"Ele Fingiu Que Estava Falido Para Me Testar — Então Eu Fui Embora" Capítulo 2
"Ei. Seja o que for, a gente resolve."
Rafael deveria ter encerrado a mentira naquele instante.
Deveria ter pegado o celular, apagado as mensagens de Gustavo e contado a Mariana que não existiam dívidas, contas bloqueadas ou uma crise capaz de destruir o Grupo Monteiro.
Mas não contou.
"É pior do que eu disse."
Mariana parou de digitar.
"Quanto pior?"
"Os bancos podem bloquear minhas contas. E talvez alguns bens sejam usados como garantia."
Ela respirou fundo, mas não recuou.
"Então amanhã a gente começa pelo que é essencial."
"A gente?"
"Você ainda vai perguntar isso?"
Rafael desviou os olhos.
Na manhã seguinte, a encenação ganhou forma.
O motorista recebeu férias remuneradas. A Porsche desapareceu da garagem. Rafael mandou retirar relógios, documentos e objetos pessoais antes que Mariana voltasse do trabalho.
Dois dias depois, eles deixaram o apartamento nos Jardins.
Rafael esperava alguma reação quando Mariana viu as últimas caixas sendo levadas.
Ela apenas prendeu o cabelo e perguntou:
"Já confirmou o aluguel?"
"Sim."
"O lugar é muito menor?"
"Bem menor."
"Tem chuveiro quente?"
Ele quase riu.
"Tem."
"Então sobrevivemos."
O novo apartamento ficava na Vila Mariana, em um prédio antigo, sem portaria vinte e quatro horas e com uma cozinha que caberia inteira dentro da antiga sala de jantar.
Quando entraram, Mariana ficou alguns segundos olhando ao redor.
Rafael tentou decifrar sua expressão.
"Pode falar."
"O quê?"
"Que é horrível."
Ela abriu uma das janelas.
"Eu ia dizer que precisamos de cortina."
"Mariana."
Ela se virou.
"Eu morei em apartamento menor na faculdade."
"Mas você não precisava morar assim agora."
"Nem você."
Ela pegou uma caixa.
"Qual delas tem as panelas?"
Rafael observou Mariana atravessar a sala.
Nenhuma reclamação.
Nenhuma pergunta sobre quando poderiam voltar.
Nenhum telefonema escondido para procurar uma saída.
Naquela noite, comeram pizza sentados no chão porque a mesa ainda não havia chegado.
Mariana ergueu a fatia.
"À falência."
Rafael arregalou os olhos.
"Você está brindando à minha ruína?"
"Estou tentando melhorar o clima."
Ela bateu a pizza na dele.
"Quando você recuperar seu império, vai sentir saudade disso."
"Duvido."
"Vai sim. Rico adora romantizar dificuldade depois que ela passa."
Rafael riu.
Por alguns minutos, esqueceu que tudo era mentira.
Depois viu Mariana abrir uma planilha.
Ela tinha organizado aluguel, alimentação, transporte, contas e uma reserva para emergências.
"Você fez isso quando?"
"No almoço."
"Você trabalha no almoço."
"Agora eu também trabalho para impedir que você gaste como um homem que ainda tem bilhões."
Ela apontou para ele.
"A partir de hoje, aplicativo de carro só quando for necessário."
"Eu tenho reuniões."
"Existe metrô em São Paulo, Rafael."
Ele soltou uma risada incrédula.
"Você quer que eu vá para a Faria Lima de metrô?"
"Não. Quero que você seja carregado numa liteira por quatro homens."
Ela voltou à planilha.
Rafael sorriu, mas o sorriso desapareceu quando percebeu a velocidade com que Mariana reorganizava números.
Ela simulava cenários, projetava despesas e calculava quanto tempo diferentes reservas poderiam durar.
"Como você sabe fazer isso?"
Mariana continuou olhando para a tela.
"Fazer o quê?"
"Gerenciar uma crise de caixa."
"Não estou gerenciando uma crise de caixa. Estou fazendo orçamento doméstico."
"Você acabou de calcular três cenários de liquidez."
Ela levantou os olhos.
"Trabalho com finanças, lembra?"
"Mas isso parece..."
"O quê?"
"Mais do que análise."
Por um instante, Rafael viu alguma coisa mudar no rosto dela.
Foi rápido.
"Já estudei um pouco."
Antes que ele perguntasse mais, Mariana fechou o notebook.
