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"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 1 — A Traidora Diante do Rei

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Capítulo 1 — A Traidora Diante do Rei

"Confesse que abriu os portões e poupe esta corte de ouvir suas mentiras."

Ergui as mãos algemadas antes que o escrivão terminasse de se sentar.

"Eu abri."

O homem à direita do trono sorriu. Usava uma corrente de ouro sobre o peito e tinha as unhas mais limpas que eu já vira.

"Que conste a confissão de traição."

"Que conste a frase inteira", falei. "Abri os portões para tirar oitenta e três pessoas de uma cidade que o rei mandou fechar. Não entreguei uma única rota ao inimigo."

A capitã atrás de mim firmou a mão no cabo da espada. Não me tocou.

No alto dos três degraus, Tomás Alvar deixou de olhar para o documento.

Eu conhecia seu rosto das moedas. O metal não mostrava a pequena cicatriz que interrompia a sobrancelha esquerda, nem o modo como a imobilidade dele fazia os outros homens parecerem inquietos.

"O portão sul protegia o flanco dos meus soldados."

"E prendia os moradores entre os soldados e o fogo."

Ele se levantou.

A corrente entre meus pulsos tremeu. Apertei os dedos até conseguir pará-la.

"Meu irmão morreu naquela noite."

Não havia grito na voz. Isso tornou a frase pior.

Olhei para a faixa preta presa à base do estandarte real. Dezoito meses, e ninguém a tinha retirado.

"Eu sei."

"Você sabe o nome dele?"

"Miguel."

O maxilar do rei endureceu.

"Então não fale dessa noite como se tivesse sido uma travessia mal calculada."

"Eu também sei os nomes de quem estava dentro dos muros. Posso começar por eles."

"Várzea do Sal havia sido evacuada", disse o homem da corrente.

Virei o rosto para ele.

"O senhor estava lá?"

"Gaspar Vilar, intendente dos exércitos de Valdora", anunciou o escrivão, ofendido por mim. "Responsável pelos relatórios apresentados à Coroa."

"Não foi o que perguntei."

Um ruído atravessou a sala. Tomás ergueu dois dedos e o silêncio voltou.

"Onde está o seu comprovante?"

Olhei para a capitã.

"Na bolsa que ela tomou de mim."

Bruna Falcão abriu o embrulho de couro sobre a mesa. Tirou uma faca curta, duas coroas e o caderno do meu pai. A capa estava torta de tanto secar depois de molhada.

Gaspar fez menção de pegá-lo.

"A capitã pode abrir", pedi. "As últimas folhas estão soltas."

Bruna encontrou a fita vermelha que eu havia amarrado à lombada.

"Registro de travessias", leu.

"Página quarenta e seis."

Ela passou o dedo pelas linhas.

"Dezessete de agosto. Oitenta e três passageiros. Sem cobrança."

"A evacuação terminou no dia dezesseis", disse Gaspar.

"Então alguém precisa explicar por que transportei essas pessoas no dia seguinte."

Tomás desceu um degrau.

"Você escreveu isso."

"Escrevi."

"Poderia ter escrito ontem."

"Por isso trouxe nomes. Procurem os vivos. Confiram os registros do posto do outro lado do rio. Não estou pedindo que acreditem na minha letra."

O rei olhou novamente para Bruna. Ela continuava lendo.

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"Dalva Moura", falei. "Sessenta e uma sacas de farinha não pesavam tanto quanto aquela mulher quando resolveu voltar para buscar um livro. Perguntem por quê. Perguntem a quem a recebeu na margem norte."

Minha garganta apertou antes do nome seguinte.

"Caio Serrat. Meu irmão. Ele ajudou a soltar a corrente do portão. Depois foi levado para servir à Coroa. Nunca me disseram para onde."

"Familiares e cúmplices", observou Gaspar.

"Pessoas."

Tomás chegou ao último degrau.

