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"A Taça Que Ele Preparou Para Mim" PARTE 4 — MINHA IRMÃ JÁ SABIA

正文开头

PARTE 4 — MINHA IRMÃ JÁ SABIA

Lívia percebeu o que havia dito.

O medo em seu rosto se transformou em cálculo.

"Eu quis dizer... por que você trocaria as taças sem saber o que havia nelas?"

"Não foi isso que você perguntou."

"Helena, você está tentando transformar uma frase em confissão."

"Estou tentando entender por que minha irmã parece mais assustada com Caio ter bebido do que com alguém ter tentado me matar."

Ela puxou a cadeira e sentou-se. As mãos tremiam, mas a voz recuperara firmeza.

"Você passou dois meses doente. Mal dormia. Cancelou reuniões porque não conseguia ficar em pé. Talvez tenha visto Caio colocar gotas de adoçante e imaginado outra coisa."

"Eu nunca uso adoçante."

"Então remédio. Sei lá."

"E o que ele teria colocado para si mesmo?"

Lívia desviou os olhos.

Eu não precisava fazê-la confessar tudo. Precisava impedi-la de construir uma versão confortável antes que a polícia verificasse os fatos.

"A que horas Caio falou com você hoje?"

"À tarde."

"Por telefone?"

"Sim."

"Quanto tempo durou a ligação?"

"Eu não lembro."

"Você lembra que ele faria um drinque, mas não lembra quando conversaram."

"Qual é o seu problema?"

"Meu problema está numa sala de emergência porque bebeu o que havia preparado para mim."

Ela se levantou.

"Não vou ficar aqui enquanto você me acusa."

"Então vá."

Lívia parou diante da porta.

"Mas antes talvez queira saber que a Polícia Civil já viu a mensagem em que você me pediu para dizer que eu tinha bebido."

Sua mão permaneceu suspensa sobre a maçaneta.

"Você mostrou nosso diálogo?"

"Nosso diálogo? Você queria confirmar se eu estava morrendo."

"Eu estava preocupada."

"Com quem?"

Lívia virou-se devagar.

Por um momento, a raiva venceu o medo.

"Você sempre faz isso. Faz uma pergunta e já decide qual resposta prova que é melhor do que todo mundo."

"Não estamos discutindo quem ganhou mais elogios quando tinha quinze anos."

"Claro que não. Estamos discutindo a grande Helena Duarte, a mulher que construiu tudo sozinha e nunca precisou de ninguém."

"Você acha que isso justifica o que fizeram?"

"Eu não fiz nada."

"Você estava com uma pasta da minha empresa no colo."

Lívia perdeu a cor.

"Que pasta?"

"A câmera atrás da fotografia do meu casamento gravou vocês."

Ela cambaleou um passo.

Eu continuei antes que recuperasse o controle.

"Gravou Caio dizendo que a última dose seria no nosso aniversário. Gravou você perguntando sobre a empresa. Gravou vocês se beijando enquanto planejavam o que aconteceria quando eu não pudesse mais assinar."

"Não era assim."

"Como era?"

"Caio dizia que você estava acabando com a própria saúde."

"Enquanto acabava com ela por mim."

"Eu não sabia no começo."

O silêncio caiu entre nós.

Lívia levou a mão à boca, tarde demais.

"No começo de quê?", perguntei.

"Eu não quis dizer isso."

"Quando você soube?"

"Não sei."

"Antes ou depois de entregar a ele minha assinatura?"

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"Eu nunca entreguei nada."

"Antes ou depois de discutir a minha morte?"

"Caio cuidava dessas doses!"

A frase saiu num grito.

Lívia congelou.

Do outro lado do vidro, alguém continuava gravando.

Eu senti a dor chegar devagar. Não como uma lâmina, mas como água invadindo um quarto.

Minha irmã sabia que havia doses.

Plural.

"Quantas?"

"Helena..."

"Quantas vezes ele colocou alguma coisa na minha comida?"

"Eu nunca toquei em nada."

"Quantas vezes?"

"Eu não sei! Ele cuidava disso. Eu só..."

"Você só esperava."

Ela começou a chorar.

"Ele disse que ninguém descobriria. Disse que seu coração podia não aguentar, que todo mundo sabia que você vivia no limite."

"E isso deixou você tranquila?"

"Não."

"Mas deixou você disposta."

Lívia fechou os olhos.

"Você tinha tudo."

"Então merecia perder a vida?"

"Não foi isso que eu disse."

"Você não precisava dizer. Sentou-se ao lado do meu marido e discutiu o que seria de minha empresa depois do meu funeral."

"Você não sabe como foi crescer sendo comparada a você."

"E você não sabe como foi passar dois meses achando que meu próprio corpo estava me abandonando."

A porta se abriu. Camila entrou com outro agente.

Lívia recuou.

"O que está acontecendo?"

"A senhora pode permanecer em silêncio e solicitar assistência jurídica", Camila disse. "Mas não vai sair daqui levando seu telefone sem que sejam tomadas as providências cabíveis."

"Helena, manda eles pararem."

Minha irmã voltou a usar o tom de quem acreditava que eu resolveria tudo.

Eu o conhecia bem.

Resolver a dívida dela.

Indicar um cliente.

Convencer nossa mãe a perdoar mais uma mentira.

Durante anos, ajudei Lívia a escapar de consequências e chamei isso de amor.

"Você já decidiu quanto valia minha vida", respondi. "Agora não sou eu quem decide o preço do que você fez."

Saí da sala.

No corredor, minhas pernas falharam. Apoiei-me na parede antes de cair.

Renata apareceu no fim do corredor, ainda com a roupa do escritório e o cabelo preso às pressas.

"Helena."

Ela me segurou pelo braço.

"Eu estou bem."

"Pare de dizer isso."

Antes que eu respondesse, o celular dela vibrou.

Renata leu a tela e sua expressão mudou.

"Temos outro problema."

Um portal de notícias acabara de publicar uma nota curta.

Empresária do setor hoteleiro é investigada após marido ser envenenado durante jantar íntimo.

A matéria dizia que Caio fora internado depois de ingerir uma bebida servida por mim. Citava uma fonte próxima à família e descrevia nosso casamento como "marcado pelo controle da empresária sobre a vida pessoal e profissional do marido".

Não mencionava o frasco em seu bolso.

Não mencionava as gravações.

Não mencionava minhas semanas de doença.

Em menos de uma hora, eu havia passado de alvo a suspeita.

"Quem sabia?", perguntei.

"Equipe médica, polícia, nós e quem estiver falando por Caio."

"Ele ainda está na emergência."

"O advogado dele não."

Renata deslizou o dedo pela tela.

"O conselho convocou uma reunião extraordinária. E o banco respondeu à nossa solicitação de bloqueio."

"Conseguimos impedir a movimentação?"

Ela me encarou.

"Impedimos a próxima. Não a anterior."

"Que anterior?"

Renata abriu um documento.

Uma autorização eletrônica emitida em meu nome havia liberado parte dos recursos de Trancoso cinco dias antes.

Minha assinatura aparecia no rodapé.

O dinheiro já havia saído.

 

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