"Só Finja Que Está Comigo" Capítulo 5
Isabela não conseguiu esquecer o nome que tinha visto na tela do computador de Bruno.
Augusto Montenegro.
O tio de Dante.
Até aquele momento, todos os problemas pareciam apontar para Henrique, Vitória e a disputa pela guarda de Lívia.
Agora havia um Montenegro do outro lado.
E isso mudava tudo.
Na manhã seguinte, Dante apareceu na Doce Aurora mais cedo do que de costume.
Isabela já o esperava atrás do balcão.
Desta vez, não havia torta de damasco pronta.
Não havia sorriso.
Nem tentativa de brincadeira.
"Quero a verdade."
Dante parou diante dela.
"Sobre o quê?"
"Sobre sua família."
Ele não respondeu.
Isabela apoiou as duas mãos no balcão.
"Seu tio assinou a autorização que quase tirou minha filha da fila de cirurgia."
"Eu sei."
"E você acha que isso basta?"
"Não."
"Então começa a falar."
Dante olhou ao redor.
A confeitaria ainda estava vazia.
As primeiras bandejas de pão saíam do forno nos fundos.
"Augusto não representa a minha família."
Isabela riu sem humor.
"Ele tem seu sobrenome."
"Isso não significa lealdade."
"Para mim significa problema."
Dante ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois puxou uma cadeira.
"Meu pai comandava o Grupo Montenegro."
Isabela permaneceu em pé.
"Augusto era o irmão mais novo."
"Era?"
"Continua sendo."
Ela cruzou os braços.
"Então qual é a diferença?"
Dante apoiou os antebraços sobre a mesa.
"Meu pai morreu há oito anos."
A expressão de Isabela mudou.
Dante continuou.
"Depois disso, Augusto tentou assumir o controle do grupo."
"Mas você assumiu."
"Sim."
"Ele aceitou?"
Dante olhou para ela.
"Você já sabe a resposta."
Isabela respirou fundo.
"Então isso é uma guerra de família."
"É uma disputa de poder."
"Com minha filha no meio."
Dante não desviou o olhar.
"Agora, sim."
A resposta fez Isabela se irritar.
"Agora?"
"Eu não sabia que Lívia fazia parte disso."
"Mas Augusto sabia."
"Provavelmente."
"E Vitória?"
"Também."
Dante tirou o celular do bolso.
Mostrou uma fotografia de um projeto imobiliário.
"Henrique está tentando entrar num empreendimento grande."
Isabela olhou para a tela.
Prédios.
Mapa.
Números.
"Que empreendimento?"
"Um complexo residencial e comercial na zona sul."
"E o que isso tem a ver com Augusto?"
"Augusto está por trás da negociação."
Isabela ficou imóvel.
"Então Henrique quer o dinheiro da herança."
"Sim."
"Vitória quer que ele consiga."
"Sim."
"E seu tio quer usar isso para fazer negócio com Henrique."
"É o que estamos descobrindo."
Ela balançou a cabeça.
"Isso é pior do que eu pensei."
"Também é pior do que eu pensei."
Isabela encarou Dante.
"Você sempre fala como se estivesse dois passos na frente."
"Nem sempre."
"Não parece."
"Talvez porque eu não goste de mostrar quando estou atrás."
Ela percebeu algo novo naquela frase.
Não arrogância.
Cansaço.
Mas não estava pronta para sentir pena dele.
"Eu preciso saber de uma coisa."
"Pergunta."
"Você sabia de Henrique antes de entrar na minha vida?"
Dante endureceu.
"Não."
"Sabia da Lívia?"
"Não."
"Sabia do processo?"
"Não."
"Então por que você vinha aqui toda terça-feira?"
Dante ficou em silêncio.
Foi a primeira vez que Isabela sentiu que tinha feito uma pergunta que realmente o atingiu.
"Por quê?"
Ele se levantou.
"Isso não tem relação com o processo."
"Eu decido o que tem relação."
"Isabela."
"Você apareceu na minha confeitaria por quase um ano."
Ela deu um passo em direção a ele.
"Mesmo horário. Mesmo pedido. Mesmo dia."
Dante pegou o casaco.
"Eu volto depois."
"Você está fugindo?"
Ele parou.
"Não."
"Parece."
Dante olhou para ela.
"Algumas respostas não mudam o problema."
"Mas mudam a forma como eu vejo você."
A frase ficou entre os dois.
Dante não respondeu.
Saiu.
Isabela ficou ainda mais desconfiada.
Naquela tarde, atravessou a rua e entrou na floricultura de Dona Teresa.
O cheiro de lírios e rosas estava forte.
Teresa levantou os olhos de um arranjo.
"Essa cara significa problema."
"Preciso perguntar sobre Dante."
Teresa parou de cortar uma fita.
"Isso significa problema maior."
Isabela encostou no balcão.
"Por que ele vem à Doce Aurora toda terça-feira?"
Teresa não respondeu imediatamente.
"Você já perguntou para ele?"
"Ele não respondeu."
"Então talvez eu também não devesse."
"Teresa."
A florista suspirou.
"Você quer mesmo saber?"
"Quero."
Teresa largou a tesoura.
"Antes de a Doce Aurora ser sua, era da dona Celina."
"Eu sei."
"Celina era minha amiga."
Isabela esperou.
"E também era amiga de Helena Montenegro."
O sobrenome fez Isabela ficar alerta.
"Helena?"
"Mãe do Dante."
Isabela franziu a testa.
"Ela vinha aqui?"
"Durante anos."
