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"Só Finja Que Está Comigo" Capítulo 3

正文开头

O corredor do fórum estava gelado demais.

Isabela percebeu isso assim que entrou.

Talvez não fosse o ar-condicionado.

Talvez fosse o medo.

Ela segurava a alça da bolsa com tanta força que os dedos doíam.

Do outro lado do corredor, Henrique já estava esperando.

Terno azul-marinho.

Relógio caro.

Cabelo perfeitamente alinhado.

Ao lado dele, Vitória Ferraz parecia ter saído de uma fotografia de revista.

Vestido bege.

Bolsa estruturada.

Salto discreto.

Tudo nela transmitia calma.

Controle.

Estabilidade.

Exatamente a imagem que queriam vender.

Isabela olhou para a própria roupa.

Camisa branca simples.

Calça escura.

Sapatos que já tinham sido usados em incontáveis dias dentro da Doce Aurora.

Por um segundo, sentiu vergonha.

Depois sentiu raiva de sentir vergonha.

Ela tinha trabalhado.

Tinha cuidado de Lívia.

Tinha passado noites acordada em hospital.

Nada daquilo era fracasso.

Mesmo assim, quando viu Dr. Marcelo saindo de uma sala com uma pasta grossa, o estômago voltou a se apertar.

"Isabela."

Ela virou.

Dante estava a alguns metros.

Sozinho.

Sem terno de advogado.

Sem pasta.

Sem explicação.

Apenas Dante Montenegro.

"Você veio."

"Eu disse que você não deveria enfrentar isso sem saber o que estava acontecendo."

"Isso não significa que eu pedi companhia."

"Eu sei."

Ela respirou fundo.

"Não quero que pensem que você está aqui como meu namorado."

Dante a encarou.

"Também não quero."

Isabela fez uma careta.

"Você podia fingir que isso ofendeu meu ego."

"Você não parece precisar de ajuda com o seu ego."

Ela quase respondeu.

A porta da sala de audiência se abriu.

O funcionário chamou os nomes.

O humor desapareceu.

Minutos depois, Isabela estava sentada diante da juíza Helena Moreira.

Henrique e Vitória ocupavam o lado oposto.

Dr. Marcelo se levantou primeiro.

"Excelência, o pedido é simples."

Isabela sentiu vontade de rir.

Nada daquilo era simples.

Marcelo continuou.

"O pai está solicitando guarda provisória até que a menor conclua o tratamento cardíaco necessário."

A juíza consultou os documentos.

"E qual é o fundamento?"

Marcelo abriu outra pasta.

"Instabilidade financeira e risco médico decorrente da incapacidade da mãe de custear o procedimento."

Isabela sentiu o rosto queimar.

Sua advogada, uma defensora indicada às pressas, tentou intervir.

"Excelência, não há qualquer negligência médica."

Marcelo ergueu uma folha.

"Temos registros de cobranças vencidas."

Outra folha.

"Parcelas hospitalares em atraso."

Outra.

"Exames pagos fora do prazo."

Isabela olhou para Henrique.

Ele evitou seus olhos.

Marcelo continuou com voz calma.

"O senhor Henrique Vasconcelos possui residência no Morumbi, plano de saúde empresarial premium e condições imediatas de arcar com qualquer intervenção necessária."

A juíza virou-se para Henrique.

"O senhor confirma?"

"Confirmo."

"Está disposto a custear integralmente a cirurgia da sua filha?"

Henrique assentiu.

"Hoje."

A palavra caiu sobre Isabela como um tapa.

Hoje.

Ele podia ter feito isso meses atrás.

Anos atrás.

A juíza fez outra pergunta.

"Há alguma condição?"

Henrique hesitou.

Marcelo respondeu por ele.

"Apenas que Lívia permaneça temporariamente sob os cuidados do pai até a conclusão do tratamento."

正文1

Isabela ficou rígida.

"Não."

A juíza ergueu os olhos.

"Senhora Isabela, sua advogada falará por você."

"Ele quer levar minha filha."

"Por favor, mantenha a calma."

"Eu estou calma."

Não estava.

Sua voz tremia.

"Ele ficou três anos sem pagar uma consulta."

Henrique finalmente olhou para ela.

"Isso não é verdade."

"Não?"

Isabela se virou para ele.

"Quantas vezes você ficou ao lado dela numa emergência?"

Henrique apertou o maxilar.

"Isso não está em discussão."

"Quantas?"

"Isabela."

"Quantas, Henrique?"

A juíza bateu a caneta levemente sobre a mesa.

