"Só Finja Que Está Comigo" Capítulo 6
Isabela passou a madrugada sentada na escada entre o apartamento e a Doce Aurora.
A polícia tinha ido embora fazia quase uma hora.
Nada de dinheiro tinha sido levado.
Nada de joias.
Nada de equipamentos.
Só a pasta médica de Lívia.
Isso era o que mais assustava.
Dante chegou pouco antes das seis.
Bruno veio com ele.
Isabela estava com os braços cruzados, o rosto cansado e os olhos inchados.
"Levaram só os exames."
Dante olhou para a porta dos fundos.
"Você tem certeza?"
"Tenho."
"Mais nada?"
"Nada."
Bruno começou a observar a fechadura.
Dante voltou os olhos para Isabela.
"Você está bem?"
"Não."
Ela respondeu sem hesitar.
"Mas isso não importa."
"Importa."
"Minha filha importa mais."
Dante não discutiu.
Isabela se levantou.
"Quero falar com o doutor Rafael."
"Eu também."
"Agora."
Menos de uma hora depois, os dois estavam no Hospital Santa Cecília.
Dr. Rafael os recebeu numa sala pequena, longe da recepção.
Parecia mais preocupado do que das outras vezes.
Isabela percebeu na mesma hora.
"Você sabe de alguma coisa."
Rafael fechou a porta.
"Sei."
"Então fala."
Ele respirou fundo.
"Eu devia ter contado antes."
Isabela ficou rígida.
"Contado o quê?"
Rafael puxou uma cadeira.
"Alguém não apenas consultou o prontuário da Lívia."
Dante ficou em silêncio.
Isabela não.
"Eles fizeram o quê?"
"Mexeram na prioridade cirúrgica."
Ela demorou a entender.
"Mexeram como?"
"Existe uma classificação interna para determinar urgência, risco e ordem de atendimento."
Rafael abriu um arquivo no computador.
"A Lívia estava classificada como prioridade alta."
Isabela se aproximou.
"E agora?"
"Agora está novamente como prioridade alta."
"Novamente?"
Rafael desviou os olhos por um segundo.
"Alguém tentou rebaixar."
Isabela sentiu o estômago virar.
"Para quê?"
"Se a alteração tivesse permanecido, a cirurgia poderia ter sido empurrada por semanas."
"Quantas semanas?"
"Talvez meses."
Isabela perdeu a cor.
"Meses?"
Rafael assentiu.
"Ela não pode esperar meses."
"Eu sei."
"Então por que alguém faria isso?"
Rafael não respondeu.
Dante fez a pergunta.
"Qual seria o risco?"
Rafael olhou para os dois.
"Progressão da insuficiência cardíaca."
Isabela levou a mão à boca.
"Ela podia morrer?"
Rafael escolheu as palavras com cuidado.
"Eu não posso afirmar que isso aconteceria."
"Mas podia."
Silêncio.
"Sim."
Isabela se afastou.
Bateu as costas na parede.
"Não."
Dante deu um passo em direção a ela.
Isabela levantou a mão.
"Não."
Ela respirava rápido.
"Não chega perto."
Ele parou.
Isabela fechou os olhos.
A imagem de Lívia dormindo apareceu na cabeça.
Sete anos.
Sete anos.
Alguém tinha sentado diante de um computador e reduzido a prioridade de uma criança de sete anos.
De propósito.
Ela abriu os olhos.
"Isso não é guarda."
Rafael ficou em silêncio.
"Isso não é mais sobre o Henrique querendo levar minha filha."
Dante respondeu baixo.
"Não."
"Alguém está usando a vida dela."
A voz de Isabela quebrou.
"Como pressão."
Dante olhou para Rafael.
"Quem tinha acesso?"
"Administrativo, regulação, alguns setores terceirizados."
"Quero nomes."
Rafael hesitou.
"Eu não posso simplesmente entregar."
Dante aproximou-se da mesa.
"Então abra uma auditoria."
"Já pedi."
"Quanto tempo?"
"Não sei."
Dante ficou frio.
"Descubra."
Isabela olhou para ele.
Não havia raiva explosiva.
Era pior.
Era aquela calma dura que Teresa tinha descrito.
Bruno começou a trabalhar no mesmo dia.
Pediu registros.
Cruzou horários.
Analisou acessos.
Dante usou advogados para solicitar preservação de dados antes que alguém apagasse os rastros.
Quarenta e oito horas depois, surgiu um nome.
Cláudio Pires.
Supervisor administrativo.
Trabalhava havia onze anos no hospital.
Nunca tinha recebido advertência.
Nunca tinha sido investigado.
Até agora.
Bruno encontrou um padrão.
Cláudio tinha acessado o prontuário de Lívia fora do horário normal.
Duas vezes.
Depois, uma terceira vez.
Na terceira, a classificação foi alterada.
Dante encontrou Isabela na confeitaria.
"Temos um nome."
Ela largou a xícara.
"Quem?"
"Cláudio Pires."
"Eu conheço?"
"Não."
"Ele conhece a Lívia?"
"Também não."
"Então por quê?"
Dante colocou uma cópia de extrato bancário sobre a mesa.
"Dinheiro."
Isabela leu.
"Quanto?"
"Quarenta mil."
Ela levantou os olhos.
"Quarenta mil para atrasar a cirurgia de uma criança?"
"Foi dividido."
Bruno entrou nesse momento.
"Em três pagamentos."
Isabela ficou imóvel.
Bruno abriu a pasta.
