"Ele Fingiu Que Estava Falido Para Me Testar — Então Eu Fui Embora" Capítulo 3
Naquela manhã, Mariana acordou antes do despertador.
Rafael ainda dormia ao seu lado, exausto depois de mais uma noite falando sobre dívidas, contas bloqueadas e contratos que, segundo ele, poderiam arrastar o Grupo Monteiro para uma crise sem volta.
Ela ficou alguns segundos olhando para ele.
Nos últimos dias, havia vendido parte dos próprios investimentos líquidos, cancelado planos e reorganizado tudo o que podia.
Não porque Rafael tivesse pedido.
Porque o amava.
E, se ele realmente tivesse perdido a fortuna, Mariana estava preparada para ajudá-lo a começar de novo.
O celular dela vibrou.
Era Camila.
"Você tem certeza de que quer fazer isso?"
Mariana saiu do quarto antes de responder.
"Tenho."
"É muito dinheiro."
"Dinheiro volta."
"E confiança?"
Mariana parou no corredor.
"Camila..."
"Não estou tentando decidir por você. Só quero saber se você pensou com calma."
"Pensei."
Ela entrou na cozinha.
Sobre a bancada estavam os documentos que Rafael deixara na noite anterior: notificações bancárias, relatórios internos e uma carta do escritório jurídico responsável pela suposta renegociação de uma das dívidas.
Mariana abriu o notebook.
"Se eu conseguir liquidar essa obrigação, ele ganha tempo."
"Você vai contar de onde veio o dinheiro?"
"Ainda não."
Camila ficou em silêncio.
Mariana sabia o que a amiga pensava.
Rafael acreditava que ela era uma profissional competente, mas comum. Nunca soubera a verdadeira dimensão dos ativos que Mariana administrava fora do Brasil.
Ela sempre quis que ele a conhecesse antes de conhecer seu patrimônio.
Ironicamente, agora estava prestes a usar aquele patrimônio para salvá-lo.
"Eu te ligo depois."
Mariana encerrou a chamada.
Pegou a carta do escritório jurídico e digitou o número do processo no sistema.
Nada.
Tentou novamente.
O resultado continuou vazio.
Ela franziu a testa.
Conferiu os números.
Havia um dígito fora do padrão.
Mariana conhecia documentação financeira bem demais para ignorar um detalhe daqueles.
Ligou para o escritório.
"Bom dia. Preciso confirmar uma referência de renegociação."
A atendente pediu o número.
Mariana informou.
Houve alguns segundos de silêncio.
"Senhora, não localizei esse procedimento."
"Pode pesquisar pelo Grupo Monteiro?"
Mais alguns segundos.
"Temos operações relacionadas ao grupo, mas nenhuma com essa referência."
Mariana sentiu algo frio percorrer sua nuca.
"Obrigada."
Desligou.
Ficou olhando para o papel.
Talvez fosse um erro.
Precisava ser um erro.
Às dez e vinte, Rafael mandou uma mensagem.
"Reunião complicada. Talvez eu fique preso aqui até tarde."
Mariana respondeu apenas:
"Tudo bem."
Em seguida, abriu novamente os documentos.
Dessa vez, não olhou para os valores.
Olhou para datas, códigos, assinaturas.
Uma notificação de bloqueio bancário mencionava uma agência que não correspondia à conta indicada.
Outro documento usava uma nomenclatura antiga do Grupo Monteiro.
Pequenos erros.
Erros que alguém comum jamais perceberia.
Mas Mariana não era alguém comum.
Ela pegou o celular.
"Camila, preciso que venha aqui."
"Alguma coisa aconteceu?"
"Não sei ainda."
"Mariana..."
"Por favor."
Camila chegou quarenta minutos depois.
Encontrou a amiga sentada diante do notebook, cercada por documentos.
"Você está branca."
Mariana apontou para a cadeira.
"Olha isso."
Camila leu a carta.
"Não entendo."
"Esse processo não existe."
"O quê?"
"E esse bloqueio provavelmente também não."
Camila ergueu os olhos.
"Você está dizendo que Rafael mentiu?"
"Estou dizendo que preciso descobrir antes de acusá-lo."
A voz de Mariana estava calma.
Calma demais.
Camila sentou-se.
"O que você quer fazer?"
Mariana fechou os olhos por um instante.
"Quero saber até onde isso vai."