"Senhora Isabela."

Ela fechou a boca.

Seus olhos arderam.

Vitória permanecia imóvel.

Quase serena.

Dr. Marcelo entregou mais documentos.

"Excelência, também há a questão da estrutura familiar."

A juíza leu.

Marcelo continuou.

"O senhor Henrique está casado, vive em residência adequada e oferece um ambiente com dois responsáveis presentes."

Isabela sentiu o golpe.

Morava sobre uma confeitaria.

Devia dinheiro.

Criava Lívia sozinha.

Tudo que tinha feito para sobreviver estava sendo transformado em prova contra ela.

Sua advogada tentou reagir.

"Estabilidade não pode ser medida apenas por patrimônio."

Marcelo respondeu:

"Quando existe uma cirurgia cardíaca urgente, capacidade financeira se torna relevante."

A juíza ficou em silêncio.

Folheou os papéis.

Isabela viu a expressão dela mudar.

Seu coração acelerou.

"Senhora Isabela", a juíza disse, "a documentação apresentada indica uma situação financeira bastante delicada."

Isabela sentiu as pernas enfraquecerem.

"Mas eu nunca deixei minha filha sem atendimento."

"Eu compreendo."

"Eu trabalho todos os dias."

"Também compreendo."

"Ela é minha filha."

Henrique fechou os olhos por um instante.

A juíza respirou fundo.

"Neste momento, eu preciso avaliar o que reduz o risco médico imediato."

Isabela sentiu o chão desaparecer.

Sua advogada tocou seu braço.

"Calma."

Mas ela já sabia.

A decisão estava vindo.

Então a porta da sala se abriu.

Todos olharam.

Dante entrou.

Mas não estava sozinho.

Atrás dele vieram dois advogados e uma mulher carregando três pastas.

Dr. Marcelo ficou branco.

Henrique se levantou.

"Que diabos é isso?"

A juíza franziu a testa.

"Quem são os senhores?"

Um dos advogados se aproximou.

"Excelência, meu nome é Dr. Gustavo Nogueira. Represento a senhora Isabela Oliveira a partir deste momento, caso o juízo autorize a substituição."

Isabela virou para Dante.

"Você fez o quê?"

Dante não respondeu.

A juíza consultou a defensora.

Após uma breve conversa, a substituição foi aceita.

Dr. Gustavo abriu a primeira pasta.

"Antes de qualquer decisão provisória, existem fatos importantes que não foram apresentados."

Marcelo endureceu.

"Isso é uma manobra."

"Não."

Gustavo olhou para ele.

"É documentação."

Ele entregou cópias.

"Durante os últimos três anos, o Hospital Santa Cecília enviou repetidas solicitações de participação nos custos médicos da menor ao pai."

Henrique empalideceu.

Isabela ficou imóvel.

A juíza começou a ler.

Gustavo continuou.

"Mensagens."

Outra página.

"E-mails."

Outra.

"Notificações formais."

Ele colocou mais um documento.

"Em nenhuma dessas ocasiões houve pagamento voluntário relevante por parte do senhor Henrique."

A juíza levantou os olhos.

正文2

"Senhor Henrique?"

Henrique olhou para Marcelo.

Marcelo respondeu:

"Havia questões entre os pais."

Gustavo não esperou.

"Questões entre adultos não anulam obrigações com uma criança."

O silêncio pesou.

Isabela olhou para Dante.

Ele continuava parado no fundo.

Sem triunfo.

Sem sorriso.

Apenas observando.

Gustavo abriu outra pasta.

"E há algo mais recente."

Marcelo fechou a expressão.

"Excelência, isso não estava no processo."

"Agora está", Gustavo respondeu.

Ele entregou um contrato.

"Apenas dois meses atrás, o senhor Henrique contratou uma cobertura médica complementar específica para Lívia."

A juíza leu.

"Dois meses?"

"Sim."

"Depois de três anos?"

"Exatamente."

Henrique se mexeu na cadeira.

Gustavo continuou.

"A contratação ocorreu poucas semanas antes do início das movimentações para pedir guarda provisória."

A juíza olhou diretamente para Henrique.

"Por quê?"

Ele demorou.

"Porque percebi que precisava assumir mais responsabilidade."

Isabela soltou uma risada curta.

Amarga.

"Que coincidência."

"Isabela", Henrique disse entre os dentes.

"Não fala meu nome como se eu fosse o problema."

Vitória tocou o braço dele.

Um gesto pequeno.

Controlado.

"Henrique."

Ele se calou.

Gustavo abriu a última pasta.

