"O Segredo Atrás da Parede" Capítulo 6
Clara pediu desligamento da administração da carteira de Lívia na manhã seguinte.
A mensagem chegou às sete e vinte e três, enquanto Henrique ainda tomava café na cozinha da mansão.
Ele leu duas vezes.
"Estou renunciando à função de coadministradora. Lívia precisa de alguém independente."
Henrique ligou imediatamente.
Clara não atendeu.
Ele tentou de novo.
Nada.
Na terceira tentativa, recebeu apenas uma mensagem.
"Não agora."
Henrique ficou olhando para aquelas duas palavras.
Não agora.
Desde quando todo mundo ao redor dele decidia quando ele podia saber a verdade?
Ele respondeu:
"Você está fugindo?"
Clara demorou alguns minutos.
"Estou tentando impedir que eu continue fazendo parte do problema."
Henrique apertou o celular.
"Você já faz parte."
Nenhuma resposta.
Ele largou o aparelho sobre a bancada.
Lívia entrou na cozinha usando um pijama amarelo e carregando uma caixa de lápis de cor.
Dona Célia vinha atrás.
"Ela não quis comer no quarto."
Henrique tentou suavizar a expressão.
"Tudo bem."
Lívia subiu no banco da ilha e abriu uma folha.
Henrique colocou um sanduíche quente diante dela.
"Come um pouco."
A menina começou a desenhar.
Era a casa.
O telhado.
As janelas.
A piscina.
Mas a parede do depósito aparecia pintada de preto.
Henrique observou em silêncio.
"Por que essa parte está preta?"
Lívia não levantou os olhos.
"Porque é a parede ruim."
Ele sentou diante dela.
"A parede não fez nada."
"Fez."
"Como?"
"Escondeu a tia Clara."
Henrique respirou fundo.
"Quem te falou que tinha alguma coisa ali?"
"Ninguém."
"Então como você descobriu?"
"Eu ouvi."
"Antes de ontem?"
Lívia assentiu.
Henrique franziu a testa.
"Quando?"
"Outros dias."
Ele ficou imóvel.
"Você já tinha ouvido barulho antes?"
"Não igual."
"Que barulho?"
A menina parou de desenhar.
"Vanessa mexendo nas caixas."
Henrique se inclinou.
"Ela fazia isso quando?"
"Quando você não estava."
"Você entrava no depósito?"
Lívia fez que não.
"Ela não deixava."
Henrique sentiu um desconforto imediato.
"Desde quando?"
A menina deu de ombros.
"Faz tempo."
"Quanto tempo?"
"Não sei."
Dona Célia observava da porta.
Henrique manteve a voz calma.
"Vanessa dizia por que você não podia entrar?"
Lívia assentiu.
"Falava que tinha coisa perigosa."
"Que tipo de coisa?"
"Vidro."
"E mais?"
Lívia apertou o lápis.
"Ela ficava brava quando eu perguntava da parede."
Henrique sentiu o peito apertar.
"Você perguntava da parede?"
"Porque uma vez eu vi ela tirando o armário."
Ele demorou um segundo para entender.
"Vanessa moveu o armário antes?"
"Com dois homens."
"Quais homens?"
"Eu não conheço."
Henrique olhou para Dona Célia.
Ela também parecia surpresa.
"Quando foi isso?"
Lívia pensou.
"Antes do meu aniversário."
Henrique fez as contas.
Meses antes.
Muito antes de Clara ser trancada ali.
A descoberta o atingiu com força.
Vanessa não tinha escondido aquele cômodo apenas para manter Clara presa.
O esconderijo existia antes.
"Vanessa alguma vez falou da tia Clara quando você estava no depósito?"
Lívia assentiu.
Henrique tentou não demonstrar ansiedade.
"O que ela falou?"
A menina voltou a colorir.
"Que a tia Clara queria fazer você perder a casa."
Henrique congelou.
"Ela falou exatamente isso?"
Lívia olhou para ele.
"Falou."
"Quando?"
"No dia antes da tia Clara ficar atrás da parede."
"Por que ela disse isso?"
"Porque eu perguntei por que ela estava chorando."
"Vanessa estava chorando?"
"Estava."
"E o que mais ela falou?"
Lívia franziu a testa, tentando lembrar.
"Falou que a tia Clara queria contar coisas que iam destruir tudo."
Henrique sentiu o sangue esfriar.
"Que coisas?"
"Ela não falou."
A menina voltou ao desenho.
Henrique se recostou.
Até aquele momento, ele acreditara que a discussão entre Vanessa e Clara tinha começado por causa das transferências recentes.
Agora parecia que havia algo mais antigo.
Algo escondido atrás daquela parede muito antes de Clara entrar ali.
O celular vibrou.
Número desconhecido.
Henrique quase ignorou.
Atendeu.
"Alô?"
"Henrique?"
Ele reconheceu a voz.
Tomás Ferraz.
Irmão de Vanessa.
Henrique se levantou e saiu da cozinha.
"Se ligou para defender sua irmã, poupa meu tempo."
"Não liguei por isso."
"Então fala."
"É sobre a Atlântica."
Henrique parou no corredor.
"Estou ouvindo."
Tomás respirou fundo.
"Minha irmã usou a conta da empresa."
"Eu já sei."
"Você não sabe tudo."
Henrique fechou os olhos.
Aquela frase já tinha se tornado insuportável.
"Então me conta tudo."
"Ela me pediu ajuda pela primeira vez há alguns meses."
"Ajuda para movimentar dinheiro?"
"Ela disse que a conta pessoal dela estava bloqueada por causa de uma análise de fraude."
"E você acreditou?"