Teresa sorriu com tristeza.
"Helena gostava de sentar perto da janela."
"Por quê?"
"Porque dizia que a Vila Madalena tinha vida."
Teresa continuou.
"Ela podia comer qualquer coisa em qualquer lugar, mas sempre vinha buscar a mesma sobremesa."
Isabela já sabia.
"Torta de damasco."
Teresa assentiu.
"Era a favorita dela."
Isabela ficou em silêncio.
"Ela morreu?"
"Há oito anos."
"Na mesma época que o pai dele?"
Teresa desviou os olhos.
"Não exatamente."
Isabela percebeu.
"Teresa."
A mulher respirou fundo.
"Helena morreu primeiro."
"Como?"
Teresa hesitou.
"Isso você precisa perguntar ao Dante."
Isabela não insistiu.
"Então terça-feira..."
"É o dia em que ela morreu."
A resposta atingiu Isabela de forma inesperada.
Durante um ano, ela tinha achado que Dante simplesmente gostava muito de torta de damasco.
Agora entendia.
Ele vinha buscar uma lembrança.
Toda semana.
No mesmo dia.
Sozinho.
Na terça seguinte, Isabela preparou a torta antes das sete e meia.
Quando Dante entrou, parou ao ver a caixa sobre o balcão.
"Está pronta."
Ele olhou para ela.
"Você não costuma deixar pronta."
"Hoje eu deixei."
Dante tirou dinheiro do bolso.
Isabela cobriu a caixa com a mão.
"Não precisa."
Ele franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque hoje não é sobre vender torta."
Dante ficou imóvel.
Entendeu.
Seu rosto perdeu parte da rigidez.
"Teresa."
"Sim."
Ele soltou o ar lentamente.
"Eu devia ter imaginado."
Isabela empurrou a caixa para ele.
"Sua mãe gostava daqui."
"Muito."
"Você vinha com ela?"
"Quando era mais novo."
Dante passou a mão pela tampa da caixa.
"Ela dizia que São Paulo ficava menos barulhenta aqui."
Isabela sorriu.
"Não sei em que Vila Madalena ela vivia."
Dante quase sorriu.
Quase.
"Talvez fosse outra época."
"Talvez."
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Dante abriu a caixa.
O cheiro de damasco e massa amanteigada subiu.
Ele olhou para a torta.
"Minha mãe comia primeiro a borda."
"Isso é estranho."
"Eu dizia a mesma coisa."
"Eu gosto dela."
"Você nem conheceu."
"Gostei mesmo assim."
Dante ergueu os olhos.
Havia algo diferente ali.
Uma vulnerabilidade que Isabela nunca tinha visto.
"Obrigado."
Ela apenas assentiu.
No fim da tarde, Lívia chegou da escola.
Entrou na confeitaria com a mochila batendo nas costas.
"Mãe!"
Isabela se virou.
Dante ainda estava perto da janela.
Lívia parou no meio do salão.
Olhou para ele.
Depois para a mãe.
Depois de novo para ele.
"É ele?"
Isabela sentiu o rosto esquentar.
"Ele quem?"
Lívia apontou.
"O namorado falso."
Dante ficou imóvel.
Isabela fechou os olhos.
"Lívia."
A menina se aproximou.
"Você é o namorado falso da minha mãe?"
Dante abriu a boca.
Nada saiu.
Isabela quase riu.
Pela primeira vez, Dante Montenegro não tinha resposta.
Lívia inclinou a cabeça.
"Você parece mais bravo de perto."
Isabela colocou a mão no rosto.
"Dante, desculpa."
Ele finalmente se abaixou um pouco.
"Eu não sou tão bravo."
Lívia analisou.
"É sim."
Dante olhou para Isabela.
"Ela sempre é assim?"
"Sempre."
"Entendi."
Lívia sorriu.
"Você gosta da minha mãe?"
O silêncio ficou absoluto.
Isabela quase derrubou uma bandeja.
"Lívia!"
A menina deu de ombros.
"Eu só perguntei."
Dante olhou para Isabela.
Desta vez, não desviou.
"Estou descobrindo."
Isabela sentiu o coração bater mais forte.
Lívia sorriu como se tivesse recebido exatamente a resposta que queria.
Naquela noite, Dante ficou até mais tarde.
Quando foi embora, Lívia já dormia no apartamento.
Isabela fechou a porta da confeitaria.
Subiu.
Tomou banho.
Tentou não pensar demais no que Dante tinha dito.
"Estou descobrindo."
Quase uma hora depois, ouviu um barulho vindo do andar de baixo.
Parou.
Outro som.
Seco.
Como algo batendo em madeira.
Isabela pegou o celular.
Desceu devagar.
A porta dos fundos estava aberta.
Seu coração disparou.
Acendeu a luz.
Uma gaveta tinha sido puxada.
Papéis estavam espalhados pelo chão.
Uma cadeira caída.
Isabela correu até o caixa.
O dinheiro continuava lá.
Abriu outra gaveta.
Nada.
Subiu até o pequeno armário onde guardava alguns objetos pessoais.
Seu relógio ainda estava lá.
Uma corrente de ouro da mãe também.
Nada de valor tinha sido levado.
Então ela olhou para a prateleira de baixo.
O espaço estava vazio.
Isabela sentiu o sangue gelar.
Ali ficava uma pasta azul.
Exames.
Laudos.
Pedidos médicos.
Relatórios cardiológicos.
Todo o histórico de Lívia.
A única coisa que tinha desaparecido da Doce Aurora eram os documentos médicos da filha.
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