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"Ele Fingiu Que Estava Falido Para Me Testar — Então Eu Fui Embora" Capítulo 5

正文开头

"Ontem era mentira. Hoje não é."

A frase de Beatriz Monteiro ainda ecoava na cabeça de Rafael quando o carro parou diante do prédio da Valença Capital, na região da Faria Lima.

Durante três dias, ele havia ouvido bancos recusarem novas linhas de crédito, fornecedores exigirem pagamento antecipado e conselheiros perguntarem quanto tempo o Grupo Monteiro ainda conseguiria respirar.

Agora, a resposta era simples.

Pouco.

Rafael desceu do carro acompanhado do diretor financeiro e de um advogado do grupo.

Desta vez, não havia motorista particular, fotógrafos ou assessores esperando na entrada.

Só havia urgência.

Na noite anterior, cinco instituições haviam recusado qualquer conversa.

Naquela manhã, uma única resposta chegara.

A Valença Capital aceitava ouvi-los.

Não prometia investir.

Não prometia sequer continuar a conversa depois da reunião.

Mas ouviria.

Rafael estava disposto a aceitar até isso.

O elevador subiu em silêncio.

No painel de aço escovado, ele viu o próprio reflexo: olheiras discretas, barba malfeita e um terno que, pela primeira vez em anos, não conseguia esconder o desgaste.

O advogado ao lado dele ajeitou a pasta.

"Se eles aceitarem uma ponte de liquidez de curto prazo, ganhamos algumas semanas."

"Eu sei."

"Mas vão pedir garantias pesadas."

"Eu sei."

"Talvez participação."

Rafael virou o rosto.

"Eu também sei."

Ninguém falou mais nada.

Quando as portas se abriram, Rafael esperava encontrar o tipo de escritório que conhecia bem: mármore demais, recepcionistas treinadas para sorrir pouco e paredes cobertas por prêmios.

A Valença Capital era diferente.

Tudo ali parecia caro sem tentar provar que era.

Madeira escura, vidro, poucas obras de arte e uma vista ampla de São Paulo.

Uma mulher da recepção se levantou.

"Senhor Monteiro?"

"Sim."

"Podem me acompanhar."

Rafael seguiu pelo corredor.

Passou por uma parede de vidro onde equipes discutiam números diante de telas.

Ninguém parecia particularmente interessado em sua presença.

Aquilo o incomodou mais do que deveria.

Houve um tempo em que seu sobrenome fazia pessoas se levantarem.

Agora ele era apenas mais um empresário pedindo dinheiro.

A recepcionista parou diante de uma porta dupla.

"A reunião será aqui."

Ela abriu.

Rafael entrou primeiro.

E parou.

Por um segundo, não ouviu nada.

Não viu o advogado atrás dele.

Não percebeu o diretor financeiro quase esbarrando em suas costas.

Viu apenas Mariana.

Ela estava sentada na cabeceira da mesa.

Terno creme.

Cabelos presos em um coque baixo.

Um tablet diante dela.

Nenhum traço da mulher que preparava café descalça no pequeno apartamento da Vila Mariana.

Nenhum traço da namorada que vendera joias acreditando que ele estava endividado.

Mariana ergueu os olhos.

Não demonstrou surpresa.

"Bom dia, Rafael."

Ele não respondeu.

Seu olhar foi até a placa discreta sobre a mesa.

Mariana Valença.

Fundadora e Diretora de Investimentos.

Rafael sentiu o sangue abandonar o rosto.

"Isso é alguma brincadeira?"

O diretor financeiro ao lado dele baixou os olhos.

Mariana permaneceu imóvel.

"Não."

"Valença Capital?"

"Sim."

"É sua?"

"Eu fundei a empresa."

正文1

Rafael soltou uma risada curta, sem humor.

"Você fundou."

"Sim."

"Há quanto tempo?"

"Oito anos."

Cada palavra parecia piorar a anterior.

Rafael puxou uma cadeira, mas não se sentou.

"Você me disse que era analista."

"Eu disse que trabalhava com análise e investimentos."

"Você me deixou acreditar que era funcionária."

"Você nunca perguntou quem era o dono."

O advogado de Rafael olhou de um para o outro.

A tensão na sala já havia deixado de parecer empresarial.

Foi então que uma voz masculina surgiu do outro lado da mesa.

"Talvez possamos começar pela situação do Grupo Monteiro."

Rafael virou o rosto.

Só então percebeu o homem sentado à direita de Mariana.

Alto, ombros largos, cabelo castanho-acinzentado penteado para trás e uma expressão fria demais para ser confundida com arrogância.

