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"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 3 — A Noite em Que Ele Me Ouviu

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Capítulo 3 — A Noite em Que Ele Me Ouviu

"O senhor sabia?"

Minha voz saiu baixa demais. Empurrei o livro para Tomás e toquei o nome de Caio.

"Sabia que meu irmão estava numa pedreira?"

Ele leu a linha inteira.

"Não sabia o destino individual dos detidos."

"Mas sabia que estavam detidos."

"Autorizei o serviço compulsório dos envolvidos na abertura."

Fechei os olhos por um instante.

Eu tinha guardado tantos medos para Caio que quase não reconheci o alívio quando veio. Estava vivo. Podia sentir raiva depois. Primeiro precisava alcançá-lo.

"Quero essa página copiada."

Bruna puxou uma cadeira.

"Eu faço."

"E quero saber em que parte da pedreira ele trabalha."

O funcionário abriu as mãos vazias.

"Aqui só recebemos a confirmação das rações. Transferência depende da intendência."

Tomás pediu uma requisição dos registros completos. Não tentei agradecer.

A porta rangeu atrás de nós.

Dalva estava no vão, com um saco de compras no braço. Reconheci primeiro o jeito de segurar a alça, enrolada duas vezes no punho para não escapar.

Ela largou tudo no chão.

"Menina."

Eu atravessei a sala. O abraço dela me apertou os ombros e quase desfez o que eu tinha conseguido manter inteiro desde a prisão.

"Disseram que tinham pegado você."

"Pegaram."

Dalva viu o homem junto à mesa. Seus braços afrouxaram.

"Trouxe o rei até nós?"

"Trouxe uma pergunta. Preciso que você responda."

Contei sobre o relatório de evacuação. Ela ouviu sem tirar os olhos de Tomás.

"Agora querem os nossos nomes? Para levar quem faltou?"

Eu não podia prometer uma liberdade que ainda não tinha.

"Quero confrontar o que escreveram com o que você registrou. Bruna vai guardar os documentos. Não vou entregar você a um interrogatório sozinha."

Dalva olhou para a capitã, depois para mim.

"Eu fiquei com os canhotos."

O ar pareceu entrar mais fundo no meu peito.

Fomos até a antiga casa de pesagem, encostada no armazém. Dois guardas ficaram no posto; os outros cercaram o pátio. Havia onze moradores ali, dividindo o espaço enquanto consertavam os telhados das próprias casas.

Uma mulher puxou o marido para longe do rei. Tomás percebeu. Parou junto à porta, deixando o centro da sala livre.

Dalva retirou uma caixa debaixo de uma tábua.

"Eu era responsável pelo que saía", disse. "Se faltasse um saco, cobravam de mim."

Abriu o barbante.

O relatório real mencionava sessenta e uma sacas distribuídas para a retirada. Os canhotos registravam nove. Conferi as somas com ela, linha por linha.

As folhas tinham numeração impressa, marcas de recebimento e os selos usados no posto.

"Pode haver outro armazém", disse Tomás.

Dalva virou a última página.

"Então mostrem o recibo dele. Este era o único autorizado a abastecer a travessia."

Bruna anotou a sequência, copiou os totais e pediu que Dalva e o funcionário do posto, que nos acompanhara, assinassem a conferência. Separou a cópia dos originais, envolvendo-os em dois panos encerados.

正文1

Não era ainda a resposta sobre a emboscada.

Era a primeira mentira que conseguíamos segurar nas mãos.

Senti um cheiro doce e oleoso.

Virei antes de ouvir o vidro quebrar.

O frasco bateu na parede externa. Fogo correu pela janela, agarrando o tecido seco. Um dos guardas gritou no pátio.

Tomás derrubou a mesa contra a abertura.

"Afastem-se!"

O segundo frasco acertou a porta.

Corri para o corredor dos fundos. Pela fresta, vi um homem com o rosto coberto empurrando uma carroça contra a saída. Outro armava uma besta.

Voltei abaixada.

"Os fundos estão bloqueados."

Bruna guardou os originais dentro do casaco e entregou a cópia ao funcionário.

Uma seta atravessou a madeira da janela.

Os moradores se comprimiram perto da parede. Dalva tossia, curvada sobre a caixa vazia.

Eu conhecia aquele piso.

"Tirem os sacos dali."

