"A Filha Tremia Diante da Madrasta" Capítulo 1
Daniel ainda não tinha fechado a porta do carro quando ouviu o grito.
— Para, por favor! Tá gelada!
A voz vinha do lado da garagem. Fina, entrecortada, conhecida o bastante para arrancá-lo do cansaço acumulado em quatro dias de obra, aeroporto e reunião.
Ele largou a mochila no banco, contornou a traseira do carro e viu a filha no meio da entrada.
Lívia estava na cadeira de rodas, curvada sobre o próprio colo. A camiseta amarela colava no corpo. O cabelo castanho cobria parte do rosto, e a presilha de borboleta pendia por alguns fios. Água corria pelos braços dela e descia até os aros da cadeira.
Clara segurava a mangueira a dois metros dali.
O jato atingia a parte baixa da cadeira e ricocheteava nas pernas da menina.
— Clara!
Ela virou o rosto. A mão continuou apertando o gatilho do esguicho por um segundo a mais.
Daniel correu. O sapato derrapou no cimento molhado, mas ele não diminuiu. Segurou o pulso de Clara, apontou o bico para o ralo e soltou a trava. A água virou um fio.
— Que diabos você tá fazendo?
— Ela derrubou uma planta. Olha essa sujeira.
Pedaços de um vaso estavam espalhados perto do canteiro. A chuva dissolvera a terra, formando um caminho escuro sob a cadeira.
— Eu perguntei o que você tá fazendo com a minha filha.
— Limpando. Você chegou no meio e já decidiu que sabe de tudo.
Daniel passou por ela e se agachou diante de Lívia. Os lábios da menina tremiam. Uma gota desceu da ponta do nariz, e ela tentou enxugá-la com o ombro.
— Pai...
Ele puxou do carro a manta que usava nas viagens. Quando voltou, Clara falava sobre barro no corredor, estofado novo e o esforço que fazia sozinha naquela casa.
Daniel envolveu a filha sem responder.
— Olha pra mim, Liv. Você bateu a cabeça?
— Não.
— Tá doendo em algum lugar?
Lívia apertou os dedos sob a manta.
— Eu tentei pegar o vaso. Ele caiu. Desculpa.
— Um vaso se compra. Você pede ajuda. Você grita. Você me liga. Não pede desculpa por precisar de alguém.
Clara soltou uma risada curta.
— Claro. Aí você aparece como o pai perfeito e eu fico com o resto.
Daniel virou apenas a cabeça.
— Entra em casa.
— A casa também é minha.
— Então fica longe dela enquanto eu vejo se precisamos ir ao hospital.
Clara cruzou os braços. O esguicho caiu no chão ao lado do pé dela.
Daniel tocou o joelho direito de Lívia por cima da manta.
— Consegue sentir minha mão?
— Consigo.
O pé direito escorregou do apoio e pousou numa poça rasa.
— Foi sem querer?
Lívia olhava para o próprio pé. Empurrou o calcanhar contra o cimento e esticou os dedos dentro da meia.
— Eu coloquei.
O esquerdo desceu depois. O movimento saiu lento, com uma parada no meio, até os dois pés ficarem alinhados.
Clara deu um passo para trás.
Daniel viu.
— Liv, se doer, você para. Não precisa me mostrar nada.
— Eu quero tentar.
Ela soltou a manta, agarrou os apoios e inclinou o tronco. Daniel abriu as mãos perto das axilas dela. Não puxou.
Os braços finos sustentaram parte do peso. Os joelhos se moveram para dentro. Lívia soltou um som preso na garganta, ajeitou o pé direito e tornou a empurrar.
O quadril deixou o assento.
Daniel acompanhou a subida com as mãos a poucos centímetros do corpo dela. Lívia ficou de pé, dobrada, e depois levantou o queixo.
— Pai...
— Tô aqui.
— Eu tô em pé?
Daniel mordeu a parte interna da bochecha.
— Tá.
Lívia riu e chorou no mesmo fôlego. Daniel aproximou os braços.
— Posso?
Ela assentiu. Ele a segurou pela cintura e a ajudou a voltar para a cadeira.
— Você viu?
— Vi tudo.
— Tá bravo?
Daniel recuou.
— Com você?
A menina olhou para os cacos.
— Eu não devia ter tentado pegar sozinha.
— Quebrar um vaso não dá a ninguém o direito de fazer isso.
Clara se abaixou para recolher o esguicho.
— Chega, Daniel. Vamos entrar e conversar como adultos.
Ele fitou a esposa. Nenhuma pergunta sobre o movimento das pernas. Nenhum espanto.
— Você já tinha visto.
Clara enrolou uma volta da mangueira no braço.
— Visto o quê?
— Ela ficar em pé.
— Acabou de acontecer na sua frente.
— E você recuou antes de ela levantar. Sabia que conseguiria.
Lívia puxou a manta até o queixo.
— Pai... A Clara falou que eu não podia contar.
O esguicho escapou da mão de Clara e bateu no cimento.
Daniel permaneceu na altura da filha.
— Contar o quê?
— Que eu consegui na clínica.
— Quando?
Ela olhou para Clara antes de responder.
— Faz tempo.
Daniel se levantou.
— Quanto tempo?
— Ela ficava ansiosa quando tentava — disse Clara. — Eu achei melhor esperar.
— Quanto tempo?
— Umas semanas.
— Três — disse Lívia.
O número ficou entre eles, acompanhado pelo gotejar do esguicho.
Daniel empurrou a cadeira em direção à porta. Ao passar por Clara, parou.
— Tira a mão da mangueira.
Ela obedeceu.
— Depois você vai me explicar cada dia dessas três semanas.
Daniel entrou com a filha e fechou a porta.
Do lado de dentro, Lívia segurou a manga dele.
— Minha mochila ficou lá fora.
Daniel encontrou a mochila perto do canteiro, coberta de respingos. No bolso havia uma folha amassada. Lívia marcara seis datas com pequenos traços.
— O que são esses riscos?
— Os dias em que fiquei em pé.
Daniel passou o dedo pelo primeiro.
— Você guardou sozinha?
— Queria te mostrar quando pudesse andar até você.
Ele devolveu a folha sem dobrá-la.
— Pode me mostrar cada centímetro. Não precisa esperar a cena ficar bonita.
Lívia assentiu e apertou a folha seca contra o peito. Do lado de fora, a chuva voltou a bater no vidro.
Daniel tirou uma foto da folha e perguntou onde ela queria guardar o original. Lívia escolheu a gaveta do próprio quarto. Ele levou a mochila até lá, colocou-a aberta para secar e deixou a menina indicar o lugar de cada caderno.
Quando voltou ao corredor, a água ainda escorria da cadeira. Cida apareceu com duas toalhas e esperou a autorização de Lívia antes de começar.
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