"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 8 — Sem Coroa, Sem Correntes
Capítulo 8 — Sem Coroa, Sem Correntes
O homem estava pesado demais para ela.
Passei seu braço pelos meus ombros e senti os joelhos cederem um pouco. Um dos guardas nos alcançou. Juntos, levamos o ferido até a sombra da muralha.
"Não parem no beco", pedi à mulher. "Quem puder andar segue para o pátio. Quem precisar de ajuda fica junto desta parede."
Ela repetiu a orientação para as pessoas que vinham atrás.
Em poucos minutos, já havia outras vozes fazendo o mesmo.
O portão externo permaneceu aberto até a última carroça deixar a rua. Depois, os guardas baixaram a grade, mantendo uma passagem lateral vigiada.
Naquela noite, dormimos onde havia chão.
Na manhã seguinte, Dalva colocou três sacos de farinha diante da cozinha e perguntou quantas bocas tínhamos.
Ninguém sabia.
Peguei papel.
Caio organizou as filas sem pedir que os homens se separassem das mulheres. Registramos famílias juntas, feridos à parte apenas para atendimento. Um padeiro contou o que ainda restava nos fornos. Os criados trouxeram as reservas da mesa real.
Não daria para muitos dias.
Um emissário de Gaspar chegou ao meio-dia, carregando uma faixa branca e uma exigência.
Entregar a requerente e os documentos apreendidos. Em troca, as carroças de mantimentos voltariam a subir.
Ele leu a proposta no pátio, antes que os guardas o levassem ao conselho.
Um homem perto da cozinha olhou para mim.
"É por causa dela?"
Eu poderia ter dito que não. Teria sido pouco diante da fome que ele previa.
"Ele quer que vocês acreditem nisso", respondi. "Os sacos que está segurando são de vocês."
"Palavras não enchem panela."
"Não. Barcos podem trazer farinha."
Pedi ao homem que me acompanhasse até o muro norte.
A Fortaleza da Vigília se erguia numa encosta. A cidade descia até o rio; os armazéns tomados ficavam junto à estrada larga, ao sul. Na outra margem, a água passava sob um cais antigo ligado ao pátio por uma escadaria de serviço.
Os carros de Gaspar não alcançavam aquela escada.
Barcos pequenos alcançavam o cais.
"Preciso de gente para carregar", falei. "E de cordas."
O homem demorou, mas assentiu.
Mandei um pedido à confraria pelo mesmo trajeto usado na busca do mensageiro. A primeira resposta veio à noite, numa embarcação que trouxe lentilhas, farinha e notícias da margem norte.
Tinham recebido as ordens de liberdade dos trabalhadores. Alguns dos homens resgatados queriam ajudar nos transportes.
Respondi que só viessem os que estivessem bem e por vontade própria. Precisávamos pagar o trabalho, mesmo que o dinheiro tivesse de esperar.
Tomás abriu uma reserva de coroas diante do responsável pela cozinha e de Dalva. Ela anotou cada retirada.
"As embarcações não podem levar mais que isso", avisei a um oficial, reduzindo a carga que ele havia calculado.
"Com menos viagens, ficamos menos expostos."
"Com mais peso, ficamos no fundo."
Tomás observou o desenho do casco que fiz na madeira.
"A carga será a que a condutora determinar."
O oficial recuou. O rei ficou ao meu lado depois que ele saiu.
"Você podia ter dito isso sem precisar de mim", comentou.
"Eu disse. Amanhã talvez ele escute da primeira vez."
Uma sombra de sorriso passou pelo rosto de Tomás.
Nos dois dias seguintes, a escadaria virou nosso trabalho inteiro. Barcos entravam sem luz nas noites claras. Nas nubladas, uma lanterna protegida indicava o último degrau. A guarda cobria o cais com arcos.
Dalva recusou um pedido de porções maiores para a comitiva de um conselheiro.
"Ele tem duas bocas?", perguntou.
Tomás recebeu a mesma tigela que eu.
Sentou no degrau ao meu lado, exausto, enquanto os homens trocavam a guarda.
A curandeira tinha refeito os pontos do braço. Ele obedecia ao repouso apenas quando alguém o obrigava a perceber que já não conseguia erguer a mão.
"Não quero perder você", disse, olhando para a sopa.
Levei algum tempo para responder.
"Também tenho medo."
Ele virou o rosto.
"De mim?"
"Do que posso aceitar para continuar perto. De chamar uma concessão de escolha porque estou apaixonada demais para admitir a diferença."
A palavra escapou antes que eu pudesse suavizá-la.
Tomás pousou a tigela.
"Lívia."
"Não peça que eu retire o pedido."
"Não vou pedir."
Ele esperou que eu olhasse para ele.
"Não sei fazer isso sem errar. Sei dar ordens quando estou com medo. Estou tentando aprender o resto."
Toquei sua mão esquerda. Os dedos dele se abriram sob os meus.
"Então pergunte antes de decidir por nós dois."
"Posso beijar você?"
Eu ri, cansada, e respondi chegando mais perto.
O beijo foi breve. Havia uma panela para levantar, alguém chamando meu nome, o perigo inteiro do lado de fora. Ainda assim, quando me afastei, não tive vontade de fugir do que acabara de admitir.
Entre uma descarga e outra, percorri com Caio a trilha de manutenção que saía do cais. Ele desenhou os encaixes das comportas a partir do mapa guardado na casa dos barqueiros; eu marquei as passagens por onde uma equipe pequena poderia subir sem usar a estrada militar.
Uma ponte estreita cruzava o canal junto ao mecanismo secundário. Pedi que deixássemos cordas ali e no cais. Se a água subisse, não haveria tempo de procurar onde amarrá-las. Caio reclamou do peso, mas testou os nós comigo.
Naquela tarde, a embarcação da margem norte trouxe o registro formal de adesão de sua alcateia à apuração. Também trazia uma proposta, preparada a pedido dos representantes que tinham lido nossa petição: rever a tutela das companheiras e limitar a aplicação de sanções coletivas.
O conselho reunido na fortaleza incluiu a matéria na pauta após a crise. A lei ainda não tinha mudado. Mas havia um texto, autores responsáveis por ele e uma data a cobrar.
Guardei uma cópia com Dalva.
Bruna voltou ao cais com notícias da busca de Bento. A confraria localizara um condutor vivendo sob proteção de antigos colegas. O homem aceitara falar se recebesse escolta e se não fosse entregue à intendência.
A capitã partiria para buscá-lo na próxima travessia.
Foi quando o barco de farinha apareceu sozinho.
O barqueiro remava com uma mão. Na outra, segurava um pedaço do próprio casaco contra a cabeça.
Caio e eu o ajudamos a subir.
"Tomaram a casa das comportas", disse ele. "Os homens de Vilar."
Olhei rio acima.
A barragem de contenção segurava a água das chuvas das encostas. Suas comportas alimentavam o canal que passava pelos bairros baixos antes de voltar ao leito principal.
"Gaspar está lá?", perguntou Bruna.
"Eu o vi na varanda. Mandou avisar que pode acabar com o cais quando quiser."
Apertei a corda que ainda prendia o barco.
Nossas panelas tinham começado a encher.
Agora ele ameaçava levar embora a margem inteira.
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