"Você fugiu dos meus guardas por dezoito meses."

"Vi o que acontecia com quem ficava."

"E agora quer a proteção da minha justiça?"

Eu havia imaginado aquela pergunta durante três noites na carroça da capitã. Em nenhuma das respostas ensaiadas meus joelhos doíam tanto.

"Quero usar o pedido de reparação do Pacto das Sete Alcateias. Uma prova nova, uma revisão. Está escrito nas casas de travessia porque até barqueiros podem cobrar uma carga apreendida injustamente."

O escrivão olhou para o rei.

"O pedido é admissível para apuração, Majestade. Não determina inocência."

"Ela apresenta um caderno particular", insistiu Gaspar.

Eu precisava de algo que os obrigasse a me manter ali tempo suficiente.

Na mesa lateral havia um mapa aberto. Durante a leitura da acusação, dois oficiais tinham discutido os carros de mantimentos marcados junto ao estuário. Reconheci a linha azul antes de reconhecer a estrada.

"Vão usar a passagem das salinas?"

Ninguém respondeu.

"A curva desenhada está errada. O canal correu para oeste depois das chuvas. Um carro carregado afunda antes de alcançar a terceira estaca."

Gaspar fechou parte do mapa.

Tomás colocou a mão sobre o papel, impedindo-o.

"O comboio parte em quatorze dias."

"Então têm quatorze dias para conferir o que estou dizendo. Eu conheço um caminho pelo terreno firme. Posso mostrá-lo junto com a rota por onde tirei os moradores."

"Em troca de quê?"

"Uma investigação. Os nomes dos sobreviventes. O destino dos que foram levados."

"Não posso suspender uma operação militar porque uma acusada aponta para um mapa."

"Pode mandar um batedor medir o canal amanhã. Se eu menti, vai saber antes do almoço."

Ele me observou por tempo suficiente para eu ouvir a pena do escrivão raspar numa mancha seca de tinta.

"Quatorze dias de apuração", decidiu. "Sob responsabilidade da capitã Falcão. As acusações permanecem. Você não deixa a fortaleza sem escolta."

Soltei o ar devagar.

"E o caderno?"

"Fica com a capitã."

"Quero uma cópia."

Bruna ergueu uma sobrancelha.

"Terá acesso a ele", disse o rei. "Não confunda isso com liberdade."

"Não costumo confundir uma porta guardada com uma porta aberta."

Gaspar deu um passo à frente, mas Tomás encerrou a audiência antes que ele falasse.

Esperei ser arrastada para uma cela. Em vez disso, Bruna me levou à sala menor atrás do trono. O rei entrou depois, sem a corrente de cerimônia que um criado recolheu à porta.

Ali ele parecia maior.

Talvez porque não houvesse uma sala inteira entre nós.

"Mostre os pulsos", pediu Bruna.

As algemas tinham aberto a pele. Quando ela encontrou a chave, Tomás se aproximou da mesa para olhar o caderno.

Senti primeiro o cheiro de chuva no couro do casaco dele.

Depois veio o calor.

Subiu pelo meu peito tão rápido que perdi uma respiração. Minha loba despertou sob a pele, atenta de um jeito que nada tinha a ver com fuga. Dei meio passo para a frente antes de perceber.

Tomás parou.

Os olhos dele escureceram ao encontrar os meus. Sua mão se fechou na borda da mesa, e o pequeno ruído da madeira me fez olhar para os dedos.

Eu conhecia as histórias. Tinha rido de algumas.

Nunca daquela parte.

"Você sentiu", ele disse baixo.

Bruna deixou a chave imóvel na fechadura.

Eu sentia o homem que me acusava de matar seu irmão como se meu corpo o estivesse esperando havia anos.

Recuei. Dessa vez, por escolha.

"Senti."

A distância devolveu um pouco de ar aos meus pulmões.

"E ainda quero que leiam o caderno."

 

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