"Agora dorme. Amanhã você precisa salvar sua empresa."
Na manhã seguinte, Rafael recebeu uma ligação dela no escritório.
"Consegui duas reuniões para você."
Ele se endireitou na cadeira.
"Que reuniões?"
"Empresas que podem antecipar contratos com a Monteiro se vocês oferecerem condições melhores."
"Como você conseguiu isso?"
"Conheço algumas pessoas."
"Que pessoas?"
Silêncio.
"Rafael, você quer os nomes ou quer as reuniões?"
Ele apertou o celular.
"As duas coisas."
Mariana riu baixinho.
"Vou mandar por mensagem."
Os nomes chegaram segundos depois.
Rafael conhecia as empresas.
Conhecia também os executivos.
Não eram pessoas que normalmente aceitavam uma reunião urgente por indicação de uma analista de nível intermediário.
A dúvida voltou.
No fim daquela tarde, Gustavo entrou em sua sala.
"Como está indo?"
"Ela ficou."
"Eu imaginei."
"Estamos morando na Vila Mariana."
Gustavo sorriu.
"Sobreviveu?"
"Ela está lidando melhor do que eu."
Rafael contou sobre as planilhas e as reuniões.
Esperava que Gustavo finalmente admitisse que estava errado.
Mas o amigo ficou pensativo.
"Interessante."
"Interessante?"
"Você não acha?"
"Ela está tentando ajudar."
"Talvez."
Rafael fechou a expressão.
"Não começa."
Gustavo caminhou até a janela.
"Você espalhou rumores no mercado. Tirou o carro. Mudou de apartamento. De repente ela começa a usar contatos que nunca mencionou."
"Qual é a sua teoria?"
"Não tenho uma."
"Gustavo."
O amigo se virou.
"Talvez ela já tenha percebido."
"Percebido o quê?"
"Que é um teste."
Rafael ficou em silêncio.
"Se Mariana já sabia mais sobre você do que dizia, talvez também tenha gente suficiente no mercado para descobrir que a Monteiro não está realmente quebrada."
"Isso não faz sentido."
"Faz, se ela estiver interpretando um papel."
A frase atingiu Rafael com violência.
"Ela não está interpretando."
"Ótimo."
Gustavo deu de ombros.
"Então você já tem sua resposta."
Era exatamente o que Rafael queria ouvir.
Mas naquela noite, quando voltou para casa, encontrou Mariana sentada à mesa fotografando algumas peças de joalheria.
"O que está fazendo?"
Ela bloqueou o celular.
"Nada."
"Eu vi."
Mariana soltou o ar.
"Estou vendendo algumas coisas."
Rafael sentiu o peito apertar.
"Joias?"
"Eu quase não uso."
"Não precisa."
"Precisa, sim."
"Mariana, eu não quero seu dinheiro."
"E eu não estou te dando meu dinheiro."
Ela se levantou.
"Estou colocando dinheiro na nossa reserva."
"Não venda nada."
"Você não pode decidir isso."
"Posso pedir."
"E eu posso dizer não."
Ela guardou uma pequena caixa na bolsa.
Rafael segurou seu pulso.
"Por quê?"
Mariana olhou para a mão dele até Rafael soltá-la.
"Porque eu não vou ficar sentada esperando você afundar enquanto finjo que isso não é problema meu."
"Você não tem obrigação."
"Eu sei."
A resposta foi imediata.
"Estou fazendo porque quero."
Rafael não conseguiu dizer nada.
Mariana pegou a bolsa e foi para o quarto.
Ele permaneceu sozinho na sala.
Na manhã seguinte, ela saiu mais cedo.
Não contou onde iria.
Mariana desceu duas quadras antes de chamar um carro.
No banco traseiro, abriu a bolsa e tocou a pequena caixa.
Dentro havia um par de brincos antigos e um pingente delicado.
O pingente tinha pertencido à mãe dela.
Mariana passou o polegar sobre o metal.
Por um momento, quase desistiu.
Então lembrou da expressão de Rafael ao falar sobre as dívidas.
Fechou a caixa.
O dinheiro era só dinheiro.
Ela poderia recuperar.
Ele precisava dela agora.
Quarenta minutos depois, Camila Nascimento já a esperava em uma cafeteria em Pinheiros.
Camila usava um blazer vinho e tinha o celular encostado ao ouvido.
