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"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 10 — A Loba Que Abriu os Portões

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Capítulo 10 — A Loba Que Abriu os Portões

Na metade da escada, encontrei dois carregadores subindo com o último saco.

"Deixem isso. Peguem as pessoas."

A água batia contra os pilares do cais. Mais abaixo, na rua dos curtumes, um homem tentava empurrar uma carroça atolada com os próprios ombros.

O guarda junto à grade externa recebeu uma ordem de fechamento.

Segurei a corrente antes que ele puxasse.

"Ainda tem gente lá embaixo."

"Podem entrar homens de Vilar junto com eles."

Tomás chegou quando o oficial apontava a rua estreita.

"Fechamos o pátio e preservamos o acesso à fortaleza, Majestade."

O ferro estava frio nas minhas mãos.

Eu conhecia aquela escolha. Conhecia o lado de fora dela.

"Abram a grade inteira", falei. "Dois corredores, um para quem anda e outro para os feridos. Revista na subida para a muralha interna. Podem perder carga. Não precisam perder as pessoas."

O oficial se voltou ao rei.

Tomás olhou a água, os homens de guarda, a carroça.

"Façam como ela disse. A defesa fica na passagem interna. Eu seguro o pátio até concluírem a entrada."

Soltei a corrente.

A grade subiu.

Durante um instante, ninguém se moveu. Então uma mulher correu, e as outras pessoas vieram atrás.

Dalva apareceu com ajudantes da cozinha, marcando os dois corredores com mesas viradas. A voz dela atravessava o barulho da água.

Toquei a mão esquerda de Tomás.

"A trilha de manutenção ainda está acima da cheia. Podemos chegar ao desvio."

Ele apertou meus dedos uma vez.

"Bruna vai com você. Chego quando este pátio estiver seguro."

Caio já estava com as ferramentas no ombro. Tirei metade do peso da bolsa e entreguei a um guarda.

Meu irmão não discutiu.

Subimos pela trilha em fila, deixando para trás o barulho dos portões. Bruna mandou dois homens adiante e separou outros para alcançar a estrada da casa de controle.

O plano era simples no papel: fechar a alimentação do canal da cidade e abrir o desvio de alívio para uma bacia de pedra desocupada.

Os barcos não poderiam fazer isso. Precisávamos do mecanismo em terra.

A ponte de manutenção estava molhada, mas ainda inteira quando chegamos.

Dois homens guardavam a roda do desvio. Bruna mostrou o selo do conselho e ordenou que largassem as armas.

Um obedeceu.

O outro correu para a casa de controle, gritando.

Caio se ajoelhou junto à roda. Tentou movê-la, depois encostou o ouvido na caixa do eixo.

"Travaram do outro lado. Tem alguma coisa atravessada no encaixe."

Havia uma passagem de inspeção sob a plataforma, coberta por uma grade arrancada. A abertura chegava ao mecanismo por um corredor baixo. Em forma humana, eu não passaria pela primeira curva.

Minha loba passaria.

Olhei para a água. O corredor não estava submerso, mas recebia respingos cada vez mais altos.

"Quanto tempo para baixar a alimentação depois de destravar?"

"Se o eixo não tiver quebrado, alguns minutos."

正文1

Entreguei o casaco a Caio e me afastei atrás de uma parede curta. Tirei as roupas, colocando-as no embrulho que ele estendeu sem olhar.

A mudança veio com o estalo conhecido nos ossos, músculos se reorganizando, o chão mais perto do rosto.

O ar se encheu de cheiros: ferro, medo, água agitada, o suor do meu irmão.

Eu ainda estava cansada. Meus pulsos ainda doíam, agora nas patas dianteiras.

Baixei o corpo cinzento e entrei.

A pedra raspou meu dorso. Passei pela curva arrastando o ventre, até encontrar o encaixe. Uma cunha de madeira tinha sido martelada entre os dentes da engrenagem.

Mordi a ponta exposta.

Na primeira tentativa, só consegui lascar uma beirada.

Recuei o suficiente para firmar as patas e puxei de novo. A madeira tinha inchado com a umidade. Meu maxilar começou a doer.

