"O Segredo Atrás da Parede" Capítulo 3
Na manhã seguinte, Vanessa já não estava na mansão.
Henrique havia pedido que ela deixasse Jardim Europa ainda naquela noite e ficasse em um hotel até que tudo fosse esclarecido.
Ela levou apenas uma mala.
Antes de entrar no carro, tentou falar com Lívia.
Henrique não permitiu.
Agora, sentado à mesa da sala de jantar, ele tinha diante de si dois notebooks, extratos bancários, relatórios impressos e uma xícara de café que já havia esfriado.
Clara estava do outro lado.
As marcas nos pulsos ainda eram visíveis.
Mas Henrique já não conseguia olhar para a irmã apenas como a vítima que encontrara atrás da parede.
A pergunta da noite anterior continuava entre os dois.
Se Vanessa tinha movimentado R$ 605 mil, quem era responsável pelo restante?
Henrique abriu o relatório.
"Vamos começar de novo."
Clara assentiu.
"Do início."
"Sem esconder nada."
Ela demorou um segundo.
"Sem esconder nada."
Henrique girou o notebook.
Quatro movimentações chamavam atenção.
R$ 210 mil.
R$ 250 mil.
R$ 305 mil.
R$ 340 mil.
Parte dos valores havia retornado.
Outros tinham passado por contas diferentes antes de desaparecer dos relatórios consolidados.
Henrique apontou para a primeira operação.
"Essa."
Clara ficou imóvel.
"R$ 210 mil."
"Eu estou vendo."
"Quem autorizou?"
Ela não respondeu.
Henrique levantou os olhos.
"Clara."
A irmã respirou fundo.
"Eu."
Ele esperou.
Achou que tivesse entendido errado.
"Você o quê?"
"Eu fiz essa transferência."
Henrique afastou lentamente as mãos do computador.
"Não."
"Henrique..."
"Não."
Ele se levantou.
"Você passou a noite inteira falando do que Vanessa fez."
"Porque ela fez."
"E você também?"
"Não foi a mesma coisa."
Henrique soltou uma risada curta.
"Claro."
"Não foi."
"Você tirou dinheiro da conta da minha filha?"
"Por seis dias."
Henrique ficou olhando para ela.
"Seis dias?"
"Eu devolvi tudo."
"Isso muda o fato de você ter pegado?"
"Não."
"Então para de falar como se mudasse."
Clara apertou os lábios.
Henrique caminhou até a janela.
Do lado de fora, o jardim parecia absurdamente normal.
Um funcionário recolhia folhas perto da piscina.
Um caminhão fazia uma entrega na casa vizinha.
Dentro daquela sala, Henrique começava a descobrir que as duas pessoas em quem mais confiava tinham usado o patrimônio de sua filha sem contar a ele.
"Por quê?"
Clara demorou a responder.
"A Montenegro ia atrasar a folha."
Henrique se virou.
"Que folha?"
"A folha de pagamento."
"Quando?"
"Oito meses atrás."
Ele franziu a testa.
Lembrou imediatamente daquele período.
Um grande escritório de arquitetura tinha contratado a Montenegro Marcenaria & Interiores para fornecer painéis, portas e mobiliário sob medida para três empreendimentos de alto padrão.
O pagamento final atrasara.
Henrique sabia disso.
O que não sabia era da gravidade.
"Você disse que tínhamos caixa."
"Eu menti."
A resposta veio sem defesa.
Henrique voltou para a mesa.
"Quantos funcionários?"
"Dezoito."
"Todos?"
"Produção, instalação, administrativo. Todo mundo."
"E você decidiu usar o dinheiro da Lívia?"
"Eu tinha dois dias."
"Você podia ter me ligado."
"Você estava em Belo Horizonte fechando o contrato do hotel."
"E daí?"
"Se você voltasse, perderíamos o contrato."
Henrique bateu a palma da mão na mesa.
"Era minha decisão!"
Clara também se levantou.
"Eu estava tentando salvar a empresa!"
"Com o dinheiro de uma criança!"
"Com dinheiro que eu sabia que conseguiria devolver."
"Você não sabia."
"Eu sabia que o cliente ia pagar."
"Você esperava."
"Ele pagou."
"Isso não transforma o que você fez em certo."
Clara ficou em silêncio.
Henrique apontou para o extrato.
"Quando voltou?"
"Seis dias depois."
Ela abriu outra página.
Ali estava.
R$ 210 mil retornaram integralmente para a carteira de investimentos de Lívia seis dias depois.
Nenhum centavo faltava naquela operação.
Henrique olhou para o registro por vários segundos.
Clara parecia esperar que aquilo diminuísse a raiva dele.
Não diminuiu.
"Mariana morreu acreditando que esse dinheiro protegeria a filha dela."
Clara baixou os olhos.
"Eu sei."
"Não."
A voz de Henrique ficou baixa.
"Se soubesse, não teria tocado."
Clara respirou fundo.
"Você acha que eu não pensei nela?"
"Não usa Mariana para justificar isso."
"Eu não estou justificando."
"Está desde que sentou aí."
Clara fechou o notebook com força.
"Quer saber o que eu pensei?"
Henrique não respondeu.
"Eu pensei no Sebastião, que trabalha com a gente há vinte e um anos."
"No Jonas, que tinha acabado de ter gêmeos."
"Na Rosângela, que sustenta a mãe."
Ela apontou para os documentos.
"Eu tinha dezoito salários vencendo e dinheiro suficiente para pagar três."
Henrique manteve os olhos nela.
"Então você devia ter me contado."
"Eu tive medo."
"De quê?"
"De você fazer exatamente o que o nosso pai fazia."
Henrique endureceu.
"Não coloca o pai nisso."
