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"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 2 — O Homem Que Assinou a Ordem

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Capítulo 2 — O Homem Que Assinou a Ordem

Bruna girou a chave.

O ferro se abriu, e recolhi as mãos contra o corpo. Tomás continuava do outro lado da mesa.

"Isso não altera a investigação", ele disse.

Eu não sabia se falava comigo, com a capitã ou consigo mesmo.

"Ótimo."

Bruna recolheu as algemas. O som me fez estremecer, e odiei que ele percebesse.

Tomás abriu a boca, mas eu me antecipei.

"Quem mais precisa saber?"

Se aquela corte soubesse do laço, qualquer palavra minha viraria outra coisa. Uma tentativa de sedução. Um favor recebido.

"Por enquanto, ninguém", respondeu ele.

A capitã assentiu uma vez.

Passei por Tomás mantendo os olhos na porta. Mesmo assim, senti quando ele virou o rosto para acompanhar minha saída.

O quarto ficava no corredor da guarda. Havia água limpa, uma cama estreita e um homem armado do lado de fora. Examinei a janela antes de tocar na comida.

As dobradiças eram novas. A queda terminava num pátio de pedra.

Bruna me entregou um pano e um pequeno pote de unguento.

"Amanhã, arquivos. Ao primeiro sino."

"E se o rei mudar de ideia durante a noite?"

Ela colocou sobre a mesa uma folha com o selo real.

"Então vai precisar de outra ordem. Guarde esta."

Li o texto duas vezes. Meu nome estava escrito corretamente.

Só depois lavei o sangue dos pulsos.

Dormi pouco. Toda vez que fechava os olhos, lembrava a mão dele apertando a mesa. Meu corpo queria descobrir como aqueles dedos tocariam minha pele sem ferro entre nós.

Puxei o cobertor até o queixo, irritada.

Ao primeiro sino, estava calçada.

O arquivo cheirava a cola, lã úmida e cinza de braseiro. Bruna já esperava junto a uma mesa. O caderno do meu pai estava aberto, protegido por duas tiras de tecido para não forçar a lombada.

Ao lado, três pastas militares.

"Pode consultar", disse o arquivista. "Nada sai daqui."

Sentei e procurei o dia dezessete.

O relatório declarava a evacuação concluída ao anoitecer do dia anterior. Havia uma lista de provisões distribuídas e a anotação de que não restavam moradores no perímetro.

A ordem seguinte mandava manter o portão sul fechado até a passagem da última companhia.

Meu polegar parou junto à assinatura.

Tomás Alvar.

Passei tanto tempo odiando uma ordem sem rosto que ver o nome dele em tinta pareceu uma nova ofensa.

"Foi minha."

Ele estava à porta.

O arquivista se levantou depressa. Eu continuei sentada.

"O senhor leu isso antes de assinar?"

Tomás aproximou uma cadeira, mas não a puxou para perto da minha.

"Li o relatório de retirada. A abertura do portão deixava uma passagem atrás da coluna. Mantê-lo fechado protegia a marcha."

"Havia gente batendo nele."

"Eu não estava no portão."

"Estavam cumprindo a sua ordem."

Ele olhou para a folha. Esperei a explicação sobre conselheiros, pressa, guerra. Esperei que apontasse um morto incapaz de responder.

正文1

"Sim."

A palavra ficou entre nós.

Encostei o indicador na margem do relatório.

"Meu pai marcou as travessias durante trinta anos. Quando morreu, continuei usando o livro. Na noite do dia dezesseis, a água cobriu os degraus do embarcadouro. Não saiu barco carregado dali."

"Poderiam ter usado a estrada."

"Com os carros da cidade? O posto da margem cobrava por eixo. Procure a arrecadação."

Bruna pediu a pasta correspondente. O arquivista voltou com as contas do posto, e separamos as páginas pelo número do distrito.

Nenhuma passagem coletiva no dia dezesseis.

No dia dezessete, dois barcos requisitados. Taxa suspensa por transporte de refugiados.

Meu peito apertou.

Eu não conhecia aquele registro. Alguém, do outro lado, tinha feito seu trabalho. Uma linha banal num livro que sobrevivera.

"Não há quantidade de passageiros", observou Tomás.

"Não", concordei. "Mas havia refugiados depois de a cidade estar oficialmente vazia."

Ele chamou o arquivista para conferir a data e pediu uma cópia certificada das duas folhas.

Pela primeira vez desde minha prisão, alguém procurava o erro onde eu tinha apontado.

Gaspar chegou antes de a cera esfriar.

"Majestade, o batedor voltou das salinas. O canal realmente mudou. Ajustaremos o trajeto."

Tomás manteve os olhos na mesa.

"E a evacuação?"

O intendente examinou os documentos sem se sentar.

"Refugiados de outra aldeia. O posto atendia três distritos."

"Então vamos perguntar a quem estava lá", falei.

"A fronteira ainda tem desertores. Não autorizo uma incursão para satisfazer—"

Ele parou.

Tomás ergueu o rosto.

"Você não autoriza?"

Gaspar inclinou a cabeça.

"Não aconselho, Majestade."

Eu me voltei para Bruna.

"Dalva trabalhava no armazém da travessia. Se ficou na região, vai ter procurado a casa do posto. Precisamos começar lá."

"Você a viu depois da fuga?", perguntou a capitã.

"Não. Passei os últimos meses trocando de abrigo. Os que sabiam onde eu estava corriam perigo."

Tomás fechou a pasta da ordem.

"Partimos em uma hora."

Gaspar protestou contra a presença do rei numa viagem sem preparação. Tomás pediu seis guardas, montarias comuns e nenhuma bandeira.

"Voltam amanhã à noite?", perguntou o escrivão que trouxera as cópias.

"No mais tardar", respondeu o rei.

Ele me encarou.

"Você volta conosco. A apuração continua aqui."

"Se encontrar meu irmão, não vou deixá-lo para trás."

"Ainda não sabemos onde ele está."

Era verdade. Eu a detestei mesmo assim.

A estrada descia entre encostas nuas antes de alcançar os terrenos salgados. Bruna cavalgou ao meu lado. Tomás seguia à frente, atento aos cruzamentos, sem tentar conversar comigo.

No último trecho, a sela raspou meu pulso ferido quando o cavalo tropeçou. Prendi a respiração.

Ele olhou para trás.

Não havia como ter visto.

Desviei o rosto antes que a pergunta viesse.

Chegamos ao posto no fim da tarde. As janelas se fecharam quando reconheceram as armas. Um velho abriu a porta apenas o suficiente para olhar nossa escolta.

"Não temos homens sobrando", disse.

Bruna mostrou a autorização de consulta.

Eu fiquei ao lado dela.

"Não viemos recrutar."

O velho reconheceu meu sobrenome antes do meu rosto. Deixou-nos entrar, mas não ofereceu água ao rei.

Procuramos Dalva primeiro. Ela ainda morava perto do antigo armazém; voltaria da margem ao anoitecer. Enquanto esperávamos, o funcionário trouxe os registros de passageiros enviados para serviço obrigatório.

As páginas mais recentes tinham marcas de dedos escuros.

Encontrei meu sobrenome na terceira.

Caio Serrat.

Li de novo. Depois a data do recebimento da última ração, registrada seis dias antes.

A borda da mesa pressionou minha barriga quando me inclinei.

Tomás parou atrás da cadeira, mantendo distância.

"Lívia?"

Segui a linha até o fim.

A coluna não dizia soldado.

Dizia trabalhador sob custódia. Pedreira da Coroa. Apto para manutenção.

Meu irmão estava vivo.

E trabalhava preso para o homem que estava atrás de mim.

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