Assim que Mariana se sentou, ela encerrou a ligação.
"Me diz que você não vai fazer o que estou pensando."
Mariana colocou a caixa sobre a mesa.
Camila fechou os olhos.
"Meu Deus."
"Não começa."
"Isso era da sua mãe."
"Eu sei."
"E Rafael sabe?"
"Não."
"Você vai vender uma coisa da sua mãe para ajudar um homem que tem uma família bilionária?"
"A família também está em risco."
Camila a encarou.
"Você verificou?"
Mariana endureceu.
"Ele me contou."
"Não foi o que eu perguntei."
"Camila."
"Você entende de reestruturação melhor do que muita gente que cobra milhões por isso. Não está achando nada estranho?"
Mariana demorou a responder.
"Estou achando tudo estranho."
"Então investiga."
"Ele é meu namorado, não uma empresa em due diligence."
"Exatamente. Por isso deveria estar te contando tudo."
Mariana olhou para a caixa.
"Ele está assustado."
"Homens assustados também mentem."
"Rafael não faria isso comigo."
Camila ficou em silêncio.
Mariana levantou os olhos.
"Não faria."
Camila estendeu a mão e empurrou a caixa de volta.
"Então pelo menos espera."
"Não posso."
"Por quê?"
"Porque se for verdade, cada dia importa."
Camila a observou por alguns segundos.
"Você ama mesmo esse homem."
Mariana sorriu com tristeza.
"Esse é o problema."
Dois dias depois, Rafael descobriu que as joias tinham sido vendidas.
Não sabia sobre o pingente.
Mariana disse apenas que eram peças antigas que não usava.
Naquela mesma noite, ela transferiu parte do dinheiro para a conta que haviam criado para despesas.
Rafael ficou olhando o comprovante.
Ela havia ficado.
Tinha reduzido sua vida sem reclamar.
Estava vendendo o que era dela.
Estava tentando abrir portas para ele.
Ele já tinha a resposta.
Precisava parar.
Pegou o celular para ligar para Gustavo.
Antes que discasse, recebeu uma mensagem.
"Descobri de onde veio um dos contatos dela."
Logo abaixo havia o nome de um executivo de um fundo estrangeiro.
E uma frase.
"Ela conhece gente demais para alguém que diz ser só uma analista."
Rafael apagou a tela.
Quando Mariana saiu do banho, encontrou-o sentado na cama.
"Está tudo bem?"
Ele a olhou.
"Está."
Era mentira.
Na manhã seguinte, Rafael pediu ao jurídico que preparasse a última etapa.
Não documentos oficiais que pudessem circular no mercado, mas uma simulação convincente de garantias pessoais, empréstimos e obrigações que fariam parecer que ele não estava apenas perdendo patrimônio.
Estava ficando milionariamente endividado.
Quando chegou em casa, encontrou Mariana preparando café.
"Preciso te mostrar uma coisa."
Ela percebeu imediatamente que algo estava errado.
Rafael colocou a pasta sobre a mesa.
"Existem dívidas que eu não te contei."
Mariana ficou parada.
"Que dívidas?"
"Garantias pessoais."
"Quanto?"
Rafael abriu a pasta.
Mariana se sentou e começou a ler.
Uma página.
Depois outra.
A expressão dela foi mudando.
Não havia pânico.
Havia concentração.
Ela voltou à primeira página.
Comparou datas.
Leu uma cláusula outra vez.
"Essas garantias foram assinadas quando?"
Rafael sentiu o coração acelerar.
"Há alguns meses."
"Por que você não mencionou isso antes?"
"Eu achei que conseguiria resolver."
Mariana continuou lendo.
Então fechou a pasta.
Pela primeira vez desde que Rafael anunciara a crise, ela não tocou sua mão.
Não disse que ficaria tudo bem.
Não falou sobre os dois.
Apenas ergueu os olhos e o encarou.
"Rafael."
"O quê?"
A voz dela saiu baixa.
Séria demais.
"Você está me contando tudo?"
Rafael sentiu o celular vibrar no bolso.
Não precisava olhar para saber quem era.
Mariana não desviou os olhos.
"Eu preciso que você pense antes de responder."
Ela empurrou lentamente a pasta na direção dele.
"Porque tem alguma coisa aqui que não faz sentido."
E, naquele momento, Rafael percebeu que talvez Mariana estivesse muito mais perto da verdade do que Gustavo havia previsto.
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