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"Oito Anos Para Deixar de Te Amar" Capítulo 10 — O Que o Fogo Não Apagou

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Capítulo 10 — O Que o Fogo Não Apagou

Levei a carta à sede portuária naquela manhã.

O investigador juntou meu requerimento ao pedido de Tomás. Já havia uma comunicação em andamento para Aurélia; acrescentei a identificação da embarcação e a passagem de meu depoimento em que o homem exigia a pasta.

"Não quero que dependam apenas do que estava comigo", falei. "Procurem o dinheiro que pagou a viagem deles."

Ele marcou o trecho com uma fita.

O passeio de domingo aconteceu, mas foi curto. Contei a Gabriel por que precisava voltar cedo. Ele não tentou me convencer a esquecer o processo por algumas horas.

Quando nos despedimos, pediu para me ver na semana seguinte.

Aceitei.

A notícia do incêndio chegou antes.

Os investigadores haviam obtido a ordem de preservação dos livros e ido à residência dos Rosnay. Durante a conferência dos cômodos, Céleste pedira acesso à escrivaninha para retirar documentos pessoais.

Uma testemunha a vira derrubar deliberadamente a lamparina sobre as folhas separadas junto à cortina.

O fogo atingira parte da escrituração. Os guardas o contiveram antes que alcançasse o restante da casa.

Céleste fora detida.

Li o relato duas vezes, procurando saber se alguém se machucara. Um criado sofrera uma queimadura na mão e estava sendo atendido. Não havia mortos.

Depois procurei a relação do que se perdera.

Entre as páginas danificadas estava o período em que a credencial dos Varenne fora entregue ao intermediário.

Passei a mão pelo rosto.

Marta puxou uma cadeira.

"Não era a única cópia de tudo."

"Dessas contas, talvez fosse."

"Mas não era a única coisa."

Ela tinha razão.

Tomás escrevera uma segunda folha. O homem que alugara a embarcação guardava seu próprio recibo. A data, a quantia e o nome do intermediário coincidiam com o registro portuário.

O intermediário era um antigo encarregado de recados dos Varenne. Mantivera uma placa de trânsito que deveria ter devolvido após a restrição decretada no baile. Sua contratação por Céleste deixara marcas fora da casa que agora queimava.

Faltava ouvi-los e confrontar as versões.

Isso levaria tempo.

Não exigia que começássemos de novo.

Duas semanas depois, voltei a Aurélia para depor.

Viajei acompanhada por Marta e por uma escolta designada pelo tribunal. Gabriel ficou em Marceaux. Despedimo-nos no porto com um abraço que fui eu quem pediu.

"Volto quando terminarem de me ouvir."

"Sua mesa estará esperando."

Ao chegar à capital, passei longe do Palácio de Varenne.

Hospedei-me perto da sede judicial. Tomás trouxe pão ainda quente e a notícia de que a criada de Céleste fora localizada.

Chamava-se Sabine.

Perguntei onde ficaria durante as audiências. Não queria que a mandassem de volta à casa de alguém que ela seria chamada a acusar.

Tomás explicou que a comissão providenciara alojamento para as testemunhas ameaçadas. Sabine aceitara depois de receber a garantia por escrito. Pedi que verificasse se a proteção continuaria após seu depoimento.

"Ela tentou falar comigo quando ninguém mais falava", disse.

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No dia seguinte, o escrivão confirmou que os depoentes poderiam comunicar qualquer ameaça diretamente à comissão. A ordem não dependia de um pedido meu, e isso me tranquilizou: eu não precisava estar por perto para que Sabine pudesse usá-la.

Eu a reconheci quando entrou para depor, embora usasse outro vestido e mantivesse as mãos escondidas no colo.

O juiz pediu que falasse apenas do que vira.

Ela descreveu Octave entregando uma bolsa a um homem na passagem de serviço. Reconhecera o homem mais tarde entre os que acompanhavam Céleste de volta da capela.

