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"A Taça Que Ele Preparou Para Mim" PARTE 2 — O HOMEM QUE RECONHECEU O VENENO

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PARTE 2 — O HOMEM QUE RECONHECEU O VENENO

Caio acompanhou o primeiro gole que dei.

Seus ombros relaxaram.

Era uma mudança mínima, quase invisível, mas eu conhecia aquele homem havia nove anos. Conhecia a linha que surgia entre suas sobrancelhas quando mentia, o movimento de sua mandíbula quando sentia raiva e o sorriso específico que usava quando acreditava ter vencido.

Ele estava sorrindo daquele jeito agora.

"Está bom?", perguntou.

"Perfeito."

Caio bebeu novamente.

Eu me obriguei a cortar o peixe, levar um pedaço à boca e mastigar. Cada movimento parecia acontecer dentro de um sonho lento.

Meu celular estava sobre meu colo. A tela mostrava o atalho para o SAMU. Uma pressão do polegar seria suficiente.

Eu precisava esperar.

Não por vingança.

Pela verdade que ainda tentava escapar de mim.

Mesmo depois do vídeo, dos documentos e do frasco, uma parte do meu cérebro procurava outra explicação. Talvez não fosse veneno. Talvez ele estivesse me assustando. Talvez eu tivesse entendido tudo errado.

O amor não desaparece quando a prova chega.

Primeiro, ele tenta deformar a prova.

Caio começou a falar sobre uma viagem.

"Depois que assinarmos os contratos de Trancoso, podíamos passar uns dias em Fernando de Noronha."

"No mês que vem?"

"Se você conseguir parar de trabalhar por uma semana."

"E se eu não conseguir?"

Ele me observou por cima da borda da taça.

"Então eu vou ter que aprender a viver sem você."

A frase ficou entre nós.

Caio sorriu, como se fosse uma brincadeira, e voltou a comer.

Oito minutos depois, passou a mão pela nuca.

Aos onze, afrouxou o primeiro botão da camisa.

Aos quinze, deixou o garfo cair.

"Está calor aqui?"

"Para mim, não."

Ele puxou o ar e pressionou uma mão contra o abdômen.

"Acho que o peixe não estava bom."

"Você provou antes de servir."

"Talvez tenha sido o molho."

Então veio a primeira contração forte.

Caio se curvou sobre a mesa. A taça bateu no prato, derramando vinho sobre a toalha clara.

Quando ergueu o rosto, estava sem cor.

"Helena."

Não respondi.

Ele não olhou para a travessa.

Não olhou para o peixe.

Olhou para as taças.

Primeiro para a que estava diante dele. Depois para a minha.

O medo surgiu em seus olhos antes das palavras.

"Você trocou."

Minha última dúvida morreu naquele instante.

"Troquei o quê?"

Caio tentou se levantar. As pernas cederam, e ele segurou a beirada da mesa.

"As taças."

"Por que isso importaria?"

Ele respirava depressa demais.

"O que você fez?"

Levantei-me.

"Foi você quem preparou as bebidas."

"Helena, liga para uma ambulância."

"O que tinha na minha taça?"

"Eu não sei."

"Então como você sabe que eu as troquei?"

Ele fechou os olhos.

Por um segundo, vi o homem com quem me casei. O homem que dormira no chão da primeira pousada durante uma reforma. O homem que dançara comigo na cozinha quando conseguimos nosso primeiro mês de lucro.

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Meu corpo quis se aproximar.

Eu recuei.

"Diga o que você colocou ali."

"Não posso."

"Você pôde colocar em mim."

Outra onda de dor o fez cair de joelhos.

Pressionei o atalho no celular.

Quando a atendente respondeu, informei meu endereço, descrevi os sintomas e disse com clareza:

"Há suspeita de envenenamento. Ele ingeriu uma substância desconhecida colocada numa bebida."

Caio ergueu a cabeça.

"Não fala isso."

Afastei-me enquanto transmitia as informações. A atendente pediu que eu mantivesse a linha aberta e verificasse se ele continuava consciente.

Caio continuava.

Consciente o bastante para tentar alcançar o bolso do paletó pendurado na cadeira.