Ouvi golpes no eixo. Caio tirava a pressão do encaixe pelo lado de fora.

Puxei quando a engrenagem se moveu.

A cunha soltou.

O mecanismo rodou acima da minha cabeça, e recuei depressa. Uma ponta de metal cortou a parte externa da minha coxa traseira. A dor me fez bater o flanco na parede.

Continuei.

Quando saí, Caio e um guarda giravam a roda juntos. A comporta de alívio começava a levantar. Bruna estava voltada para a estrada, espada erguida.

Gaspar vinha por ela com dois homens.

O intendente perdeu um passo ao ver a água mudar de direção.

"Parem esse mecanismo!"

Um dos homens correu para Caio.

Avancei antes que ele chegasse. Rosnei junto ao joelho dele, obrigando-o a recuar. Não precisava derrubá-lo; precisava impedir que alcançasse meu irmão.

Bruna o desarmou quando ele virou a espada para mim.

O outro fugiu para a trilha e encontrou os guardas que tinham cortado a retirada.

Gaspar puxou uma lâmina curta.

Vi Tomás aparecer atrás dele, acompanhado por dois soldados do pátio. A respiração do rei estava pesada. Havia lama nas botas e um rasgo na manga esquerda.

"Acabou", disse.

Gaspar golpeou primeiro.

Tomás desviou, segurou o braço dele com a mão boa e o prensou contra a mureta. A lâmina caiu. Quando Bruna se aproximou, o rei já tinha a espada apontada para o peito do intendente.

Eu conhecia a distância entre aquela ponta e uma morte.

Gaspar também.

Tomás olhou para Bruna.

"Leve-o vivo."

A capitã tomou seu lugar. Os ferros fecharam.

Recuamos para trás da casa de controle. Caio me entregou o embrulho, e voltei à forma humana protegida pela parede. A ferida estava no mesmo lugar, sangrando pela coxa.

Vesti a camisa, a calça e o casaco com dificuldade. Apertei um pano sobre o corte antes de sair.

Tomás veio até mim, mas a plataforma estremeceu sob nossos pés.

A água represada no canal ainda tinha força, mesmo com a alimentação reduzida. Um dos apoios da ponte soltou um estalo seco.

"Para a pedra!", gritou Caio.

Corri para o trecho firme.

A tábua sob meu pé desapareceu.

Caí de lado, bati o quadril na borda e procurei a corda que tínhamos deixado ao longo da travessia.

Meus dedos a encontraram antes de eu afundar.

O tranco abriu a pele dos pulsos. A corrente puxava minhas pernas sob a ponte partida.

Tomás se ajoelhou na margem.

"Olhe para mim."

Eu mal conseguia respirar.

Ele segurou a corda com a mão esquerda. Caio e dois homens alcançaram o trecho atrás dele, firmando os pés.

"Juntos", ordenou meu irmão.

Puxaram.

Meu joelho bateu na pedra. Alguém agarrou a parte de trás do meu casaco, e saí da água tossindo.

Tomás encostou o rosto no meu cabelo por um segundo, tremendo.

"Estou aqui", consegui dizer.

Ele não respondeu. Ficou segurando minha mão enquanto Caio refazia o pano na minha perna.

A redução da água levou horas. Os bairros sofreram danos, mas o caminho para o pátio permaneceu utilizável. Patrulhas percorreram as casas com barcos e cordas até a madrugada.

Gaspar voltou algemado, sob a guarda de Bruna. Sem suas ordens e cercados pelas tropas das alcateias leais, os homens dos armazéns depuseram as armas.

Quando chegamos à fortaleza, uma funcionária perguntou em qual ala deveriam me instalar.

Olhei para Tomás, depois para o corredor da enfermaria.

"Perto das outras pessoas que precisam de curativo."

Na manhã seguinte, o escrivão trouxe o registro da captura e marcou a sessão que formalizaria a instrução final do processo.

Meu nome aparecia como companheira reconhecida do rei na identificação.

Pedi uma correção.

"Escreva requerente. Lívia Serrat."

Ele riscou a linha e escreveu de novo.

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