até cansar.

Clara se aproximou um passo.

— A Helena disse que ela precisava ganhar autonomia.

— Ela disse dez minutos — respondeu Lívia. — A Clara colocava o relógio de novo.

— Quantas vezes?

— Não sei.

— Por que você não me chamou?

A menina olhou para as mãos.

— Você tava trabalhando. E ela dizia que, se eu contasse, você ia mandar ela voltar pro escritório.

Clara balançou a cabeça.

— Eu falei num dia ruim.

— Você falou que, se eu andasse, ninguém ia precisar de você.

Daniel apoiou uma das mãos na parede.

Clara tentou segurar o braço de Lívia, mas a menina recuou a cadeira.

— Eu estava cansada. Eu tinha acabado de receber uma ligação...

— De quem? — perguntou Daniel.

— Não importa.

— Hayes?

— Não.

— Então quem?

O celular de Clara vibrou sobre a mesa. A tela acendeu antes que ela alcançasse. Daniel viu a foto pequena de uma mulher idosa e o nome salvo como Célia.

A notificação mostrava apenas parte da frase: "Não conte ao Daniel que eu..."

Clara pegou o aparelho e bloqueou a tela.

— Quem é Célia?

— Uma mulher do grupo de cuidadores.

— Que grupo?

— Online.

— Ela conhece a Lívia?

— Só pelo que eu contei.

Lívia apertou os aros.

— Ela veio aqui.

Daniel virou-se para a filha.

— Quando?

— Duas vezes. A Clara falou que era tia dela.

— Eu disse tia no jeito de falar — respondeu Clara. — Ela aconselha famílias.

— Qual o sobrenome?

— Eu não lembro.

O telefone vibrou outra vez na mão dela. Clara guardou-o no bolso.

Daniel apontou para o corredor.

— Mala. Agora.

Ela subiu. Gavetas abriram e fecharam no andar de cima.

Daniel ajoelhou diante de Lívia.

— Quando alguém vier aqui, você pode me contar. Mesmo se disserem que é segredo de adulto.

— Você vai parar de viajar?

— Vou cancelar a próxima. Depois vou organizar o trabalho pra estar mais perto.

— Por minha causa?

— Porque eu sou seu pai e deixei uma rotina importante demais na mão de uma pessoa só.

Lívia tocou a manga dele.

— A Clara vai voltar?

— Hoje, não.

Clara desceu com uma mala pequena. Parou diante da menina.

— Eu sinto muito.

Lívia não respondeu.

— Posso te dar um beijo?

Ela negou.

Clara segurou a alça da mala com as duas mãos.

— Tudo bem.

Na porta, voltou-se para Daniel.

— A Célia só tentou me ajudar.

— Amanhã você me dá o contato dela.

Clara saiu. Enquanto colocava a mala no porta-malas, retirou o celular do bolso. Pela janela, Daniel viu o polegar dela correr sobre a tela.

O telefone de casa tocou.

Ele atendeu.

— Alô?

Uma voz feminina, velha e muito calma, perguntou:

— A Clara ainda está aí?

Daniel olhou para o carro saindo.

— Quem está falando?

A ligação caiu.

O número ligou outra vez e parou antes do segundo toque. Daniel desconectou o aparelho da tomada. Clara ainda estava diante do portão quando ele ergueu o visor junto à janela. Ela viu o gesto, entrou no carro e saiu sem retornar.

Daniel fotografou o visor e anotou o horário. Depois verificou se Lívia ainda estava no corredor.

— Você reconheceu?

— Não.

— Se lembrar de alguma visita, me conta quando quiser.

— Mesmo se você ficar bravo?

— Principalmente.

Ela voltou para a sala. Daniel permaneceu junto ao telefone, ouvindo o sinal vazio até Cida perguntar se ele pretendia passar a noite ali.

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