Rafael o reconheceu quase imediatamente.

Alexei Volkov.

Era impossível passar anos no mercado financeiro sem ouvir aquele nome.

Volkov havia participado de reestruturações na Europa, adquirido participações em empresas brasileiras durante crises e construído uma reputação de homem que nunca entrava numa negociação sem saber onde ela terminaria.

Rafael nunca o tinha encontrado pessoalmente.

Até aquele momento.

"Volkov."

Alexei inclinou levemente a cabeça.

"Monteiro."

Não havia provocação no tom.

Isso tornou tudo pior.

Rafael olhou novamente para Mariana.

"Ele trabalha para você?"

Alexei não reagiu.

Mariana respondeu.

"Não."

"Então o que ele está fazendo aqui?"

"Alexei é investidor da Valença Capital e participa do comitê desta operação."

"Desde quando?"

"Desde o início."

Rafael apertou o maxilar.

"Do início de quê?"

"Da empresa."

O silêncio caiu sobre a sala.

Oito anos.

Aquela palavra voltou à mente.

Mariana conhecia Alexei havia oito anos.

Muito antes de conhecer Rafael.

Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Mariana apontou para a cadeira.

"Você veio discutir a Monteiro."

Rafael continuou em pé.

"Eu vim pedir uma reunião com um fundo."

"E conseguiu."

"Não sabia que estava pedindo dinheiro para você."

Dessa vez, alguma coisa passou pelo olhar dela.

Dor.

Talvez raiva.

Mas desapareceu depressa.

"Isso mudaria alguma coisa?"

"Claro que mudaria."

"Por quê?"

Rafael abriu a boca.

Nenhuma resposta parecia boa.

Porque eu nunca teria vindo?

Porque seria humilhante?

Porque eu passei semanas testando se você queria meu dinheiro enquanto você administrava mais dinheiro do que eu imaginava?

Mariana apoiou as mãos sobre a mesa.

"Se preferir, podemos encerrar."

O diretor financeiro finalmente interveio.

"Não."

Rafael olhou para ele.

O homem engoliu em seco.

"Não temos condições de encerrar."

Era verdade.

E todos na sala sabiam.

Rafael sentou-se.

Mariana abriu a apresentação.

"Vamos aos números."

A reunião começou.

Nos primeiros vinte minutos, Rafael quase esqueceu a parte pessoal.

Quase.

Mariana desmontou o fluxo de caixa do Grupo Monteiro com uma precisão que o irritava.

Perguntou sobre vencimentos, garantias, exposição cambial, compromissos de curto prazo e contratos que poderiam ser convertidos em liquidez.

O diretor financeiro respondeu a quase tudo.

Quando hesitou, Mariana completou os números.

Rafael a encarou.

正文2

"Como você sabe disso?"

"Recebemos o material antes da reunião."

"Esse nível de detalhe não estava no material."

Mariana segurou o olhar dele.

"Então talvez vocês devessem conhecer melhor a própria empresa."

Alexei baixou os olhos para um documento.

Rafael percebeu a sombra de um sorriso que não chegou a acontecer.

Aquilo despertou algo imediato e desagradável dentro dele.

"Tem algo engraçado?"

Alexei ergueu os olhos.

"Não."

"Pareceu."

"Então você interpretou errado."

A resposta veio calma.

Sem agressividade.

Rafael detestou ainda mais.

Mariana fechou uma planilha.

"O Grupo Monteiro não está insolvente."

"Eu sei."

"Mas está caminhando para uma crise de liquidez séria."

"Também sei."

"E parte do problema foi criada pela perda de confiança do mercado."

Rafael sentiu o estômago contrair.

Ela sabia.

Talvez não soubesse tudo, mas sabia o bastante.

"Rumores têm impacto."

"Rumores não surgem sozinhos."

A voz de Mariana não se alterou.

"Quando uma empresa passa semanas dando sinais contraditórios, bancos e fornecedores fazem exatamente o que fizeram."

Rafael sustentou o olhar dela.

"Você está me culpando?"

"Estou analisando risco."

"Comigo você nunca consegue ser só profissional."

Mariana permaneceu em silêncio por um instante.

"É justamente isso que estou sendo."

Alexei não disse nada.

Também não olhou para Rafael.

Apenas empurrou discretamente um copo de água na direção de Mariana.

Ela pegou sem olhar.

O gesto foi automático.

Familiar.

Rafael percebeu.

Cinco minutos depois, uma assistente entrou com café.

Colocou uma xícara diante de Mariana.

Alexei falou antes que ela se afastasse.