"O dinheiro passou por uma empresa de consultoria."
Virou a página.
"Depois por uma prestadora de serviços."
Outra.
"E depois por uma empresa de cobrança."
Dante perguntou:
"Origem final?"
Bruno respirou fundo.
"Uma holding ligada a Augusto Montenegro."
Isabela fechou os olhos.
De novo aquele nome.
"Dante."
"Eu sei."
"Seu tio tentou matar minha filha?"
A pergunta atingiu.
Dante endureceu.
"Não vou dizer isso sem prova."
"Mas pagaram alguém para atrasar a cirurgia."
"Sim."
"Isso pode matar."
"Sim."
"Então me explica a diferença."
Dante não respondeu.
Naquela tarde, Augusto Montenegro foi chamado ao escritório da Faria Lima.
Chegou irritado.
Tinha cinquenta e sete anos, cabelo grisalho e a mesma forma controlada de falar que Dante.
Só que o olhar era diferente.
Mais frio.
"Você está me investigando agora?"
Dante deixou o extrato sobre a mesa.
"Estou."
Augusto nem olhou.
"Ridículo."
"Uma empresa ligada a você pagou um homem do hospital."
"Eu tenho dezenas de empresas."
"Para mexer no prontuário de Lívia."
Agora Augusto olhou.
"Quem?"
Dante repetiu.
"Lívia Oliveira."
Augusto se encostou na cadeira.
"Ah."
Aquele som bastou.
Dante avançou meio passo.
"Você sabia."
"Eu sabia da menina."
"Sabia da cirurgia?"
"Sim."
"Sabia da alteração?"
Augusto respirou fundo.
"Dante, você está misturando coisas."
"Responde."
Augusto ficou em silêncio.
Dante bateu a mão sobre a mesa.
"Responde."
Bruno, perto da porta, não se mexeu.
Augusto soltou o ar.
"Eu não mandei alterar prontuário nenhum."
Dante estreitou os olhos.
"Mas o dinheiro saiu de uma empresa sua."
"Porque eu autorizei uma consultoria."
"Para quê?"
"Pressão."
Dante ficou imóvel.
"Pressão em quem?"
"Em Henrique."
"Usando uma criança?"
Augusto passou a mão pelo queixo.
"Não era para chegar a esse ponto."
Dante ficou ainda mais frio.
"Então chegou."
"Não fui eu quem defini os detalhes."
"Quem definiu?"
Augusto hesitou.
Dante aproximou-se.
"Quem?"
Augusto olhou diretamente para ele.
"Vitória Ferraz."
O silêncio caiu.
Dante não esperava.
"Ela?"
"Sim."
"Você está mentindo."
"Não."
Augusto se levantou.
"Ela veio até mim."
Dante não desviou o olhar.
"Quando?"
"Meses atrás."
"E o que ela queria?"
"Que Henrique estivesse pressionado."
"Por quê?"
"Porque sem a guarda da menina ele teria dificuldade para consolidar a sucessão."
Dante ficou imóvel.
Augusto continuou.
"Vitória queria criar uma situação em que Isabela parecesse incapaz."
"Então vocês mexeram no hospital."
"Eu disse que aceitava pressão financeira."
"Mentira."
Augusto fechou a cara.
"Eu não mandei colocar a criança em risco."
"Mas financiou quem fez."
"Eu não sabia como executariam."
Dante riu sem humor.
"Conveniente."
Augusto se aproximou.
"Pergunte à Vitória."
"Eu vou."
"Pergunte por que ela precisava tanto que Henrique conseguisse a guarda."
Dante encarou o tio.
"O que você quer dizer?"
Augusto pegou o casaco.
"Ela não está fazendo isso por amor ao marido."
Depois foi embora.
Naquela noite, Henrique chegou em casa e encontrou Vitória na sala.
Ela estava sentada com uma taça de vinho.
Calma demais.
Ele segurava o celular.
"Você mexeu na cirurgia da Lívia?"
Vitória não respondeu de imediato.
Henrique avançou.
"Eu perguntei uma coisa."
"Quem te contou?"
O rosto dele mudou.
"Então é verdade."
Vitória tomou um gole.
Henrique arrancou a taça da mão dela.
"Você ficou louca?"
"Baixa a voz."
"Você pagou alguém para atrasar a cirurgia da minha filha?"
"Eu não paguei pessoalmente."
Henrique ficou sem palavras.
Vitória se levantou.
"Não faz essa cara."
"Que cara?"
"De pai indignado."
Henrique ficou rígido.
"Ela podia morrer."
"Não morreu."
"Você sabia do risco?"
Vitória ficou em silêncio.
Henrique deu um passo para trás.
Pela primeira vez, parecia olhar para uma desconhecida.
"Meu Deus."
Vitória cruzou os braços.
"Você realmente vai fingir que é melhor do que eu?"
"Eu queria a guarda."
"Queria."
"Por causa do patrimônio."
"Exatamente."
"Mas eu nunca mandei mexer na saúde dela."
Vitória riu.
"Não."
Ela se aproximou.
"Você só queria o resultado."
Henrique apertou os punhos.
"Para."
"Você queria os quatrocentos e oitenta milhões."
"Chega."
"Queria a assinatura."
"Vitória."
"Queria a guarda."
"Eu disse chega."
Ela parou a poucos centímetros dele.
Os olhos estavam frios.
"Você queria o dinheiro."
Henrique não respondeu.
Vitória inclinou levemente a cabeça.
"Eu apenas fiz o que você não teve coragem de fazer."
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