"Ele Fingiu Que Estava Falido Para Me Testar — Então Eu Fui Embora" Capítulo 1
A chuva fina cobria a Avenida Faria Lima quando Rafael Monteiro estacionou diante do prédio de Mariana.
Ele não saiu imediatamente.
Na mão, segurava uma pequena caixa de veludo azul-marinho.
Dentro dela, um anel.
Três anos de namoro, e Rafael finalmente tinha decidido.
No domingo, pediria Mariana em casamento.
Ele sorriu, guardou a caixa no bolso interno do paletó e subiu.
"Você está escondendo alguma coisa."
Mariana abriu a porta usando uma camiseta larga, o cabelo preso de qualquer jeito.
Rafael ergueu uma sobrancelha.
"Por que acha isso?"
"Porque você está com a sua cara de segredo."
Ela tentou espiar o bolso do paletó. Rafael riu e segurou suas mãos.
"Curiosa."
"Suspeito."
Na cozinha, havia duas taças e uma panela no fogão.
Rafael parou.
"Você fez jantar?"
"Era uma surpresa."
"Eu posso cancelar com Gustavo."
"Nem pensar. Amanhã a gente esquenta."
Mariana nunca fazia cobranças.
Nunca perguntava quanto Rafael ganhava. Nunca pedira favores ao Grupo Monteiro. O cartão adicional que ele lhe dera meses antes continuava praticamente intocado.
Era uma das razões pelas quais ele tinha tanta certeza sobre ela.
"Domingo", Rafael disse.
"O que tem domingo?"
"Não marca nada."
Mariana sorriu.
"Isso parece uma ordem."
"É um convite."
"Então talvez eu aceite."
Ele beijou sua testa.
Nesse instante, o celular dela tocou.
Número internacional.
Mariana olhou para a tela e recusou a chamada.
"Não vai atender?"
"Agora não."
"Quem era?"
"Um pessoal de investimento."
Ela virou o celular para baixo.
"Nada urgente."
Rafael não perguntou mais.
Mas, ao entrar no elevador, percebeu que aquela pequena reação havia ficado em sua cabeça.
O jantar acontecia em um restaurante reservado na Faria Lima, frequentado por executivos, investidores e herdeiros que preferiam não aparecer em fotografias.
Gustavo Ferraz já esperava por ele.
Amigo de Rafael desde a faculdade e atual vice-presidente de estratégia do Grupo Monteiro, Gustavo tinha o talento de dizer coisas desagradáveis como se estivesse apenas tentando ajudar.
Rafael sentou-se.
"Domingo vou pedir Mariana em casamento."
Gustavo sorriu.
"Finalmente."
Rafael tocou discretamente o bolso.
"Já comprei o anel."
"Então parabéns."
Eles brindaram.
Mas Gustavo ficou em silêncio por alguns segundos.
Rafael conhecia aquele silêncio.
"Fala."
"Não quero estragar sua noite."
"Já começou."
Gustavo pousou a taça.
"Mariana sabia quem você era antes de vocês começarem a namorar?"
Rafael franziu a testa.
"Que pergunta é essa?"
"Ouvi um comentário ontem."
"De quem?"
"Não importa."
"Então não deveria importar para mim."
Gustavo respirou fundo.
"Disseram que ela já sabia que você era o herdeiro dos Monteiro antes daquela história da livraria."
Rafael soltou uma risada curta.
"Besteira."
"Provavelmente."
"Mariana nunca me pediu nada."
"Eu sei."
"Nunca usou meus contatos. Nunca quis trabalhar no grupo. Nem usa o cartão que dei."
Gustavo assentiu.
"Talvez você esteja certo."
"Talvez?"
"Rafael, você está prestes a se casar. Não estou dizendo que ela é interesseira."
"Está insinuando."
"Estou dizendo que pessoas como você precisam ter certeza."
A frase incomodou Rafael.
"Eu amo Mariana."
"Eu sei."
"E ela me ama."
Gustavo hesitou.
"Espero que sim."
Rafael o encarou.
Então, contra a própria vontade, lembrou-se do telefonema internacional.
"Um pessoal de investimento."
Por que Mariana havia virado o aparelho para baixo?
Gustavo percebeu sua expressão.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Não."
Rafael pegou a taça.
"Não aconteceu nada."
Quando voltou ao apartamento, Mariana estava no sofá com o notebook no colo.
"Jantar bom?"
"Normal."
Ela fechou o computador.
Rafael ficou alguns segundos observando-a.
"Mariana."
"Hm?"
"Se eu perdesse tudo, você ficaria comigo?"
Ela riu.
"Quanto você bebeu?"
"Estou falando sério."
O sorriso dela desapareceu.
"De onde veio isso?"
"Responde."
Mariana tirou os óculos.
"Sim."
"Mesmo sem apartamento? Carro? Dinheiro?"
