"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 5 — Antes Que a Maré Suba
Capítulo 5 — Antes Que a Maré Suba
A estrada terminou numa pilha de pedras que ainda soltava poeira.
Desci do cavalo antes de Bruna levantar a mão para parar a escolta. Além do desmoronamento, uma lanterna se movia na entrada da pedreira.
"Inspeção real!", anunciou a capitã.
Um homem surgiu entre as vigas.
"Não há passagem. Voltem ao amanhecer."
Bruna ergueu a ordem. Atrás dela, Tomás tirou o capuz.
O homem perdeu a cor, mas não saiu do lugar.
"Os trabalhadores?", perguntou o rei.
"Retirados por segurança."
Ouvi três pancadas.
Depois duas.
Virei para a encosta.
Meu pai usava aquele sinal quando uma roda de comporta prendia seus dedos e ele precisava de ajuda sem largar a manivela.
Caio também sabia.
"Não foram retirados", falei.
O homem olhou para trás. Bastou.
Bruna mandou dois guardas cercá-lo. Corri pela lateral, acompanhando a vala de drenagem. Tomás chamou meu nome, e apontei para a fenda onde o som passava.
"Aqui. Preciso responder."
Bati na pedra com o cabo da faca que Bruna me devolvera antes da partida.
Duas pancadas. Uma pausa. Três.
A resposta veio tão depressa que meu joelho cedeu.
"Caio!"
O eco engoliu a primeira palavra dele.
Na segunda tentativa, ouvi.
"Lívia?"
Encostei a testa na pedra fria por um instante.
"Quantos estão aí?"
"Vinte e quatro. A porta foi travada. Está entrando água pelo fundo."
Passei a mão pela borda da fenda. Era uma abertura de ventilação, estreita demais mesmo para minha loba. Não havia como atravessá-la.
Precisávamos de uma saída de verdade.
Bruna chegou com a chave tomada do administrador. Tomás e quatro guardas ficaram na entrada, onde homens armados começavam a discutir a ordem de inspeção.
"Dizem que só obedecem à intendência", explicou ela.
Lá dentro, Caio descreveu as duas passagens que conseguia alcançar. Uma levava ao desmoronamento. A outra, ao canal antigo de descarga.
Conhecia aquele canal pelo lado do rio.
"Existe uma comporta de madeira no fundo?"
"Está presa. Estou tentando levantar."
"Não abra inteira. A água do outro lado pode estar mais alta. Solte um palmo e veja para onde corre."
Virei para Bruna.
"A porta de serviço fica abaixo do depósito. A chave pode abrir. Preciso que você leve uma corda até lá."
"E você?"
"Vou encontrar os barcos."
Atravessei os arbustos até a margem. Os dois barqueiros tinham acabado de chegar, remando contra a corrente fraca. Mostrei a boca do canal, quase escondida sob as raízes, e pedi que amarrassem uma corda à argola de pedra.
Voltei pela trilha com a outra ponta.
Bruna já havia aberto a porta de serviço. Do lado de dentro, uma barra atravessava a passagem, prendendo o ferrolho por trás. Conseguíamos ver os homens, mas não alcançá-los.
Caio apareceu entre dois rostos magros.
Havia uma barba que eu não conhecia no rosto do meu irmão.
Ele tocou a madeira da porta quando me viu.
"Você cortou o cabelo."
Uma risada saiu junto com meu choro.
"Você escolheu um péssimo lugar para morar."
A água alcançava seus tornozelos.
Mostrei a corda pela fresta.
"Consegue soltar a descarga? Os barcos estão na saída."
Ele assentiu.
"O eixo saiu do encaixe. Preciso de alguma coisa para fazer alavanca."
Bruna retirou o pino de ferro que sustentava a tranca externa e o passou pela abertura.
Caio voltou correndo.
As pancadas recomeçaram. Eu olhava a linha da água na parede, contando o intervalo entre cada golpe.
Um grito veio do pátio.
Tomás respondeu com uma ordem curta. Ouvi aço, botas, um corpo contra madeira. Minha loba quis correr até ele.
Apertei a corda.
Caio precisava de mim ali.
A água começou a baixar.
"Abriu!", gritou alguém.