Coloquei o pé sobre o tecido antes que sua mão chegasse.

"O que está procurando?"

"Meu remédio."

"Você não toma nenhum remédio."

"Sai de cima."

"O frasco ainda está aí?"

Ele parou.

Eu me abaixei sem lhe dar as costas, puxei o paletó e senti o volume no bolso interno. Não o retirei. Deixei tudo como estava para que os socorristas e a polícia vissem onde fora encontrado.

Caio acompanhou meus movimentos.

"Há quanto tempo você sabe?"

"O suficiente."

"Foi a Renata?"

Não respondi.

"Ela sempre quis me tirar da Aurora."

"Você nunca foi dono da Aurora."

O rosto dele se contraiu, e não foi apenas por causa da dor.

"Eu construí aquilo com você."

"Você chegou quando a segunda casa já estava aberta."

"Eu abri portas que você nunca abriria sozinha."

"E por isso merecia me enterrar?"

Ele ficou em silêncio.

Peguei o segundo celular e abri o vídeo salvo. A voz de Lívia encheu a sala.

"E se ela perceber?"

Depois veio a voz de Caio.

"A última dose vai parecer o fim de um corpo que já vinha dando sinais."

Interrompi o áudio.

Ele me encarou como se eu fosse uma estranha.

"Você nos gravou."

"Na minha casa."

"Nossa casa."

"Você transformou esta casa no lugar onde eu estava morrendo."

O celular dele vibrou sobre o aparador.

Uma mensagem surgiu na tela bloqueada.

Lívia: Deu certo?

Caio tentou se arrastar até o móvel.

Peguei o aparelho antes.

"Me dá isso."

"Há quanto tempo?"

Ele abaixou a cabeça.

"Helena..."

"Há quanto tempo você dorme com minha irmã?"

"Isso não importa agora."

"Para você, talvez não."

O silêncio respondeu antes dele.

"Dez meses", disse por fim.

Dez meses incluíam meu aniversário. O Natal na casa de minha mãe. A inauguração de Ilhabela, quando Lívia segurou minha bolsa enquanto Caio ajeitava meu vestido diante dos fotógrafos.

Dez meses de mãos se tocando atrás de mim.

"Você queria me matar por ela?"

"Não foi por Lívia."

"Então foi pelo dinheiro."

Caio desviou os olhos.

"Alguns investimentos deram errado."

"Quanto?"

"Eu ia recuperar."

"Quanto, Caio?"

"Oito milhões e quatrocentos mil."

Meu estômago se contraiu.

Não pelo número.

Pela calma com que ele finalmente o pronunciou.

"De onde você tirou esse dinheiro?"

"Parte era nossa."

"Parte era da conta de expansão?"

Ele não respondeu.

"Você falsificou minha assinatura para cobrir suas perdas."

"Eu precisava de tempo."

"Você tinha tempo para pedir ajuda."

"E admitir para todo mundo que eu fracassei? Virar definitivamente o marido da Helena Duarte?"

"Você preferiu virar meu assassino."

"Não era para chegar a isso."

"Você trouxe o frasco para a mesa."

Ele começou a chorar.

Durante anos, aquelas lágrimas teriam aberto todas as minhas defesas. Naquela noite, só revelavam o quanto ele ainda acreditava que a própria vergonha era mais importante que minha vida.

Ao longe, ouvi a sirene.

Caio também ouviu.

"Diz que foi um acidente", pediu. "Diz que eu passei mal de repente."

"E o vídeo?"

"A gente explica."

"E Lívia?"

"Eu resolvo com ela."

Mesmo de joelhos, intoxicado pela própria armadilha, Caio ainda imaginava que controlaria a narrativa.

O interfone tocou.

Logo depois, alguém bateu com força no portão interno.

"SAMU!"

Eu fui abrir.

Atrás de mim, Caio chamou meu nome com a antiga ternura.

"Helena, se eu morrer, foi você que fez isso."

Parei com a mão na maçaneta.

"Não, Caio."

Olhei para a taça caída diante dele.

"O acidente foi eu ter confiado em você."

Então abri a porta.

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