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"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 4 — Eu Não Serei Sua Prisioneira

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Capítulo 4 — Eu Não Serei Sua Prisioneira

Tomás chamou um dos guardas antes que eu terminasse de dobrar o aviso.

"Leve uma suspensão da transferência. Exija recibo. Se já tiverem partido, descubra por qual caminho."

Bruna escreveu sobre o joelho. O rei selou a ordem com a mão esquerda, enquanto a curandeira cortava a faixa ensanguentada do braço direito.

"A estrada de cima", avisei ao guarda. "Não use a margem depois da curva."

Ele partiu. Fiquei olhando até a luz da lanterna desaparecer.

Eu queria estar naquele cavalo.

Queria que procurar meu irmão fosse tão simples quanto correr na direção dele.

Dalva se aproximou.

"A confraria dos barqueiros recebe as listas antes do embarque. Na casa central, perto da fortaleza. Precisam calcular o peso dos passageiros."

Abri novamente o aviso. Havia um número de carga no canto.

Dessa vez, tínhamos por onde começar.

Partimos ao amanhecer. Dois guardas ficaram protegendo o posto; Dalva veio conosco, trazendo a cópia conferida dos canhotos. Bruna manteve os originais sob a própria guarda. O funcionário e os moradores preferiram esperar a escolta prometida.

A curandeira tinha fechado o corte de Tomás. Ele mal dobrava o braço.

Quando ajudei a ajustar a correia de sua sela, vi um dos guardas desviar os olhos depressa.

Não pensei nisso até chegarmos à fortaleza.

Gaspar nos esperava junto aos representantes do conselho que permaneciam na corte. Olhou primeiro para a faixa do rei, depois para mim.

"Os homens dizem que Vossa Majestade quase morreu para proteger essa mulher."

"Protegi uma saída com civis dentro."

"Também dizem que ela passou a noite cuidando do senhor."

Bruna avançou.

"Eu estava presente. Uma curandeira tratou o ferimento."

Gaspar ergueu as mãos.

"Não faço acusações. Mas já se fala em um laço. A investigação precisa ser preservada de qualquer influência."

Ele transformava olhares de guardas numa suspeita conveniente. Bastava que eu protestasse demais para ajudá-lo.

Uma das representantes pediu minha retirada da apuração até a reunião completa das sete alcateias.

Tomás recusou encerrar a investigação, mas me levou à sala atrás do trono antes de responder sobre minha participação.

A porta fechou. Bruna ficou do lado de dentro.

"Você pode permanecer nos aposentos internos até esclarecermos isso", disse ele. "Terá proteção. Vou mandar buscar os registros da pedreira."

"Quanto tempo?"

"O necessário."

Olhei a janela estreita.

"Meu irmão pode ser levado amanhã."

"Já enviei a suspensão."

"E se ninguém obedecer? Mandaram incendiar uma casa com você dentro."

Ele ficou imóvel.

Eu via o esforço com que mantinha o braço junto ao corpo. Parte de mim queria fazê-lo sentar. Outra parte conhecia bem demais o preço de esperar uma ordem atravessar todas as mesas de um reino.

"Eu não vou fugir", falei. "Quero ir à confraria, mostrar este número e buscar a lista. Pode mandar Bruna comigo."

"Há gente tentando matar você."

"Prender-me mais perto não vai prender essas pessoas."

Ele passou a mão esquerda pelo rosto.

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"Uma saída acompanhada. Depois voltamos a discutir sua situação."

Aceitei porque uma porta pequena ainda podia levar à rua.

Na casa dos barqueiros, pedi o livro de cargas. O responsável reconheceu a marca do meu pai na capa do caderno que Bruna retirou da bolsa. Até então ela o mantivera embrulhado, longe dos papéis do armazém.

"Achei que isso tivesse se perdido."

"Quase", respondi.

Ele conferiu o número do aviso com a via recebida para o transporte.

Vinte e quatro trabalhadores. Manutenção. Entre os nomes, Caio Serrat.

A ordem vinha da intendência. O selo de Gaspar estava inteiro.

"Podemos levar?"

"Esta via fica aqui. Faço uma cópia, e a capitã confere."

Enquanto a tinta secava, consultei a tábua de marés pregada na parede. O embarque estava previsto antes do amanhecer seguinte. A água atingiria a entrada inferior poucas horas depois.

O registro chamava aquilo de inspeção de drenagem.

Não mencionava barcos para a volta.

Retornei com a cópia na mão e pedi um escrivão, não uma audiência privada.

Tomás nos recebeu na mesma sala. Coloquei os documentos diante dele.

"Quero autorização de trânsito como requerente. E uma inspeção da pedreira que permita retirar os trabalhadores de risco imediato. Tudo escrito."

"Você ainda responde à acusação."

"Então escreva também que devo comparecer quando convocada. Mas não dependa de alguém lembrar de abrir minha porta quando chegar uma notícia."

Bruna pousou a cópia conferida da lista junto ao aviso.

O rei leu os nomes. Demorou no de Caio.

"Não posso, sozinho, encerrar a sanção coletiva incorporada ao pacto de guerra", disse. "Posso suspender sua execução em local inseguro e submetê-la ao conselho."

"Faça isso."

O escrivão começou a escrever.

Tomás pediu que incluísse acesso aos registros de transporte, retirada dos trabalhadores ameaçados e proteção das testemunhas. Depois acrescentou meu direito de circular durante a apuração, mediante comparecimento às convocações.

Quando o selo esfriou, fui eu quem pegou a folha.

Gaspar recebeu uma cópia da inspeção para providenciar os registros. Não podia alegar desconhecimento, disse o escrivão.

Eu observei o intendente sair com ela.

Uma hora depois, o mensageiro enviado à pedreira voltou com o cavalo coberto de espuma.

Não trazia recibo.

"O administrador mandou esperar. Disse que a suspensão precisava ser registrada. Depois chegou outro cavaleiro da intendência. Quando voltei ao pátio, já estavam levando os homens por terra."

"Por terra?", perguntei.

"Alegaram mudança de horário. Disseram que houve queda de pedra perto da entrada principal."

A lista antiga previa barcaças ao amanhecer. Tinham antecipado o transporte para aquela tarde, depois de receberem a notícia da inspeção.

Olhei para o mapa da parede.

Pela estrada, chegaríamos à galeria inferior antes da subida da água, se partíssemos naquela noite. Esperar a luz do dia seria entregar o tempo que ainda tínhamos.

"Preciso de cordas, lanternas e dois barcos pequenos na saída do canal", falei a Bruna. "Os barqueiros podem levá-los pela margem norte."

Tomás foi buscar o cinto da espada.

"Seu braço", lembrei.

"Minha mão esquerda funciona."

Eu dobrei a autorização e a guardei por dentro do casaco.

Na porta, um guarda olhou para o rei, esperando saber se devia me deter.

Tomás se afastou da passagem.

Pela primeira vez, saí sem precisar que alguém viesse atrás com uma chave.

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