"Só Finja Que Está Comigo" Capítulo 1
Às 7h42 de uma terça-feira, Isabela Oliveira estendeu a mão por cima do balcão de vidro da Doce Aurora, agarrou os dedos de um homem cujo sobrenome ela nem conhecia e sussurrou:
"Por favor… só finja que está comigo."
Ela nunca tinha tocado nele antes.
Durante quase um ano, aquele homem tinha sido apenas o cliente das terças-feiras.
Toda terça, antes que as ruas da Vila Madalena ficassem tomadas por carros, motos e gente apressada para o trabalho, ele entrava na confeitaria quase no mesmo horário.
Sempre sozinho.
Sempre sério.
Sempre com uma presença que fazia o pequeno salão parecer menor.
Ele pedia uma única torta de damasco.
Nunca café.
Nunca pão de queijo.
Nunca perguntava pelas novidades da vitrine.
Pagava em dinheiro, deixava mais do que devia e saía sem esperar o troco.
Do lado de fora, um sedã preto de luxo quase sempre o aguardava junto à calçada.
Isabela não sabia onde ele morava.
Não sabia o que fazia.
Nem sequer sabia seu nome.
Lívia, sua filha de sete anos, tinha inventado um apelido.
"O homem da sobrancelha brava."
Isabela preferia chamá-lo mentalmente de Senhor Damasco.
Naquela manhã, porém, nenhum dos dois apelidos parecia engraçado.
Porque Henrique Vasconcelos tinha acabado de entrar na Doce Aurora.
O ex-marido de Isabela continuava praticamente igual ao homem que ela havia deixado três anos antes.
Alto, bem vestido, cabelo impecável e aquele ar irritante de quem sempre acreditava ter o direito de ocupar qualquer espaço.
Ao lado dele vinha um homem de terno grafite carregando uma pasta de couro.
Isabela reconheceu Dr. Marcelo Ferraz na mesma hora.
Advogado.
Seu estômago afundou.
Henrique não tinha vindo tomar café.
A lembrança do envelope registrado guardado embaixo do caixa atravessou sua cabeça.
Depois vieram as contas do Hospital Santa Cecília.
Os exames.
Os boletos atrasados.
E a voz de Lívia perguntando, na noite anterior:
"Mãe, depois da cirurgia eu vou conseguir correr sem cansar?"
Isabela apertou os dedos do estranho com mais força.
"Por favor", repetiu, quase sem voz. "Só por alguns minutos."
O homem olhou para ela.
Seus olhos eram escuros e difíceis de ler.
Por um segundo, Isabela achou que ele soltaria sua mão.
Em vez disso, ele virou a palma lentamente e entrelaçou os dedos nos dela.
"Está bem."
Duas palavras.
Nada mais.
Mesmo assim, alguma coisa dentro do peito de Isabela afrouxou.
Henrique parou diante do balcão.
Seus olhos desceram diretamente para as mãos unidas.
Um sorriso frio apareceu em seu rosto.
"Então é isso."
Isabela ergueu o queixo.
"O que você quer?"
Henrique olhou para o estranho antes de responder.
"Isso não precisa ser desagradável."
"Quando você começa uma frase assim, geralmente significa que vai ser muito desagradável."
O homem ao lado dela pareceu segurar um sorriso.
Henrique percebeu.
"Vejo que você seguiu em frente."
Isabela não respondeu.
Dr. Marcelo colocou a pasta sobre o balcão e a abriu.
Uma pilha de documentos apareceu.
O coração de Isabela disparou.
"Isabela", Henrique disse. "Precisamos falar sobre a Lívia."
"Não."
"Você nem ouviu o que eu vim dizer."
"Não me interessa."
"Vai interessar."
Henrique tornou a olhar para o homem ao lado dela.
"Quer que ele saia?"
"Não."
A resposta saiu rápido demais.
Isabela odiou o tremor em sua própria voz.
Mas o estranho não soltou sua mão.
Henrique estreitou os olhos.
"Quem é você?"
O homem finalmente se mexeu.
Com a mão livre, abriu a pequena caixa branca que Isabela tinha preparado para ele minutos antes.
Pegou a torta de damasco.
Deu uma mordida tranquila.
Mastigou sem pressa.
Só então respondeu:
"Dante Montenegro."
O efeito foi imediato.
A caneta de Dr. Marcelo escapou de seus dedos.
