"A Filha Tremia Diante da Madrasta" Capítulo 2
Três semanas.
Daniel repetiu o prazo enquanto empurrava a cadeira pelo corredor. A roda deixou uma trilha de água no piso, mas ele só olhou para baixo quando Lívia tentou esconder os pés molhados sob a manta.
— Primeiro banho quente. Depois roupa seca.
— Você vai brigar com ela?
— Vou conversar longe de você.
— Ela vai embora?
Daniel abriu a porta do banheiro adaptado e travou a cadeira.
— Hoje eu ainda não sei. Posso chamar a dona Cida pra te ajudar?
Lívia assentiu. Cida morava na casa ao lado e conhecia a menina desde o nascimento. Daniel ligou, explicou apenas que precisava de auxílio e ouviu o chinelo da vizinha bater na calçada antes de encerrar a chamada.
Clara entrou pela cozinha. Trazia a mangueira enrolada nos braços.
— Você deixou barro no corredor inteiro.
Daniel tomou a mangueira e a colocou na área de serviço.
— A Cida vai ficar com a Lívia. Você espera na sala.
— Você tá me dando ordem dentro da minha casa?
— Tô impedindo que você fique sozinha com ela.
Clara abriu a boca. Cida tocou a campainha, e a frase não saiu.
Daniel esperou Lívia terminar o banho. Cida vestiu nela um moletom, secou o cabelo e preparou chocolate quente. Quando a menina apareceu na sala, Clara tentou se aproximar.
— Meu amor, eu perdi a paciência. Eu...
Lívia encolheu os ombros.
Daniel colocou a cadeira entre as duas.
— Depois.
Levou a filha ao escritório, fechou a porta pela metade e puxou outra cadeira para ficar diante dela.
— Quero saber o que aconteceu na clínica. Você não vai ter problema por falar.
— A Clara disse isso também.
— Disse o quê?
— Que eu não ia ter problema se não contasse.
Daniel apoiou as mãos nas próprias pernas.
— Me conta do seu jeito.
Lívia tomou um gole. O chocolate deixou uma marca sobre o lábio.
— A Helena me colocou entre as barras. Eu levantei com ela segurando o cinto. Depois ela soltou um pouquinho.
— Clara estava lá?
— Tava mexendo no celular.
— Ela viu?
— A Helena chamou. A Clara falou que já tinha visto e que eu precisava sentar.
— E depois?
— No carro, ela disse que você ia querer assistir. Aí eu ia forçar e cair.
— Eu já fiz você forçar?
Lívia apertou a caneca com as duas mãos.
— Não. Só que eu gosto quando você fica feliz.
Daniel ajeitou a manta sobre os joelhos dela.
— Eu fico feliz quando você me conta uma piada ruim. Quando escolhe a parte crocante da lasanha e deixa o resto pra mim. Quando lembra onde eu larguei a chave. Caminhar não é ingresso pra eu ter orgulho de você.
Um sorriso apareceu e sumiu.
— Se eu melhorar, a Clara vai voltar a trabalhar?
— Isso é uma decisão dela.
— Ela disse que ninguém ia precisar dela.
Daniel ficou com os olhos na borda da caneca.
— Ela falou isso pra você?
— Uma vez. Depois pediu desculpa.
— Foi antes ou depois de você ficar em pé?
— Depois.
Daniel pegou o celular.
— Vou ligar pra Helena. Você quer ficar ou prefere ir com a Cida?
— Quero ouvir.
A fisioterapeuta atendeu na terceira chamada.
— Daniel? Eu estava tentando falar com você.
— Sobre os avanços da Lívia?
Houve uma pausa.
— Você recebeu os relatórios?
— Não.
— Enviei três. Clara confirmou o recebimento do primeiro.
Daniel colocou no viva-voz e pousou o aparelho sobre a mesa.
— A Lívia ficou de pé há três semanas?
— Pela primeira vez, sim. Com colete e apoio. Repetiu nas duas sessões seguintes e sustentou parte do peso por oito segundos na última.
Lívia ergueu oito dedos e sorriu de lado.
— Você considera seguro continuar? — perguntou Daniel.
— Com supervisão, controle de fadiga e avaliação médica. Eu deixei isso nos relatórios. Também pedi uma conversa com vocês antes de avançar.
— Clara disse que quase não havia mudanças.
— Essa não foi minha orientação.
Daniel se levantou e abriu o notebook. Entrou no e-mail compartilhado da família, buscou pelo nome de Helena e não encontrou nada.
— Qual endereço?
Ela confirmou. Era o mesmo.
— Reencaminha agora para o meu profissional e para um endereço novo que vou criar pra Lívia.
— Faço em dois minutos.
Uma mensagem chegou. Daniel abriu o anexo.
Recuperação progressiva de força. Suporte parcial do próprio peso. Resposta motora acima da observada no início do ciclo.
Havia ainda uma referência curta: "Manter cautela até revisão da avaliação Hayes".
— Quem é Hayes?
Helena demorou a responder.
— Achei que vocês soubessem. Existe um parecer externo no prontuário. A consulta foi antes de eu assumir o caso.
— Eu nunca autorizei um parecer externo.
— Posso conferir o acesso amanhã cedo.
Daniel agradeceu e desligou. Lívia acompanhava o cursor na tela.
— Eu posso ir ver desenho?
— Pode. Dona Cida está na sala.
Quando ela saiu, Daniel abriu a lixeira do e-mail. A primeira busca trouxe um relatório. Depois outro. O terceiro estava na pasta de itens recuperáveis.
Ele comparou horários. Todos tinham sido apagados à noite, em dias nos quais estava fora. O painel de segurança registrava o computador da cozinha.
Clara apareceu à porta.
— Ela contou tudo?
Daniel virou o notebook na direção dela.
— Ainda estou descobrindo o tamanho de tudo.
Clara viu os três assuntos alinhados na tela.
— Eu consigo explicar.
— Começa por quem é Hayes.
Ela segurou o batente.
— Um médico.
— Isso eu deduzi.
— A consulta não deu em nada.
— Quem autorizou?
Clara baixou o rosto.
Daniel abriu o histórico de segurança e apontou os registros.
— Os relatórios foram apagados neste computador. Nos dias em que eu estava viajando.
Clara olhou para trás. Na sala, a televisão tocava baixo.
— Fecha a porta.
Daniel não se mexeu.
— Fecha você.
Ela entrou, empurrou a porta e ficou diante da tela.
Daniel abriu um documento novo, anotou a hora e salvou fora do computador compartilhado.
Também escreveu as palavras usadas por Lívia, sem corrigir a gramática nem completar lacunas. O arquivo recebeu uma senha nova. Daniel enviou uma cópia ao próprio advogado e registrou que Cida vira a menina molhada logo após o ocorrido. A ordem dos fatos precisava permanecer intacta.
Ele conferiu o relógio e manteve a tela aberta para Clara.
— Eu apaguei.
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