"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 7 — O Rei Que Ficou ao Meu Lado
Capítulo 7 — O Rei Que Ficou ao Meu Lado
"Conta de origem: intendência militar, sob responsabilidade de Gaspar Vilar. Dezesseis de agosto. Pagamento de mensageiro com destino ao vau oriental, margem ocupada pelo inimigo."
O escrivão ergueu o recibo para o conselho.
Gaspar tirou as mãos da mesa.
A data era a véspera da abertura do portão. Antes de eu levantar a corrente, alguém já tinha pago por uma viagem até o outro lado da guerra.
"Era uma missão de reconhecimento", disse ele. "Informações não atravessam fronteiras sozinhas."
"Qual missão?", perguntei.
"Você não tem competência para examinar operações militares."
"O conselho tem. Diga o número."
O escrivão abriu o índice trazido do arquivo. Bruna ficou ao lado dele, sem tocar nas páginas.
Gaspar ajustou a corrente sobre o peito.
"Havia operações reservadas."
"Também tinham registro", disse Tomás.
Olhei para o rei. Ele mantinha a voz firme, mas havia uma rigidez nova na maneira como segurava o braço ferido.
"Mesmo as minhas", acrescentou.
O escrivão percorreu a coluna com a ponta de madeira da pena.
"Não há número de missão. O pagamento está lançado entre despesas de manutenção de carros. A referência de destino foi abreviada, mas corresponde ao vau no índice da campanha."
Um dos representantes pediu o segundo recibo. Os números se ligavam ao mesmo lançamento. O selo usado para liberar a quantia constava no registro de impressões da intendência.
Eu escutava cada resposta tentando impedir minha cabeça de correr adiante.
Não sabíamos o que o mensageiro transportara.
Sabíamos que Gaspar precisava explicar por que o enviara para lá e por que escondera a despesa entre rodas quebradas.
"Quero o texto da rota", falei. "E o homem que recebeu o pagamento."
O escrivão leu o nome anotado na margem.
"Bento Reis. Condutor e mensageiro contratado."
Bruna o escreveu num papel separado.
Gaspar soltou uma risada curta.
"Um recibo de dezoito meses atrás, encontrado por uma mulher que acaba de atrair o rei para o próprio quarto—"
"Cuidado", disse Tomás.
Foi apenas uma palavra. Gaspar se calou, mas dois guardas junto à entrada endireitaram o corpo.
Eu não queria vencer porque o rei assustava quem me insultava.
"Não use o meu laço como resposta para a sua conta", falei. "Se a despesa é legítima, apresente a autorização."
A representante que defendera a ordem da audiência pediu que as falas pessoais fossem retiradas do debate.
Em seguida, perguntou ao rei se ele autorizara aquela viagem.
"Não me recordo de tê-la autorizado. Mandem conferir meus despachos. Não vou transformar minha memória em prova."
Gaspar pareceu encontrar apoio na frase.
"Exatamente. Houve confusão. Uma campanha inteira não pode ser julgada por detalhes de escrituração."
Tomás olhou para Caio.
Meu irmão estava de pé atrás de mim, com a manga abaixada sobre as marcas.
"Uma campanha inteira também não pode servir de resposta para tudo", disse o rei.
Ele se voltou aos sete assentos.
"A ordem de fechar o portão foi minha. Eu li um relatório de evacuação e assinei. Depois, autorizei a punição coletiva sem ouvir essas pessoas individualmente. Isso deve constar da apuração, qualquer que seja o resultado sobre a viagem do mensageiro."
O escrivão parou por um segundo.
"Continue escrevendo", pediu Tomás.
Eu senti a mão de Caio encontrar a minha.
O rei não estava me pedindo que o perdoasse para que ele pudesse admitir o que fizera. Estava dizendo aquilo na sala onde a sua palavra costumava encerrar perguntas.
"Aceito a revisão dos meus atos pelo conselho", continuou. "E não aceito que uma proposta de regência seja usada para retirar documentos desta mesa."
Gaspar recuou um passo.
A votação seguinte foi mais lenta.