Ela bateu contra o vidro do balcão com um estalo seco.
Isabela virou o rosto.
O advogado se abaixou depressa para apanhá-la.
Quando tornou a se levantar, estava pálido.
Muito pálido.
Henrique franziu a testa.
"Marcelo?"
O advogado não respondeu.
Seus olhos permaneceram presos em Dante.
Como se esperasse que ele dissesse que estava brincando.
Dante apenas terminou de mastigar.
Ainda segurando a mão de Isabela.
Dr. Marcelo fechou a pasta.
"Henrique, acho melhor remarcar."
Henrique soltou uma risada curta.
"O quê?"
"É minha recomendação."
"Nós acabamos de chegar."
"Eu sei."
"Então por que vamos embora?"
Marcelo olhou novamente para Dante.
"Porque é o mais prudente."
A arrogância de Henrique vacilou pela primeira vez.
Foi quase imperceptível.
Um endurecimento no maxilar.
Uma pequena hesitação.
Mas Isabela conhecia aquele homem havia anos.
Ela percebeu.
E, contra toda lógica, gostou.
Henrique recolheu os documentos com irritação.
"Isso não acabou."
Dante limpou delicadamente uma migalha do polegar.
"Provavelmente não."
Henrique lançou um último olhar para Isabela.
Depois para Dante.
Dr. Marcelo praticamente o conduziu até a porta.
Pela vitrine, Isabela viu os dois pararem na calçada.
Marcelo segurou o braço de Henrique e falou alguma coisa junto ao ouvido dele.
A expressão de Henrique mudou.
A irritação desapareceu.
No lugar dela surgiu algo que Isabela nunca tinha visto no rosto do ex-marido.
Medo.
Henrique olhou através do vidro.
Não para ela.
Para Dante.
Então os dois foram embora.
Assim que desapareceram, Isabela soltou a mão do estranho.
"Meu Deus."
Dante olhou para a própria palma vazia.
"Eu sinto muito."
"Por quê?"
"Porque eu literalmente agarrei você no meio do seu café da manhã."
"Eu não estava tomando café."
Isabela piscou.
"Você entendeu."
"Entendi."
"Eu entrei em pânico."
"Percebi."
Ela cobriu o rosto por um instante.
"Eu arrastei um desconhecido para o meu divórcio."
"Aparentemente."
"Meu péssimo divórcio."
"Aparentemente."
"E agora o Henrique deve estar achando que nós…"
Ela parou.
Dante levantou uma sobrancelha.
"Que nós o quê?"
Isabela sentiu o rosto esquentar.
"Esquece."
Dante colocou algumas notas sobre o balcão.
Isabela olhou para o dinheiro.
"Isso é muito mais do que a torta."
"Fique com o troco."
"Eu não aceito caridade."
Ele pegou o casaco.
"Então cobre pela atuação."
Apesar de tudo, Isabela riu.
O som escapou antes que ela pudesse impedir.
Dante também pareceu surpreso.
Por alguns segundos, a expressão dura dele suavizou.
Isabela observou aquele rosto e se lembrou da reação do advogado.
"Espera."
Dante já estava perto da porta.
Ele parou.
"Por que o Marcelo ficou daquele jeito quando ouviu seu nome?"
A suavidade desapareceu.
"Pergunte para Dona Teresa."
Isabela franziu a testa.
"A dona da floricultura?"
"Ela sabe de tudo o que acontece nesta rua."
"Você conhece a Teresa?"
"Compro flores."
"Para quem?"
Dante abriu a porta.
"Curiosidade demais antes das oito da manhã, Isabela."
Ela congelou.
"Como você sabe meu nome?"
Mas ele já tinha saído.
O sedã preto arrancou alguns segundos depois.
Isabela permaneceu olhando pela vitrine.
Só então percebeu que Dante nunca tinha perguntado seu nome.
Naquela tarde, Dona Teresa confirmou o que Isabela não queria ouvir.
"Montenegro?"
A florista quase deixou a xícara cair.
"Você segurou a mão de Dante Montenegro?"
"Segurei."
"Por vontade própria?"
"Eu estava desesperada."
Teresa olhou em direção à porta antes de abaixar a voz.
"Os Montenegro têm restaurantes, construtoras, galpões logísticos, imóveis comerciais… metade da cidade conhece alguma empresa ligada a eles."
"E a outra metade?"
Teresa hesitou.
"Conhece histórias."