"Rafael, eu namoro você. Não o seu carro."
A resposta deveria ter bastado.
Não bastou.
"Você sabia quem eu era quando nos conhecemos?"
Mariana ficou imóvel.
"Quem colocou isso na sua cabeça?"
"Ninguém."
"Foi Gustavo?"
Rafael desviou os olhos.
Ela entendeu.
"Seu amigo não confia em mim. Tudo bem."
Mariana se levantou.
"Mas você precisa decidir se confia."
"Eu confio."
"Não parece."
"Eu só preciso ter certeza."
Ela o encarou por alguns segundos.
Havia decepção em seus olhos, não raiva.
"Quando descobrir do que precisa ter certeza, me avisa."
Mariana entrou no quarto.
Rafael ficou sozinho na sala.
A caixa do anel ainda estava em seu bolso.
Naquela madrugada, Mariana dormia quando seu celular acendeu sobre a mesa de cabeceira.
O mesmo número internacional.
Rafael olhou sem intenção de tocar.
A ligação terminou.
Logo depois, apareceu uma mensagem na tela bloqueada:
"Precisamos da sua autorização antes da abertura de segunda-feira. O comitê aguarda sua decisão."
Rafael franziu a testa.
Autorização?
Comitê?
Mariana nunca mencionara nada parecido.
Ele não tocou no telefone.
Mas a dúvida já havia encontrado espaço demais dentro dele.
Na manhã seguinte, Rafael entrou no escritório de Gustavo antes das oito.
"Preciso que faça uma coisa."
Gustavo levantou os olhos do computador.
"O quê?"
"Quero simular uma crise."
"Que tipo de crise?"
"Financeira."
Gustavo ficou em silêncio.
Então entendeu.
"Você quer testar Mariana."
"Não chama assim."
"Então chama de quê?"
Rafael olhou pela janela.
"Eu só preciso saber se ela ficaria comigo sem o dinheiro dos Monteiro."
"Ela já disse que ficaria."
"Quero ter certeza."
Gustavo se levantou.
"Você está prestes a pedir essa mulher em casamento e quer mentir para ela primeiro."
Rafael apertou a mandíbula.
"Consegue fazer ou não?"
"Consigo."
Gustavo fez uma pausa.
"Uma crise de liquidez controlada. Problemas com uma operação, restrição de crédito, pressão sobre seus ativos pessoais. Parece real sem colocar o grupo em risco."
"Faça."
"Rafael."
"O quê?"
"Depois que começar, você não controla a reação dela."
Rafael tocou o bolso onde estava o anel.
"Se Mariana ficar, no domingo eu peço ela em casamento."
"E se descobrir a mentira?"
"Não vai descobrir."
Naquela noite, Mariana estava aquecendo o jantar do dia anterior quando Rafael chegou.
Ela percebeu imediatamente seu rosto tenso.
"O que aconteceu?"
Rafael fechou a porta.
Por um segundo, pensou em desistir.
Poderia tirar a caixa do bolso.
Poderia pedir Mariana em casamento ali mesmo e esquecer tudo aquilo.
Mas a dúvida falou mais alto.
"É o Grupo Monteiro."
Mariana desligou o fogão.
"O que aconteceu?"
"Uma operação deu errado."
"Quão errado?"
"Posso perder minha posição no grupo. Parte dos meus ativos está comprometida."
Ela se aproximou.
"Rafael..."
"Se piorar, posso ficar sem nada."
Ele observou seu rosto.
Esperava medo.
Hesitação.
Talvez uma pergunta sobre imóveis, contas, patrimônio.
Mariana ficou em silêncio por apenas alguns segundos.
Então puxou uma cadeira, pegou papel e caneta.
"Quanto devemos?"
Rafael piscou.
"O quê?"
"Quanto devemos?"
"Você não entendeu. Eu posso perder tudo."
"Eu entendi."
Ela abriu uma página limpa.
"Então começamos pelo que pode ser cortado. Posso entregar meu apartamento. Tenho uma reserva e algumas coisas que posso vender."
"Mariana..."
"Se for preciso começar do zero, começamos."
O celular de Rafael vibrou.
Uma mensagem de Gustavo:
"Está feito. A partir de agora, a crise começou."
Rafael bloqueou a tela.
À sua frente, Mariana já fazia contas para salvar um homem que não precisava ser salvo.
Ele levou a mão ao bolso.
Sentiu a pequena caixa de veludo.
Naquela noite, o anel deveria ter começado a aproximá-los de um casamento.
Em vez disso, Rafael o escondeu outra vez.
Mariana levantou os olhos.
"Você não está sozinho, Rafael."
Ele deveria ter encerrado a mentira naquele instante.
Não encerrou.
Porque Rafael Monteiro ainda acreditava que estava testando o amor de Mariana.
Sem imaginar que, a partir daquela noite, quem estava sendo colocado à prova era ele.
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