"Também temos registros mostrando que o pai tinha conhecimento prévio da gravidade do quadro da filha."

A juíza folheou tudo novamente.

Desta vez, mais devagar.

Quando falou, sua voz estava diferente.

"Não vou determinar mudança de guarda hoje."

Isabela parou de respirar.

Henrique se inclinou para frente.

"Excelência."

"Vou manter a situação atual até que seja feita uma análise mais ampla."

O ar voltou aos pulmões de Isabela de uma vez.

Seus olhos se encheram.

A juíza continuou.

"Ambas as partes deverão apresentar documentação financeira completa, registros médicos, histórico de participação parental e qualquer contrato recente que possa ter relação com o pedido."

Marcelo ficou rígido.

"Também será necessário esclarecer por que houve mudança tão repentina na postura do pai."

Isabela olhou para Henrique.

Ele desviou.

A audiência terminou pouco depois.

No corredor, ela saiu antes de todos.

Precisava de ar.

Henrique apareceu atrás.

"Você acha que venceu?"

Isabela parou.

Virou devagar.

"Por que agora?"

Henrique ficou imóvel.

Ela deu um passo.

"Três anos."

Outro.

"Três anos sem perguntar quanto custava um exame."

A voz dela falhou.

"Sem aparecer quando ela tinha febre."

Henrique abriu a boca.

Isabela não deixou.

"Sem ficar ao lado dela quando ela chorava porque tinha medo do hospital."

Vitória saiu da sala.

Dante vinha alguns metros atrás.

Isabela não tirava os olhos de Henrique.

"Por que agora?"

Ele apertou os lábios.

"Eu sou pai dela."

"Você sempre foi."

Henrique não respondeu.

"Então por que agora?"

Silêncio.

Foi Vitória quem falou.

"Porque agora ele pode dar à filha dele a vida que você nunca poderá."

Isabela virou para ela.

Vitória sustentou o olhar.

Fria.

Perfeita.

"Uma casa de verdade."

Isabela endureceu.

"Minha filha tem uma casa."

"Um plano de saúde sem limite."

"Ela tem uma mãe."

"Especialistas particulares."

"Ela tem uma mãe."

Vitória deu um meio sorriso.

"E dinheiro suficiente para não depender da sorte."

Isabela avançou um passo.

Dante segurou levemente seu braço.

Não para controlá-la.

Só para lembrar que ela não estava sozinha.

Vitória olhou para a mão dele.

Depois para Isabela.

"Você pode se ofender o quanto quiser."

Sua voz continuava tranquila.

"Mas não pode pagar uma cirurgia com orgulho."

Isabela empalideceu.

Henrique murmurou:

"Vitória, chega."

Ela se virou para ele.

E naquele momento, Dante percebeu.

Vitória tinha dito "filha".

Mas sua mão tinha descido automaticamente até o próprio abdômen.

Um gesto rápido.

Instintivo.

Henrique também viu.

Seu rosto mudou.

Vitória retirou a mão imediatamente.

Dante não disse nada.

Mais tarde, no escritório da Avenida Faria Lima, Bruno entrou carregando uma pasta muito mais grossa do que a anterior.

"Você pediu tudo sobre Henrique Vasconcelos."

Dante levantou os olhos.

"Conseguiu?"

"Mais do que eu esperava."

Bruno colocou documentos financeiros sobre a mesa.

"Vasconcelos Participações está no meio de uma reorganização patrimonial."

Dante começou a ler.

"Quanto?"

"Quatrocentos e oitenta milhões de reais."

Dante parou.

"Repete."

"R$ 480 milhões."

Bruno abriu uma página marcada.

"Parte do patrimônio vem de um fundo familiar criado pelo avô de Henrique."

"E o que isso tem a ver com Lívia?"

Bruno apontou para uma cláusula.

Dante leu uma vez.

Depois outra.

Sua expressão ficou dura.

"O beneficiário precisa comprovar descendência direta legal?"

"Sim."

"Não basta ser pai?"

"Não."

Bruno virou a página.

"Para liberar o bloco principal de participação, ele precisa demonstrar vínculo familiar ativo e responsabilidade direta sobre um herdeiro legítimo."

Dante ficou em silêncio.

Bruno completou:

"E uma decisão de guarda provisória serviria como prova quase perfeita."

Dante fechou a pasta devagar.

Naquele instante, tudo mudou.

Henrique talvez não estivesse lutando para recuperar a filha.

Talvez estivesse lutando para recuperar quatrocentos e oitenta milhões de reais.

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