"Que histórias?"
"As que gente inteligente não faz questão de investigar."
Isabela sentiu um arrepio.
"Ele é perigoso?"
Teresa pensou.
"Depende de quem está perguntando."
"Eu."
"Para você? Acho que não."
"Isso foi rápido demais."
Teresa suspirou.
"Dante não é temido porque grita. É justamente o contrário. Ele não faz escândalo, não ameaça duas vezes e não precisa lembrar ninguém de quem ele é."
Naquela noite, Isabela trancou a porta da confeitaria duas vezes.
Depois subiu os quatorze degraus estreitos até o pequeno apartamento sobre a Doce Aurora.
Lívia estava deitada no tapete da sala, cercada de lápis de cor.
"Mãe!"
Isabela forçou um sorriso.
"O que aconteceu aqui?"
"Estou organizando."
"Parece que uma papelaria explodiu."
"É porque você não entende meu sistema."
Lívia ergueu um desenho.
Uma árvore laranja sob um céu roxo.
"As árvores deviam ser laranjas o ano inteiro."
Isabela se sentou ao lado dela.
"Por quê?"
"Porque verde é sem graça."
Isabela riu, mas seus olhos se demoraram na filha.
Lívia tinha seus cabelos castanhos, os olhos grandes da avó e um coração que não havia se formado como deveria.
Os médicos diziam que o problema podia ser corrigido.
Também diziam que a cirurgia não podia esperar muito.
Quando Lívia adormeceu, Isabela abriu a gaveta da pequena mesa da cozinha.
Exames.
Boletos.
Propostas de parcelamento.
Avisos de cobrança.
Ela olhou o valor total até os números começarem a embaralhar.
Então viu o envelope de Henrique.
O mesmo que estava evitando abrir havia dois dias.
Isabela rasgou a borda.
Na segunda página, suas mãos começaram a tremer.
Henrique estava pedindo a guarda provisória de Lívia.
Isabela releu.
Depois releu outra vez.
O argumento era simples e cruel.
Henrique alegava que a instabilidade financeira da ex-mulher colocava em risco o tratamento médico da filha.
Dizia que possuía residência adequada.
Plano de saúde superior.
Condições para pagar especialistas particulares.
E, por estar novamente casado, oferecia o que os documentos chamavam de ambiente familiar estável.
Isabela levou a mão à boca.
"Não."
Continuou lendo.
Henrique tinha ignorado três anos de contas médicas.
Agora queria usar aquelas mesmas contas contra ela.
Então encontrou a data da audiência preliminar.
Quinta-feira.
Dois dias.
"Não… não, não…"
O celular tocou sobre a mesa.
Número desconhecido.
Isabela quase recusou.
Atendeu.
"Alô?"
"Senhora Isabela Oliveira?"
"Sim."
"Aqui é o doutor Rafael Martins, do Hospital Santa Cecília."
Ela ficou imediatamente alerta.
"Aconteceu alguma coisa com a Lívia?"
"Ela está bem. Não estou ligando por isso."
"Então por quê?"
Houve um pequeno silêncio.
"Alguém tentou obter informações detalhadas sobre o procedimento cardíaco dela."
Isabela se levantou.
"Quem?"
"Eu não sei. E é justamente por isso que estou ligando."
"O hospital passou as informações?"
"Não oficialmente."
O sangue de Isabela gelou.
"O que isso quer dizer?"
"Quer dizer que fizeram perguntas muito específicas."
"Que perguntas?"
Rafael respirou fundo.
"Uma em especial."
Isabela apertou o telefone.
"Qual?"
"Perguntaram se adiar a cirurgia da Lívia poderia colocar a vida dela em risco."
O apartamento pareceu ficar em silêncio absoluto.
Isabela mal conseguiu respirar.
"Por que alguém perguntaria uma coisa dessas?"
"Eu esperava que a senhora pudesse me dizer."
Depois da ligação, Isabela ficou parada no meio da cozinha.
Olhou para Lívia dormindo no quarto.
Depois caminhou até a janela.
Do outro lado da rua, sob a luz amarelada de um poste, havia um carro preto estacionado.
Por um segundo absurdo, ela pensou em Dante.
Então o vidro traseiro começou a baixar.
O homem sentado lá dentro não era ele.
Era um desconhecido.
Ele ergueu um celular.
Apontou diretamente para a janela do apartamento.
E tirou uma foto.
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