Ela não precisou procurar muito.
Rafael havia usado o tablet pessoal para mostrar alguns relatórios na noite anterior e o deixara carregando no escritório.
Mariana nunca havia mexido nas conversas dele.
Em três anos, jamais sentira necessidade.
Naquele dia, pela primeira vez, a confiança não conseguiu impedir sua mão.
A tela estava desbloqueada.
Havia uma conversa recente com Gustavo.
Mariana abriu.
No começo, encontrou instruções técnicas.
"Precisamos fazer parecer que a restrição veio do banco."
"Não exagera. Ela precisa acreditar que perdi liquidez, não que estou sendo investigado."
Mariana parou de respirar por um segundo.
Continuou.
"Ela já ofereceu vender o apartamento?"
"Sim."
"Então está funcionando."
Os dedos dela ficaram frios.
Camila se aproximou.
"Mariana..."
"Espera."
Havia mais.
Fotos da casa de Rafael sendo preparada para parecer parcialmente esvaziada.
Mensagens sobre um carro que seria retirado "para reforçar a história".
Orientações para funcionários não atenderem determinadas ligações.
Até a suposta dívida que Mariana pretendia quitar naquela manhã tinha sido calculada para parecer grave, mas administrável.
Nada era real.
Nenhuma falência.
Nenhuma conta bloqueada.
Nenhum risco.
Mariana levou a mão à boca.
Não chorou.
Aquilo parecia pior do que chorar.
Durante dias, ela havia dormido pouco tentando encontrar uma saída.
Fizera cálculos enquanto Rafael fingia preocupação.
Separara investimentos.
Pensara em vender ativos que construíra muito antes de conhecê-lo.
E ele estava assistindo.
Avaliando.
Medindo.
Testando.
Camila fechou os olhos.
"Chega."
Mariana não respondeu.
Deslizou a conversa mais uma vez.
Então encontrou.
Uma mensagem de Gustavo:
"E se ela passar por tudo isso?"
A resposta de Rafael estava logo abaixo.
"Se ela passar pela última etapa, eu paro com isso."
Outra mensagem.
"E aí?"
Mariana leu.
Uma vez.
Duas.
Três.
"Se ela passar pela última etapa, eu caso com ela."
O silêncio tomou conta do apartamento.
Camila virou o rosto para Mariana.
Ela esperava raiva.
Encontrou algo muito mais assustador.
Mariana estava completamente imóvel.
"Eu era uma prova."
"Não."
Camila segurou seu braço.
"Você era a namorada dele. Foi ele que transformou isso numa prova."
Mariana soltou uma risada curta, sem humor.
"Eu estava prestes a transferir dinheiro de verdade para pagar uma dívida de mentira."
Ela fechou o tablet.
"Enquanto ele decidia se eu merecia casar com ele."
Rafael chegou pouco depois das oito.
Estranhou encontrar o apartamento silencioso.
"Mariana?"
Ela estava sentada à mesa.
Diante dela havia o tablet.
Rafael parou.
Seu rosto mudou antes mesmo que Mariana dissesse qualquer coisa.
Foi suficiente.
"Você já sabe", ela disse.
"Mariana, deixa eu explicar."
"Quanto?"
"Como?"
"Quanto do que aconteceu nas últimas semanas foi mentira?"
Rafael soltou lentamente a pasta que carregava.
"Eu não queria machucar você."
"Não foi o que perguntei."
"Praticamente tudo."
Mariana assentiu.
Aquela confirmação pareceu destruir a última parte dela que ainda procurava alguma explicação aceitável.
"Então você nunca esteve falido."
"Não."
"As contas nunca foram bloqueadas."
"Não."
"A casa, o carro, as dívidas..."
"Foi uma simulação."
Mariana respirou fundo.
"Uma simulação."
"Eu precisava ter certeza."
Ela ergueu os olhos.
"De quê?"
"De nós."
"Não. De mim."
Rafael se aproximou.
"Eu ia pedir você em casamento."
"Eu sei."
Ele congelou.
Mariana virou o tablet.
A mensagem estava aberta.
Se ela passar pela última etapa, eu caso com ela.
Rafael empalideceu.
"Não é o que parece."
"É exatamente o que parece."
"Eu amo você."
"Você ama?"
A pergunta saiu baixa.
"Porque quem ama não coloca a pessoa numa situação de desespero e fica observando para ver se ela se comporta da maneira certa."