"Sem açúcar para ela."

A assistente assentiu.

Mariana nem levantou os olhos.

Rafael sentiu alguma coisa endurecer dentro do peito.

"Você sabe como ela toma café."

Alexei o encarou.

"Sei."

Só isso.

Nenhuma explicação.

Mariana fechou os olhos por um segundo e pressionou dois dedos contra a têmpora.

Alexei imediatamente puxou a garrafa de água para mais perto dela.

"Você está com dor de cabeça."

"Estou bem."

"Você não almoçou."

"Alexei."

"Estou apenas lembrando."

O tom dele continuava profissional.

Mas Rafael conhecia intimidade quando via.

Não aquela intimidade de desejo evidente.

Algo pior.

Hábitos.

Rotina.

Conhecimento acumulado.

Rafael voltou-se para Mariana.

"Há quanto tempo vocês se conhecem?"

Ela não respondeu imediatamente.

Alexei também não.

"Isso é relevante para a operação?"

"Para mim, é."

"Então não é relevante para a operação."

Rafael soltou o ar devagar.

Ele tinha entrado naquela sala disposto a implorar por dinheiro.

Agora precisava lutar contra a vontade absurda de exigir explicações de uma mulher que ele próprio havia perdido.

Mariana passou para a última página da apresentação.

"A Valença Capital pode considerar uma operação de resgate."

O diretor financeiro se inclinou para a frente.

"Em quais condições?"

"Não estamos discutindo condições hoje."

"Por quê?"

"Porque primeiro precisamos decidir se o risco vale a pena."

Rafael olhou diretamente para ela.

"Você deixaria a Monteiro quebrar?"

A pergunta saiu mais pessoal do que ele queria.

Mariana o encarou.

"Empresas não são salvas por sentimento."

正文3

"E pessoas?"

O silêncio voltou.

Alexei se recostou na cadeira.

Não interferiu.

Mariana abaixou os olhos para os documentos.

"Você não está aqui para falar sobre pessoas."

"Talvez eu esteja."

"Não."

"Mariana..."

"Não faça isso."

Foi a primeira vez que a voz dela perdeu a frieza.

Só por um instante.

"Não use uma negociação para tentar ter uma conversa que você perdeu o direito de exigir."

Rafael sentiu a frase como um golpe.

O advogado desviou o olhar.

O diretor financeiro fingiu revisar papéis.

Alexei permaneceu imóvel.

Rafael respirou fundo.

"Eu não sabia quem você era."

Mariana soltou um sorriso sem alegria.

"Esse sempre foi o seu problema."

"O quê?"

"Você achava que precisava saber quanto eu valia antes de decidir se podia confiar em mim."

Rafael ficou calado.

Ela continuou.

"Agora sabe."

"Por que escondeu?"

"Eu não escondi para enganar você."

"Então por quê?"

Mariana olhou para ele.

"Porque queria saber como era ser amada sem meu patrimônio sentado à mesa."

A ironia foi tão brutal que Rafael quase desviou o rosto.

Ela havia escondido dinheiro para ser amada como pessoa.

Ele havia fingido perder dinheiro para verificar se ela era digna de seu amor.

Tudo o que fizera parecia ridículo agora.

Pequeno.

Cruel.

E tarde demais.

"Mariana..."

Ela ergueu a mão.

"Voltamos à empresa."

Rafael passou os olhos pelos documentos.

O Grupo Monteiro precisava de capital.

Não em um mês.

Agora.

E a mulher que ele havia colocado à prova era provavelmente a única pessoa naquela cidade com dinheiro, informação e coragem suficientes para entrar.

Ele fechou a pasta.

"Quanto vocês querem?"

"Eu disse que ainda não chegamos às condições."

"Eu aceito conversar."

"Você talvez não aceite depois de ouvir."

"Eu não tenho escolha."

Mariana o encarou por alguns segundos.

Rafael sentiu a própria voz diminuir.

"Eu preciso de você."

Alexei não se moveu.

Não olhou para Rafael.

Não demonstrou satisfação.

Apenas esperou.

Mariana colocou dois dedos sobre a proposta de financiamento e a puxou lentamente para perto de si.

"Você precisa de mim..."

Ela fez uma pausa.

"...ou do meu dinheiro?"

Rafael abriu a boca.

Antes que respondesse, Mariana virou uma nova página.

Havia apenas três condições impressas.

A primeira começava com o nome dele.

E Rafael percebeu, antes mesmo de terminar de ler, que salvar o Grupo Monteiro poderia custar exatamente aquilo que ele mais temia perder.

O controle.

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