Corri para a margem outra vez. Um barqueiro entrou comigo até a cintura, segurando a corda enquanto o primeiro trabalhador surgia curvado sob a saída de pedra.
Quatro por viagem. Primeiro os que mal conseguiam andar. Os demais esperavam acima da linha de água, presos à corda para não perder o equilíbrio.
Caio saiu por último, depois de manter a comporta levantada com o pino.
Puxei meu irmão contra mim.
Ele estava tão magro que o abraço doeu nos dois.
"Achei que você tinha morrido", sussurrou.
"Eu também achei."
Não perguntei de qual de nós ele estava falando.
Quando o último barco alcançou terreno firme, Bruna trouxe Tomás. A faixa dele tinha voltado a manchar. Caminhava sozinho, com a espada na mão esquerda.
"A entrada está sob nossa guarda", disse. "O administrador e três homens foram detidos."
Mostrei Caio.
Meu irmão ficou rígido.
Tomás guardou a espada.
"Vocês serão retirados daqui."
"Para outra pedreira?"
A pergunta acertou onde devia.
"Para alojamento protegido, sem trabalho obrigatório enquanto o conselho examina a sanção. A ordem está escrita."
Caio olhou para mim. Confirmei com a cabeça.
Só então ele aceitou a manta que um guarda ofereceu.
Antes de partirmos, Bruna abriu a antiga sala administrativa com base na autorização de inspeção. Precisávamos conferir se a lista correspondia aos vinte e quatro homens resgatados.
Ajudei a separar as folhas recentes dos livros encadernados. O depósito também guardava contas antigas de transporte militar: a pedreira emprestava carros ao exército durante a campanha.
Um volume caiu aberto no chão.
Agosto.
Abaixei para recolhê-lo.
Havia pagamentos de mensageiros entre as despesas com rodas, arreios e animais. Uma linha trazia a data anterior à abertura do portão sul. No bolso da capa, dois recibos numerados repetiam a referência da viagem.
"Bruna."
Ela leu, conferiu as páginas anteriores e chamou outro guarda para testemunhar a apreensão.
"Não tire nada do lugar. Vamos registrar o conjunto."
Os recibos tinham rubricas e códigos de destino que eu não podia verificar ali. Podiam explicar alguma coisa. Podiam exigir documentos que ainda não possuíamos.
Deixei que Bruna os lacrasse com o livro.
A salvo na margem norte, pedi que os trabalhadores fossem acolhidos no território vizinho, sob proteção de uma das alcateias sem vínculo com a intendência. Os barqueiros conheciam o caminho e levaram o pedido do rei à autoridade local.
Ao amanhecer, recebemos abrigo provisório e um escrivão para registrar os depoimentos.
Caio dormiu depois de comer.
Eu só consegui parar de contar pessoas quando vi os vinte e quatro nomes conferidos.
Tomás me encontrou do lado de fora.
"Você pode ficar com ele. Bruna leva os documentos."
Olhei a estrada aberta, minha autorização guardada no casaco e a porta atrás da qual meu irmão dormia.
Eu podia ficar.
A certeza mudou o modo como dei o primeiro passo em direção ao rei.
"Não é por isso que vou fazer uma coisa", avisei.
Ele ficou muito quieto.
"Por quê?"
Segurei a frente do casaco dele e o beijei.
Tomás recebeu o beijo sem me puxar. Só quando aproximei o corpo colocou a mão esquerda na minha cintura.
A boca dele estava quente. A respiração perdeu o ritmo junto com a minha.
Afastei-me antes que esquecesse de tudo o que ainda nos separava.
"Ainda estou com raiva de você."
Ele encostou a testa na minha por um segundo.
"Eu sei."
Bruna nos chamou da porta. Trazia a resposta ao pedido de audiência enviado durante a madrugada.
O conselho ouviria os trabalhadores no dia da renovação dos juramentos, dali a dois dias.
Gaspar anexara uma exigência: antes de novas acusações, o rei deveria esclarecer publicamente a natureza da nossa relação e aplicar as cláusulas de união da Casa Real.
Li o trecho duas vezes.
"O que essas cláusulas fazem com uma requerente?", perguntei.
Bruna olhou para a mão de Tomás, ainda perto da minha.
"É melhor lermos o pacto inteiro antes de você aceitar qualquer marca."
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