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"A Taça Que Ele Preparou Para Mim" PARTE 1 — A TAÇA À MINHA FRENTE

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PARTE 1 — A TAÇA À MINHA FRENTE

Caio sorriu enquanto colocava a taça diante de mim.

Foi naquele instante que tive certeza de que meu marido pretendia me matar.

"Feliz aniversário de casamento", ele disse.

A voz saiu baixa, íntima, quase carinhosa. A mesma voz que, durante sete anos, me convencera de que eu estava segura ao lado dele.

Sobre a mesa, duas taças de cristal refletiam a luz dourada da sala de jantar. Caio havia preparado o drinque sozinho: vinho branco, água com gás, fatias finas de pera e um ramo de alecrim, exatamente como eu gostava.

Ou como eu costumava gostar.

Eu havia visto o que ele fizera trinta segundos antes.

Caio achou que eu estivesse procurando um guardanapo na bancada. Não percebeu que a porta de vidro voltada para o jardim devolvia seu reflexo com nitidez.

Vi sua mão entrar no bolso interno do paletó.

Vi o frasco pequeno.

Vi quando ele inclinou o líquido transparente sobre a taça marcada por uma discreta lasca perto da base.

A minha taça.

Depois, ele escondeu o frasco e ajeitou as mangas como se nada tivesse acontecido.

"Você está pálida", Caio comentou. "Está se sentindo mal de novo?"

"Só cansada."

"Eu avisei que essa expansão para Trancoso ia acabar com você."

Ele estendeu a mão por cima da mesa e tocou meus dedos.

O gesto teria parecido amor para qualquer pessoa.

Para mim, parecia uma despedida ensaiada.

Além das janelas, São Paulo desaparecia sob uma chuva fina. Nossa casa em Alto de Pinheiros estava silenciosa, cheirando a madeira molhada e ao robalo que Caio assara para o jantar.

Tudo ali havia sido escolhido para parecer sereno.

A louça portuguesa que compramos em nossa lua de mel. As velas de cera clara. O arranjo de lírios brancos enviado por minha irmã naquela manhã.

O cartão de Lívia ainda estava sobre o aparador.

Para muitos anos de felicidade.

Quase ri quando li.

Nas últimas oito semanas, meu cabelo caía em tufos. Eu havia perdido nove quilos sem tentar. Sentia náuseas depois do café da manhã, cólicas depois do jantar e uma fraqueza tão súbita que, duas vezes, precisei encerrar reuniões antes de conseguir ficar em pé.

Caio sempre aparecia com uma explicação pronta.

"Você trabalha demais."

"Seu corpo está pedindo descanso."

"Deixa que eu preparo alguma coisa para você."

Era sempre ele quem fazia meu chá.

Sempre ele quem misturava minhas vitaminas no suco.

Sempre ele quem insistia para que eu comesse mais uma colher, bebesse mais um gole, aceitasse mais um gesto de cuidado.

Eu quis acreditar naquele cuidado porque a alternativa era impossível.

Eu tinha trinta e seis anos e havia construído a Aurora Casas a partir de uma pousada condenada em Paraty. O telhado vazava. As paredes estavam tomadas pela umidade. Meu primeiro escritório fora um depósito onde eu dividia espaço com toalhas, lâmpadas e caixas de sabonete.

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Quinze anos depois, tínhamos cinco propriedades, cento e oitenta funcionários e um sexto projeto prestes a nascer em Trancoso.

Caio adorava contar essa história em eventos.

"Helena vê futuro onde todo mundo só vê ruína", dizia, com a mão pousada em minha cintura.

Durante muito tempo, pensei que fosse orgulho.

Depois percebi que ele me estudava.

Quem tinha acesso às contas de expansão?

O que aconteceria com as licenças da marca se eu ficasse incapacitada?

Minha apólice ainda indicava o cônjuge como beneficiário?

Eu já havia atualizado meu testamento desde a compra da casa de Trancoso?

Na primeira pergunta, respondi.

Na segunda, brinquei que ele parecia meu advogado.

Na terceira, comecei a guardar cada frase.

Então veio Lívia.

Minha irmã sempre acreditou que minha existência diminuía a dela.

Quando éramos crianças, qualquer elogio dirigido a mim se transformava, em sua memória, numa crítica contra ela. Na vida adulta, cada dificuldade que eu superava era chamada de sorte. Cada ajuda que eu oferecia virava humilhação.

Ainda assim, eu a amava.

Talvez esse fosse o erro mais difícil de admitir.