"Eu errei."
"Você me viu oferecendo meu apartamento."
"Eu sei."
"Me viu cancelando coisas."
"Mariana..."
"Me viu procurando formas de pagar suas dívidas."
Ela abriu a bolsa e colocou sobre a mesa uma pasta.
"Quer saber o que eu estava fazendo hoje?"
Rafael não respondeu.
"Preparando uma transferência."
Ele olhou para a pasta.
"Que transferência?"
"Dinheiro suficiente para resolver uma parte importante da sua suposta crise."
Rafael franziu a testa.
"De onde você tiraria esse dinheiro?"
Mariana sorriu pela primeira vez.
Mas não havia calor algum naquele sorriso.
"Interessante."
"O quê?"
"Depois de tudo isso, essa ainda é a pergunta que chama sua atenção."
"Não foi isso que eu quis dizer."
"Foi exatamente isso."
Ela se levantou.
No quarto, uma pequena mala já estava pronta.
Rafael a viu e perdeu a cor.
"Você vai embora?"
"Sim."
"Mariana, espera."
Ele segurou a mala.
"Eu fiz uma coisa idiota. Eu admito. Mas fiz porque estava pensando no nosso futuro."
"Não use nosso futuro para justificar isso."
"Eu ia casar com você."
"Se eu passasse."
Rafael ficou em silêncio.
Mariana abriu a mão.
O anel que usava havia tanto tempo estava em sua palma.
Ela o colocou sobre a mesa.
O som foi pequeno.
Mesmo assim, Rafael pareceu senti-lo como um golpe.
"Não faz isso."
"Já está feito."
"Três anos não podem acabar por causa de um erro."
"Não foi um erro de cinco minutos."
Ela apontou para o tablet.
"Você planejou. Conversou. Criou documentos. Envolveu pessoas. Olhou para mim todos os dias e continuou mentindo."
Rafael passou a mão pelo cabelo.
"Eu estava com medo."
"Então deveria ter conversado comigo."
"Você não entende a pressão que existe sobre alguém da minha família."
"E você não entende que isso não lhe dá o direito de transformar alguém que ama em experimento."
Mariana puxou a mala.
Rafael bloqueou seu caminho.
"Eu posso consertar."
"Saia da frente."
"Mariana, por favor."
Ela finalmente o encarou.
Os olhos estavam úmidos, mas sua voz não tremeu.
"Eu poderia amar um homem falido. Não posso amar um homem que me transforma num teste."
Rafael soltou a mala.
Mariana caminhou até a porta.
Parou antes de sair.
"Uma última coisa."
Ele levantou os olhos, agarrando-se à esperança de que ela mudasse de ideia.
"Pare de espalhar que o Grupo Monteiro está com problemas."
Rafael franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque o mercado escuta."
"Está preocupada com o meu dinheiro agora?"
A expressão de Mariana mudou.
Foi apenas por um segundo.
Decepção.
"É isso que você entendeu?"
"Você acabou de falar do grupo."
"Porque alguém está prestando atenção."
Rafael deu um passo à frente.
"Quem?"
Mariana pensou nos movimentos que havia percebido enquanto tentava ajudá-lo. Consultas incomuns. Interesse repentino em dívidas do grupo. Gente grande demais olhando para uma crise que deveria ser apenas um teatro privado.
"Eu ainda não sei."
Ela abriu a porta.
"Mas sua mentira chamou atenção de alguém que parece estar esperando uma fraqueza real."
"Mariana..."
"Agora você está sozinho, Rafael."
A porta se fechou.
Rafael ficou imóvel.
Sobre a mesa, o anel parecia menor do que ele lembrava.
O celular vibrou.
Era Gustavo.
Rafael quase ignorou.
Então viu a mensagem.
"Temos um problema."
Outra chegou imediatamente.
"Um fundo começou a comprar posições ligadas às nossas dívidas."
Rafael pegou o aparelho.
"Que fundo?"
Os três pontos apareceram.
Sumiram.
Voltaram.
Por fim, Gustavo respondeu:
"Não consegui identificar o controlador."
Rafael olhou para a porta por onde Mariana acabara de sair.
Uma terceira mensagem surgiu.
"Mas isso não faz parte do nosso teste."
E, pela primeira vez desde que inventara a própria falência, Rafael sentiu medo de verdade.
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