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"Oito Anos Para Deixar de Te Amar" Capítulo 5 — Tudo o Que Não Levei

正文开头

Capítulo 5 — Tudo o Que Não Levei

Octave tentou recolher a declaração.

O oficial a segurou primeiro.

"Ela será anexada ao requerimento. O sepultamento terá autorização própria."

"Há procedimentos médicos a respeitar."

"Por isso ouviremos também a médica que estava presente."

Deixei a pena sobre a mesa. Só então percebi que tinha tinta nos dedos e sangue seco no punho da manga.

Não consegui tirar o vestido sozinha naquela noite.

Marta desabotoou minhas costas, me ajudou a lavar o rosto e ficou sentada perto da cama. A chave permanecia na fechadura, do lado de dentro. O oficial exigira que eu pudesse sair e receber visitas enquanto o tribunal examinava minha capacidade de decidir.

Eu olhava a chave toda vez que acordava.

Dois dias depois, enterramos meu pai.

Tomás providenciou um caixão simples. Usei o saldo das diárias devolvido pelo hospital; o que faltou ficou anotado como um empréstimo dele para mim.

Adrien mandou flores brancas e um criado com dinheiro.

Devolvi o dinheiro. As flores ficaram no vestíbulo.

O criado perguntou o que deveria dizer ao duque.

"Que pode receber uma cópia da declaração de óbito."

No cemitério, havia um lugar vazio à minha direita. Durante anos eu me colocara assim em qualquer cerimônia, deixando espaço para meu marido.

Quando percebi, chamei Marta para ficar ao meu lado.

A terra começou a cair.

Não consegui acompanhar a oração até o fim. Lembrava da mão de meu pai sobre o livro, da maneira como esperava que eu oferecesse ajuda em vez de decidir por ele.

Levei o livro comigo. A fita ainda marcava a página que ele não terminara.

Na manhã seguinte, voltei a Santa Brígida.

Inês me recebeu numa sala pequena, junto à administração. Sobre a mesa estavam o livro de cuidados e uma transcrição dos registros referentes aos últimos dias de meu pai.

Ela leu em voz alta antes de assinar.

A administradora conferiu as páginas. O escrivão enviado pelo tribunal anotou os números e os selos usados para resguardar o original no hospital.

"A advertência entregue ao doutor Rosnay não voltou", disse Inês. "Mas a avaliação que motivou o aviso está aqui."

Pousei a mão sobre a transcrição, sem cobrir a tinta.

"Posso levar uma cópia?"

"Esta é sua. A outra vai com o escrivão."

Não me devolveram meu pai. Deram-me algo que Octave não poderia recolher da minha mesa e fazer desaparecer.

No dia seguinte, Beatriz me ouviu durante quase uma hora.

Perguntou sobre meu casamento, minhas despesas, o lugar onde pretendia viver. Pediu que explicasse as consequências da dissolução. A médica que me acompanhara examinou como eu estava depois de uma noite sem o preparado de Octave.

Chorei quando falaram de meu pai.

Ninguém interrompeu a audiência por isso.

"O luto não elimina sua capacidade de decidir", disse Beatriz, ao concluir. "Não encontro fundamento para impedir que prossiga."

Saí com essa decisão por escrito.

Naquela tarde, separei minhas cartas de amor dos recibos e dos contratos.

正文1

Havia bilhetes de Adrien escondidos entre receitas antigas, um desenho meu na margem de uma ordem de viagem, duas páginas em que ele tentara compor versos.

Li uma delas.

Não era bonita. Eu a tinha amado mesmo assim.

Pus a folha no fogo.

"O que está fazendo?"

Adrien estava na porta. Olhou para a fita desatada sobre meu colo e veio até a lareira.

"Essas cartas são minhas."

"Você as mandou para mim."

Ele se abaixou, mas a primeira página já escurecera.

"Leonora."

Havia muito tempo que meu nome não saía daquele jeito da boca dele. Precisei desviar os olhos.

Adrien se sentou na outra ponta do banco.

"Eu não sabia que seu pai estava tão mal."

"Eu pedi que não o trouxesse."

"O médico disse que poderia responder a algumas perguntas."

"Você podia ter ido até ele."

Adrien ficou calado. As mãos dele repousavam sobre os joelhos, vazias, e por um instante eu reconheci o rapaz que esperara comigo na porta do quarto de meu pai, oito anos antes.

Foi doloroso reconhecê-lo.

Mais doloroso ainda saber o que aquele homem escolhera fazer depois.

"Podemos sair da cidade por algum tempo", disse. "Só nós dois. Desde que você retire esse pedido e resolva a situação com Céleste."

Levantei os olhos.

"Resolva como?"

"Uma desculpa. Sem novas acusações."

Pus a segunda carta no fogo.

Adrien se levantou.

"Vai jogar oito anos fora por orgulho?"

"Não quero passar mais um pedindo que acredite em mim."

Ele foi embora antes de eu terminar de queimar as cartas.

Os documentos ficaram na caixa, longe da lareira.

Dois dias depois, o tesoureiro veio fazer a conferência das joias. Trouxe a relação do arquivo e aquelas que permaneciam no cofre, porque pedi que todas fossem incluídas na mesma entrega.

Contei com ele cada peça que constava sob minha responsabilidade.

Um par de brincos. Três colares. Os braceletes usados nas recepções. A pequena coroa de cerimônia que nunca me parecera ajustada à cabeça.

O homem deteve a pena sobre o último item.

"O anel de casamento?"

Eu o tirei. A pele embaixo estava mais clara.

"Inclua."

Ele assinou o recebimento, e Marta também, como testemunha. Guardei minha via.

A resposta de Gabriel chegou pelas mãos de Tomás, nunca mais pelo correio do palácio. Eu lhe escrevera depois da morte de meu pai. Agora precisava de apenas um dos quartos.

Gabriel não perguntou o que eu faria com o quarto vazio.

Confirmou a reserva e o contato no porto. Disse que encontraria a embarcação na aproximação de Marceaux, se eu informasse a partida. Acrescentou que não precisava responder imediatamente.

Fiquei alguns minutos com a carta aberta, sem a urgência habitual de justificar alguma coisa.

Tomás acertou nossa saída para a manhã posterior ao aniversário. Marta viajaria comigo por vontade própria. Nossas caixas ficariam sob a guarda do comerciante responsável pela embarcação.

Foi Tomás também quem trouxe o convite que circulava entre os nobres.

Adrien daria uma recepção em honra de Céleste na noite em que completaríamos oito anos de casados.

Li a data. Abaixo, o desenho de um falcão segurava uma fita com os dizeres da casa.

Na audiência final de preparação, entreguei o convite a Beatriz.

O prazo da notificação estava cumprido. Faltava apenas a data prevista no contrato.

"Quero que a decisão seja entregue lá."

Ela pousou o papel.

"Haverá muita gente."

"É por isso."

Pedi ainda proteção contra uma nova tentativa de me deter. Beatriz juntou meu requerimento aos registros de confinamento e o encaminhou ao Conselho da Coroa, que examinava os conflitos envolvendo o próprio regente.

Não prometeu uma resposta favorável.

Perguntou se eu mantinha o pedido de entrega pública.

Pensei em todas as portas diante das quais havia implorado sozinha.

"Depois que a recepção começar", respondi. "Quero que ouçam enquanto ele ainda tiver certeza de que eu vim para ficar."

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