Apontei para o canto onde a casa de pesagem encontrava o depósito. Um homem me ajudou a arrastar a farinha. Sob os sacos havia uma argola enferrujada.

Tomás veio até nós e puxou a tampa.

Água escura correu sob uma escada curta.

"Canal de escoamento", expliquei. "Sai depois do muro do armazém."

Ele olhou para o nível na pedra.

"Pode encher."

"A maré está baixando. Veja a faixa molhada acima da água. Temos passagem."

Ele me encarou. Atrás de nós, o teto estalou.

"Capitã, leve a testemunha."

Ajoelhei junto à abertura.

"Bruna primeiro. Dalva em seguida. Quem tiver dificuldade fica entre duas pessoas. Mãos na parede esquerda. Ninguém entra em pânico se apagar a luz."

Eu mesma queria correr.

Em vez disso, contei.

Onze moradores. Dalva. O funcionário. Bruna.

Tomás manteve uma prateleira tombada contra a porta enquanto os últimos desciam. O cheiro de madeira queimada encobria tudo, até ele.

Então vi sangue escorrer da manga direita.

Uma lâmina tinha passado pela fresta.

"Sua vez", ele disse.

"Falta você."

"Preciso soltar isto e alcançar a abertura. Desça."

Desci dois degraus e firmei o pé no último, esperando. Quando a prateleira caiu, estendi o braço esquerdo.

Ele segurou meu antebraço, saltou e puxou a tampa atrás de si.

A água bateu nos meus joelhos.

Seguimos curvados. Na curva final, tive que me virar de lado, indicando a pedra solta antes que Dalva tropeçasse. Bruna alcançou a saída e assobiou para os guardas.

Os que ainda estavam no posto responderam.

Saímos além do muro, protegidos por eles. Os agressores recuaram quando perceberam a aproximação. Um dos nossos guardas veio do pátio mancando, apoiado em outro.

Ninguém conseguiu perseguir os vultos entre os salgueiros.

No abrigo de pedra da margem, contei outra vez.

Todos os que tinham descido estavam ali.

Só então minhas mãos começaram a tremer.

Tomás sentou num degrau. A manga colava no braço, escura de sangue.

Peguei água e um pano com o funcionário. Parei diante dele.

"Posso?"

Ele assentiu e soltou a fivela da proteção de couro.

O corte era comprido, mas ele conseguia mover os dedos. Limpei o sangue ao redor e pressionei o pano dobrado enquanto Bruna mandava buscar a curandeira do posto.

Sob minha mão, a pele dele estava quente.

O laço voltou como uma vontade absurda de encostar a testa no ombro daquele homem. Continuei olhando o ferimento.

"Você esperou", ele disse.

"Ainda faltava uma pessoa."

Seus dedos se moveram perto do meu pulso. Pararam antes de tocar.

"Obrigada por ouvir a rota", acrescentei.

Ele soltou uma respiração curta.

"Devia ter ouvido antes."

Ergui os olhos.

"Então ouça agora. Proteção para todos. Não só para Dalva. Quem incendiou aquilo viu os moradores junto de nós."

Tomás chamou Bruna.

A ordem veio clara: reunir os sobreviventes, manter a guarda, escoltar quem desejasse partir. Nenhum recrutamento. Nenhuma detenção sem nova determinação escrita.

Dalva escutou da outra ponta do abrigo, sem sorrir.

Eu também não sorri.

Mas terminei de prender a faixa sem afastar a mão depressa.

O funcionário se aproximou com uma bolsa chamuscada. Tinha salvado a cópia e os avisos do posto que levava no mesmo embrulho.

"Isto chegou hoje. Talvez seja importante para o seu irmão."

Abriu uma requisição de barcaças.

Li o código da pedreira, a previsão de embarque e o destino: galeria inferior, setor leste.

O mesmo grupo de manutenção que constava na linha de Caio.

"Isso confirma que ele vai?", perguntou Tomás.

"Precisamos da lista de transferência."

Meus dedos amassaram a borda.

A galeria leste ficava abaixo da marca das grandes marés. Eu conhecia a entrada. Tinha sido fechada depois que a água arrancara os antigos suportes.

Olhei a data do transporte.

Depois de amanhã.

"Não estão levando meu irmão para trabalhar", falei. "Estão mandando o grupo dele para um lugar de onde talvez ninguém consiga sair."

 

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