O conselho suspendeu suas funções até a conferência dos registros. Determinou a entrega dos selos de ofício e a permanência dele nos aposentos de hóspedes sob guarda. Os armazéns deveriam receber administradores provisórios.
Bruna avançou para recolher o sinete.
Gaspar tirou-o com dificuldade. Por um instante, achei que o anel tivesse prendido no dedo. Depois vi que ele demorava de propósito, olhando para a porta.
Um sino tocou no pátio.
Não era o da cerimônia.
A primeira pancada foi seguida por duas mais rápidas. Um guarda da entrada saiu antes de receber ordem. Outro atravessou o corredor na direção contrária.
Tomás chamou a capitã.
Ela já estava se movendo.
O homem que devia acompanhar Gaspar aos aposentos puxou a porta lateral. Dois funcionários da intendência apareceram ali, vestidos para a cerimônia, mas com espadas sob os mantos.
"Para longe da mesa!", gritou Bruna.
Empurrei o escrivão para trás do banco com o livro aberto nos braços. Caio puxou Dalva. Uma lâmina bateu no lugar onde o pescoço da capitã estivera.
Tomás avançou com a mão esquerda na espada.
Os guardas leais fecharam passagem diante dos conselheiros. Gaspar atravessou a porta lateral no meio dos seus homens.
Bruna tentou segui-lo. Uma mesa tombou no corredor, bloqueando o caminho, e um dos agressores se voltou contra o escrivão.
Ela escolheu voltar.
Vi a espada dela atingir o pulso do homem. O livro caiu do meu abraço, mas consegui prendê-lo contra o chão com o joelho antes que se abrisse mais.
Quando a porta lateral foi alcançada, Gaspar já tinha descido pela escada de serviço.
Um guarda correu até a janela.
"Estão saindo pelo pátio de cargas!"
Tomás olhou para a passagem e depois para as pessoas comprimidas atrás dos bancos.
Mandou fechar o acesso ao salão.
A decisão custou a captura imediata de Gaspar. Salvou o tempo de que precisávamos para retirar os feridos.
O mensageiro que chegou minutos depois estava sem capacete.
"Os armazéns baixos foram tomados. A guarda de abastecimento fechou a estrada do mercado. Dizem que agem em nome da regência."
"Não há regência", respondeu a representante.
Lá fora, isso não tinha impedido ninguém de levantar uma espada.
Ajudei o escrivão a recolher as folhas. Bruna conferiu os dois recibos antes de fechar o volume. Os originais foram levados, com o conselho, para a sala de arquivo interna.
Antes de sair, entreguei a Bruna o endereço da casa dos barqueiros.
"Procurem Bento pelas listas de condutores. Não anunciem o nome dele na rua. Se ainda vive aqui, pode estar escondido."
Ela mandou um guarda de confiança levar o pedido pela passagem norte, ainda aberta. A cópia dos recibos que deixáramos fora da cidade permitiria conferir a identidade sem transportar os originais pelo cerco.
Caio queria acompanhar a perseguição.
Segurei sua manga.
"Você está tremendo."
"Estou livre."
"Eu sei. Preciso de você livre e vivo. Ajude Dalva a contar quem saiu do salão."
Ele me olhou com raiva por um momento. Depois viu a mulher caída junto à porta e foi ajudá-la a levantar.
Tomás se aproximou. Um novo ponto vermelho aparecia na faixa do braço.
"A ala alta será protegida. Você pode ficar lá com seu irmão."
Pela janela, vi uma carroça parada na rua inclinada. As pessoas tinham começado a correr do mercado para os muros da fortaleza, sem saber qual portão ainda estava aberto.
"Onde vão receber quem está subindo?"
Ele acompanhou meu olhar.
"No pátio externo."
"Há um beco estreito antes dele. Se vierem todos juntos, vão se esmagar. Preciso de dois guardas e de alguém que conheça as casas."
Tomás chamou um oficial.
Dessa vez, não perguntou se eu tinha certeza.
Passei pelo lugar onde Gaspar estivera e desci para a rua.
Atrás de mim, os sinos continuavam tocando. À frente, uma mulher carregava um homem que já não conseguia apoiar o pé.
Fui ao encontro deles.
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