Não amá-la.

Usar o amor como desculpa para ignorar o ressentimento.

Três semanas antes daquele jantar, voltei de Paraty um dia mais cedo. Uma tempestade cancelara a vistoria externa, e decidi surpreender Caio.

Fui eu quem acabou surpreendida.

Ele e Lívia estavam no sofá da sala. Não se beijavam. Teria sido mais fácil se estivessem.

Caio segurava o rosto dela entre as mãos. Lívia estava descalça, com as pernas dobradas sob o corpo, e usava uma camisa dele.

Quando me viram, afastaram-se depressa demais.

"Helena", Lívia disse, puxando a camisa sobre as coxas. "O que você está fazendo aqui?"

Não perguntou como tinha sido a viagem.

Não perguntou se eu estava bem.

Perguntou por que eu estava em minha própria casa.

Caio se levantou e abriu o sorriso que usava diante dos investidores.

"Ela derramou vinho na roupa. Você sabe como sua irmã é desastrada."

Eu olhei para as duas taças sobre a mesa.

Depois, para os sapatos de Lívia junto à escada.

"Sei", respondi.

Naquela noite, esperei Caio dormir.

Revisei os acessos do computador compartilhado, os dispositivos conectados à rede e uma pasta de documentos que ele julgava protegida. Encontrei pesquisas sobre sintomas progressivos, morte aparentemente natural, sucessão entre cônjuges e validade de procurações digitais.

Também encontrei uma cópia de uma autorização com minha assinatura.

Eu nunca assinara aquele documento.

Não confrontei Caio.

Telefonei para Renata Salles, a advogada da Aurora, usando um aparelho que ele desconhecia.

"Se eu estiver errada, vou destruir meu casamento por paranoia", murmurei.

"E se estiver certa?", Renata perguntou.

Não soube responder.

Ela me ajudou a separar medo de prova. Alterei os alertas bancários sem bloquear as contas. Criei cópias automáticas dos arquivos. Instalei câmeras nas áreas comuns da casa e configurei o envio para uma nuvem à qual Caio não tinha acesso.

Durante cinco dias, não aconteceu nada.

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No sexto, meu celular vibrou no meio de uma reunião sobre Trancoso.

Movimento detectado: sala.

Abri a transmissão sob a mesa.

Caio estava com Lívia.

Minha irmã mantinha uma pasta da Aurora no colo. Meu marido passava o polegar sobre o pulso dela.

"E se ela perceber?", Lívia perguntou.

"Helena percebe números, contratos, quartos vazios", ele respondeu. "Ela não percebe pessoas."

Lívia sorriu.

"Quando?"

"No nosso aniversário. A última dose vai parecer o fim de um corpo que já vinha dando sinais."

"E a empresa?"

"Quando ela não puder mais assinar, eu assino por ela. Depois, seguimos o plano."

Minha irmã fechou os olhos quando ele a beijou.

Antes de saírem, Caio acrescentou:

"Amanhã à noite termina tudo."

Eu salvei o vídeo.

Enviei uma cópia a Renata.

Programei uma mensagem de emergência com minha localização, deixei o número 192 pronto para ser chamado e escrevi, numa nota protegida, tudo que eu sabia.

Agora, o amanhã estava diante de mim numa taça lascada.

Caio inclinou a cabeça.

"Não vai beber?"

Segurei a haste do cristal.

"Estava admirando."

"O quê?"

"O cuidado que você teve."

Por um segundo, algo endureceu em seu olhar.

Então o telefone dele tocou.

Caio verificou a tela e se levantou.

"Preciso atender. É sobre Trancoso."

"Claro."

Ele atravessou a sala e entrou no corredor. Sua voz baixou imediatamente.

Eu me movi.

Levei a taça lascada para o lugar dele e trouxe a taça intacta para o meu. O cristal tocou a madeira com um ruído delicado.

Caio parou de falar.

Meu corpo inteiro congelou.

Do corredor veio apenas o som da chuva contra a janela.

Então ele retomou a ligação.

Ajustei as fatias de pera. Girei os guardanapos. Conferi no celular o ícone verde que confirmava a gravação e sentei exatamente como antes.

Caio voltou.

"Desculpe."

"Problemas?"

"Nada que eu não possa resolver."

Ele ergueu a taça que havia preparado para mim.

Seus olhos permaneceram presos aos meus.

"À nossa nova vida."

Ergui a minha.

"À nova vida."

O cristal tilintou.

E Caio bebeu.

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