"Ela é minha irmã."
"Essa desculpa está ficando popular."
Tomás ignorou.
"Vanessa disse que você estava ajudando com as despesas da nossa mãe."
Henrique ficou em silêncio.
"Eu?"
"Ela disse que você não queria fazer transferências direto para a clínica por causa da contabilidade patrimonial."
"Isso não faz sentido."
"Para mim fez na hora."
"R$ 290 mil fizeram sentido?"
"Ela falou que incluía atrasados, fisioterapia e um adiantamento."
Henrique passou a mão pelo rosto.
"Você nunca perguntou por que o dinheiro vinha da Montenegro?"
"Perguntei."
"E?"
"Ela disse que você tinha autorizado."
Henrique sentiu a raiva crescer.
"Ela usou meu nome."
"Sim."
"Quantas vezes passou dinheiro pela Atlântica?"
Tomás ficou em silêncio.
"Tomás."
"Três."
Henrique fechou a mão.
"Três?"
"Duas foram menores."
"Valores."
"Uma perto de R$ 90 mil."
"E a outra?"
"Pouco mais de R$ 120 mil."
Henrique fez as contas mentalmente.
Aquilo se encaixava em parte das transferências já atribuídas a Vanessa.
"Você ficou com alguma coisa?"
"Não."
"Quero prova."
"Eu mandei todos os extratos para a Dra. Marina hoje cedo."
Henrique parou.
"Você fez isso sem ninguém pedir?"
"Fiz."
"Por quê?"
Tomás respirou fundo.
"Porque ontem à noite Vanessa me ligou."
Henrique ficou alerta.
"O que ela queria?"
"Que eu apagasse uns e-mails."
O corredor pareceu silencioso demais.
"Que e-mails?"
"Os que ela mandou quando pediu para usar a conta."
"Você apagou?"
"Não."
"Por quê?"
Tomás demorou.
"Porque eu tenho uma filha também."
Henrique não respondeu.
Tomás continuou:
"Eu não sabia de onde vinha o dinheiro."
"Agora sabe."
"Agora sei."
"E vai mandar os e-mails."
"Já mandei."
Henrique encerrou a ligação sem se despedir.
Ficou alguns segundos parado.
Depois telefonou para Marina.
Ela confirmou.
Os extratos e os e-mails tinham chegado.
"Isso ajuda muito."
Henrique perguntou:
"Prova que Vanessa fez tudo?"
Marina ficou em silêncio.
"Prova que Vanessa mentiu para Tomás e usou a empresa dele como passagem."
"E o resto?"
"Ainda não."
Henrique olhou para a porta do depósito ao fundo do corredor.
A parede continuava destruída.
O armário permanecia deitado no chão.
"Marina, tem alguma coisa errada com aquele quarto."
"Como assim?"
"Vanessa escondia aquilo meses antes de Clara ser presa."
A advogada ficou em silêncio.
"Tem certeza?"
"Lívia viu."
"Então não mexe em mais nada."
"Eu já quebrei a parede."
"Estou falando de documentos, caixas, objetos."
Henrique respirou fundo.
"Clara sabe."
"Como você sabe?"
"Porque Vanessa disse para Lívia que Clara queria fazer a gente perder a casa."
Marina respondeu imediatamente:
"Encontra sua irmã."
Henrique olhou o celular.
Clara ainda não tinha respondido.
Ele ligou novamente.
Nada.
Naquele mesmo momento, do outro lado da cidade, Clara estava na Vila Leopoldina.
Ela tinha entrado na empresa antes do horário do almoço.
Não foi para a sala de Henrique.
Nem para o financeiro.
Desceu para o arquivo antigo.
Ali, caixas de documentos de mais de uma década ocupavam estantes de metal.
Notas fiscais.
Folhas de pagamento.
Contratos.
Comprovantes que nunca tinham sido digitalizados.
Clara abriu uma caixa marcada com o ano de dez anos atrás.
Nada.
Outra.
Nada.
Na terceira, encontrou pastas da época em que Augusto Montenegro ainda comandava a empresa.
O pai deles.
Clara se ajoelhou no chão.
Abriu uma pasta.
Folhas antigas.
Planilhas impressas.
Comprovantes bancários.
Um envelope com anotações à mão.
Ela começou a ler.
Parou.
Voltou para a primeira página.
Leu novamente.
Seu rosto perdeu a cor.
Clara pegou o celular.
Ligou para Henrique.
Ele atendeu no primeiro toque.
"Finalmente."
"Henrique."
A voz dela fez a raiva desaparecer por um instante.
"O que aconteceu?"
"Vanessa não mentiu sobre tudo."
Henrique ficou imóvel.
"Sobre o quê?"
Clara olhou para os papéis espalhados no chão.
"Sobre como ela aprendeu a fazer isso."
Henrique respirou fundo.
"Eu já sei que você mostrou o sistema."
"Não estou falando de mim."
Silêncio.
"Então está falando de quem?"
Clara passou os dedos por uma folha amarelada.
"Eu encontrei uma folha de pagamento antiga."
"De quando?"
"Dez anos atrás."
Henrique franziu a testa.
"E daí?"
"Tem transferências que não deveriam estar nela."
"Que transferências?"
Clara fechou os olhos.
"Do pai."
Henrique ficou sem reação.
Augusto Montenegro tinha morrido três anos antes.
Durante toda a vida, Henrique acreditara que o pai lhe ensinara cada regra importante sobre aquela empresa.
"O que o pai deixou?"
Clara olhou para o número de uma conta impresso no rodapé da folha.
Quando respondeu, sua voz quase falhou.
"Uma conta que nunca deveria existir."
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