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"Oito Anos Para Deixar de Te Amar" Capítulo 4 — A Última Ordem Contra Meu Pai

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Capítulo 4 — A Última Ordem Contra Meu Pai

Octave dobrou o parecer e guardou-o dentro do casaco.

"A data não muda sua necessidade de repouso."

"Muda o que o senhor disse sobre o motivo."

Ele chamou o criado que esperava junto à porta. A mão do homem se fechou sobre meu ombro quando me levantei.

"Quero outro médico."

"Quando estiver em condições de recebê-lo."

Virei o rosto. A borda da taça bateu no meu lábio, e parte do líquido escorreu pelo queixo. Tossi, tentando afastá-la. O criado segurou meus braços até Octave se dar por satisfeito.

Depois me deixaram sentada na cama.

O gosto amargo permaneceu mesmo depois que a porta se fechou. Encostei o lenço na boca e vi uma pequena mancha de sangue.

Na mesa, meus recibos continuavam junto à caixa de costura. Alcancei a pena antes que minhas mãos ficassem pesadas demais.

Escrevi o nome de Beatriz Salcedo.

Pedi uma audiência sem Adrien e sem Octave. Registrei as duas datas, a recusa em permitir outro médico e a bebida que me haviam obrigado a engolir.

Não tentei contar oito anos numa folha.

Precisava que alguém abrisse aquela porta.

Quando Marta voltou com roupas limpas, já era difícil manter os olhos abertos. Octave permitira a troca sob a vigilância de uma criada que mal conhecíamos.

Pus o bilhete entre as dobras da camisola manchada.

"Lave separadamente", murmurei.

Marta apalpou o tecido. Seu rosto não mudou.

"Eu mesma cuido disso."

Passei a noite acordando com sede. Todas as vezes, precisei pedir água a alguém que decidia quanto tempo demoraria para trazê-la.

De manhã, Adrien veio me ver.

Carregava uma folha curta, sem o selo do tribunal.

"Assine que não voltará a ameaçar Céleste. Depois podemos acabar com isso."

Li a primeira linha duas vezes. Era uma declaração de arrependimento pelo ataque.

"Não fiz o que está escrito."

"Você prefere continuar aqui?"

Empurrei o papel de volta.

"Prefiro que procure os homens que ela descreveu."

Adrien passou a mão pelo rosto. Parecia cansado de uma dificuldade que esperara resolver depressa.

"Seu pai também terá de esclarecer a participação dele."

A cama rangeu quando tentei me levantar.

"Que participação?"

"As mensagens passaram por um antigo empregado dele. Céleste diz que um dos homens mencionou Alencourt."

"Tomás levou uma carta para arranjar um quarto perto de um hospital. Você sabe disso."

"Então não terão dificuldade em explicar."

Peguei a manga dele.

"Vá a Santa Brígida. Pergunte lá. Não o tire da cama."

Adrien soltou meus dedos um a um.

"Já mandei buscá-lo."

Chamaram-no do corredor. Ele saiu antes que eu conseguisse alcançar a porta.

Não sei quanto tempo fiquei batendo na madeira. Em algum momento, parei de gritar e comecei a repetir ao guarda que meu pai estava doente, que chamasse a administradora do hospital, que levasse um recado.

A resposta foi sempre a mesma.

Ordens de Sua Alteza.

Perto do meio-dia, ouvi uma voz diferente.

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"Abra. A ordem de comparecimento exige que eu fale com ela pessoalmente."

O oficial do tribunal entrou acompanhado de Marta e de uma mulher com uma bolsa de instrumentos. Pediu aos criados que se afastassem da cama.

"Recebemos seu requerimento. Esta é a médica designada para acompanhá-la. Consegue me dizer o que aconteceu?"

Consegui.

Não sem parar. Não sem pedir água.

A médica examinou meu lábio e perguntou quando eu havia bebido o preparado. O oficial requisitou o parecer de Octave e registrou que eu estava impedida de sair.

"Meu pai", insisti. "Trouxeram meu pai."

Um criado respondeu do corredor que Henrique de Alencourt estava na sala junto à entrada de serviço.

O oficial abriu passagem.

Minha primeira tentativa de me levantar falhou. Marta passou meu braço sobre os ombros dela, e fomos devagar demais para o que eu precisava.

Meu pai estava deitado numa maca estreita. Ainda usava o casaco sobre a camisola. Os botões haviam sido fechados fora de ordem.

Uma enfermeira de Santa Brígida segurava sua mão.

"Sou Inês", disse à médica. "Eu vim com ele. Está piorando desde o caminho."

Ela tentou explicar mais, mas eu já estava ajoelhada ao lado da maca.

"Pai. Cheguei."

Seus olhos se moveram até meu rosto.

"Tiraram você..."

"Saí do quarto. Estou aqui."

Pedi que trouxessem o médico do hospital. A mulher que viera com o oficial já examinava meu pai e dava instruções a Inês.

Não me prometeram nada.

Eu teria aceitado qualquer promessa naquele momento.

Meu pai tentou ajeitar a mão sobre a minha. Ajudei, amparando seus dedos.

"Descanse", falei. "Não precisa explicar nada a ninguém."

Ele olhou para meu lábio machucado.

Virei um pouco o rosto, tarde demais.

"Leonora."

"Estou ouvindo."

Ele precisou esperar antes de continuar.

"Ainda há... vida. Para você."

Apertei sua mão sem conseguir responder.

Eu tinha encontrado os quartos. Havia vendido o broche. A cama na embarcação estava sendo providenciada.

Queria contar tudo outra vez, como se a lista pudesse convencê-lo a ficar.

Quando deixei de sentir seus dedos se moverem, continuei segurando-os.

A médica se inclinou. Inês parou ao meu lado.

O silêncio delas me alcançou antes das palavras.

"Não", falei.

Esperei por outro movimento. Por um erro. A boca dele estava entreaberta, e passei o polegar pela barba como fazia quando era pequena e ele fingia dormir.

"Pai?"

Marta se ajoelhou comigo.

Não tentou me levantar.

Mais tarde, encontrei Inês lavando as mãos numa bacia. A água tremia porque ela segurava a borda.

"Ele podia viajar", consegui dizer. "O médico tinha permitido."

Ela se virou imediatamente.

"Com repouso e assistência. Não hoje. Ele amanheceu com febre e dificuldade para respirar. Entreguei uma advertência escrita ao doutor Rosnay."

"A Adrien?"

"Ao médico. Foi ele quem recebeu os papéis. Disse que a ordem de transferência permanecia."

Inês limpou as mãos no avental.

"Registrei a piora no livro do hospital antes de sair. Aqui, esperamos. Pedimos ajuda, mas disseram que o doutor viria quando terminasse de atender madame de Rosnay."

Chamei o oficial. Pedi que ouvisse aquilo também.

Não sabia ainda o que conseguiria provar. Sabia que não queria depender da memória de uma única pessoa.

Ao anoitecer, Octave trouxe a declaração de óbito.

Li até a hora registrada.

"Isso está errado."

Ele olhou por cima do meu ombro.

"Uma diferença de anotação."

"Aqui diz que morreu antes de chegar. Eu falei com ele nesta sala."

O oficial pediu para ver o documento. Requisitou também o registro da entrada da maca e os nomes dos guardas que a haviam recebido.

Octave estendeu outra folha para mim.

Morte natural. Ciência da família. Ausência de objeções.

"Isso permitirá que providencie o sepultamento sem mais dificuldades."

Peguei a pena.

Ele aproximou o tinteiro.

Na linha reservada à minha assinatura, escrevi apenas duas palavras.

"Eu contesto."

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