"Foi isso que tentou me contar?", perguntei, quando me permitiram.

"Sim. Depois disseram que eu iria trabalhar na outra casa. Não pude voltar ao palácio."

Sabine não sabia o que havia dentro da bolsa.

Não afirmou saber.

O homem, localizado a partir da descrição dela e das diligências pedidas por Tomás, admitiu o pagamento diante dos recibos apresentados. Seu companheiro confirmou que a cena fora combinada: cercariam Céleste sem feri-la e repetiriam o nome Alencourt.

Foram ouvidos separadamente.

As respostas coincidiram com os horários de saída e retorno registrados pelos porteiros. Divergiram sobre uma quantia pequena. O juiz mandou anotar a divergência também.

Eu escutava com as mãos pousadas sobre a mesa.

Durante meses, quisera que alguém dissesse que eu não estava louca.

Agora precisava ouvi-los dizer exatamente o que tinham feito.

Quando chegou minha vez, mostrei a certidão que me situava no tribunal naquela tarde e expliquei a carta dos carregadores.

A versão completa havia sido encontrada no arquivo de Adrien, junto aos papéis que ele mandara guardar. A referência ao transporte de meu pai continuava logo depois da frase exibida contra mim.

O escrivão leu as duas versões em voz alta.

Céleste se mexeu na cadeira.

"Ela sempre quis me tirar de lá."

Olhei para ela.

"Eu estava tentando sair."

O juiz pediu silêncio.

Na sessão seguinte, os documentos da transferência de meu pai foram confrontados com os registros do hospital e os depoimentos dos guardas. A advertência perdida não reapareceu como um milagre. Inês sustentou que a entregara, e o livro confirmava a piora antes da partida.

O guarda da entrada descreveu as solicitações de atendimento. A médica independente confirmou a morte depois da chegada. Octave não conseguiu explicar por que registrara uma hora incompatível com ambas as testemunhas.

Adrien ouviu tudo da mesa reservada aos envolvidos.

Quando anunciaram que Céleste permaneceria sob custódia real, ele se levantou.

"Entreguem-na à guarda da minha casa. Eu mesmo providenciarei..."

"Não", interrompeu o investigador. "Sua casa também está sendo investigada. Sente-se."

Adrien ficou parado por um instante.

Depois se sentou.

Chamaram-no a depor naquela tarde.

Perguntaram se reconhecia a autorização de confinamento.

"Reconheço."

Se ordenara a retirada de Henrique do hospital.

"Sim."

Se Leonora pedira que ele permanecesse lá.

Adrien olhou para mim.

Eu não desviei o rosto.

"Pediu."

O juiz perguntou por que desconsiderara o pedido.

Adrien abriu a boca e parou. Olhou os documentos, depois para as próprias mãos.

"Eu queria que ela parasse de me enfrentar."

Ninguém precisou traduzir aquilo em outra coisa.

O escrivão escreveu a frase inteira.

A investigação da Aurora, sustentada pelo intermediário, pelo recibo de aluguel e pelos tripulantes, apontava a ordem de Céleste para recuperar os papéis. Não ligava Adrien à contratação daquele barco.

Eu pedi que essa distinção permanecesse.

Não precisava atribuir a ele o que não fizera para que respondesse pelo que escolhera fazer.

Saí da audiência cansada, mas sem a antiga sensação de ter falado com uma parede.

No corredor, Beatriz se aproximou. Sua parte no processo matrimonial estava encerrada; viera para a apresentação dos registros que seu tribunal preservara.

"O Conselho se reúne amanhã", disse. "A permanência dele na regência será votada antes da maioridade do rei. A decisão judicial seguirá separadamente."

Pela janela, ouvi os sinos que anunciavam o fim da tarde.

Durante oito anos, aquele som me lembrara a hora de esperar Adrien voltar.

Entreguei meu último documento ao escrivão.

Amanhã, seriam eles que esperariam uma decisão.

 

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