"Você teria vendido alguma coisa sua, coberto o buraco e dito que estava tudo bem."
"E qual seria o problema?"
"Você já estava cobrindo problemas demais."
Henrique soltou o ar lentamente.
"Então resolveu me proteger mentindo para mim."
"Resolvi proteger a empresa."
"Com o dinheiro da Lívia."
Clara não respondeu.
Aquilo encerrou a discussão.
Henrique voltou a olhar os registros.
Alguma coisa ainda o incomodava.
Se os R$ 210 mil tinham voltado integralmente, por que aquela operação aparecia no levantamento de Clara junto com as retiradas suspeitas?
Ele perguntou.
"Porque foi onde tudo começou."
Henrique ergueu o rosto.
"Explica."
Clara passou a mão pela testa.
"Vanessa viu."
O nome fez o ambiente mudar.
"Viu o quê?"
"A transferência."
"Como?"
"Ela estava aqui em casa."
Clara puxou novamente o notebook para perto.
"Eu estava organizando documentos fiscais no escritório. Vanessa entrou para procurar uma pasta da declaração de vocês."
Henrique já não gostava da direção da conversa.
"E?"
"Ela viu o portal aberto."
"Você deixou a conta da Lívia aberta na frente dela?"
"Por alguns minutos."
"Clara..."
"Eu sei."
"Não, você aparentemente não sabe."
Ela ignorou.
"Vanessa viu o valor e perguntou por que eu estava transferindo R$ 210 mil."
"E o que você respondeu?"
Clara hesitou.
Henrique percebeu imediatamente.
"O que você contou para ela?"
"Que a empresa estava com um problema temporário."
"Só isso?"
"Henrique..."
"Só isso?"
"Não."
Ele fechou os olhos.
Clara continuou.
"Ela perguntou como eu conseguia movimentar o dinheiro tão rápido."
"E você ensinou?"
"Não desse jeito."
"Existe outro jeito de responder?"
"Eu mostrei como funcionava a autorização."
Henrique afastou a cadeira.
"Meu Deus."
"Eu não passei sua senha."
"Você mostrou o sistema."
"Eu nunca imaginei que ela faria aquilo."
"Você mostrou para minha esposa exatamente como acessar o patrimônio que Mariana deixou para Lívia."
"Eu mostrei uma tela."
"Você mostrou uma porta."
Clara ficou calada.
A frase permaneceu entre os dois.
Uma porta.
Henrique quase riu da ironia.
Na noite anterior, ele havia derrubado uma parede para encontrar uma porta que Vanessa queria esconder.
Agora descobria que Clara havia aberto outra para ela meses antes.
"E ela perguntou mais alguma coisa?"
Clara assentiu.
"Quanto tempo demorava para uma movimentação aparecer no relatório consolidado."
Henrique sentiu o estômago revirar.
"E isso não te pareceu estranho?"
"Na época, não."
"Como não?"
"Ela disse que queria entender porque aquele dinheiro fazia parte do patrimônio familiar."
"Não fazia."
"Eu sei disso agora."
"Você sabia disso antes."
Clara apertou os olhos.
Henrique voltou aos extratos.
Precisava sair daquela discussão emocional e encontrar alguma coisa concreta.
"Os R$ 250 mil e os R$ 305 mil."
Clara apontou para a tela.
"Esses fazem parte dos valores que eu consegui ligar à Vanessa."
"E os R$ 340 mil?"
"É mais complicado."
"Por quê?"
"Porque parte retornou por outra conta."
Henrique aproximou o notebook.
Os valores tinham sido fracionados.
Uma parcela havia voltado.
Outra fora transferida novamente.
Ele começou a somar.
Clara acompanhava em silêncio.
Então Henrique encontrou uma operação separada.
Não estava entre as quatro linhas principais porque havia sido classificada como transferência autorizada.
R$ 290 mil.
Ele franziu a testa.
"Que movimentação é essa?"
Clara se inclinou.
A expressão dela mudou.
Henrique abriu os detalhes.
Data.
Horário.
Usuário responsável.
Autorização.
Ele leu duas vezes.
"Está no meu nome."
"Eu sei."
Henrique olhou para a irmã.
"Eu autorizei isso?"
"Não."
"Como você sabe?"
Clara apontou para a data.
Henrique olhou.
Uma terça-feira.
Às 9h14.
A memória veio imediatamente.
"Eu estava em Campinas."
Clara assentiu.
Henrique tinha passado aquela manhã em uma reunião com os responsáveis por um novo condomínio de luxo.
Havia fotos.
Mensagens.
Notas fiscais.
Dezenas de pessoas podiam confirmar.
Ele só retornara a São Paulo no fim da tarde.
"Você estava onde?"
"Na fábrica."
"Vanessa?"
"Segundo ela, no Morumbi com a mãe."
Henrique abriu os dados técnicos da transação.
O sistema registrava o endereço eletrônico de origem.
Ele esperava ver a rede da mansão.
Ou algum acesso remoto.
Não era nenhum dos dois.
Clara aproximou o rosto da tela.
"Espera."
Ela copiou a sequência numérica e abriu os registros administrativos da empresa.
Henrique viu o rosto da irmã perder a cor.
"O que foi?"
Clara não respondeu.
"Clara."
Ela conferiu outra vez.
Depois uma terceira.
Henrique perdeu a paciência.
"De onde saiu essa transferência?"
Clara ergueu lentamente os olhos.
"Da Montenegro."
"Da empresa?"
"Sim."
"De qual computador?"
Ela respirou fundo.
"Do seu."
Henrique ficou imóvel.
Clara virou a tela para ele.
O endereço correspondia à rede interna da sala particular de Henrique na sede da Montenegro Marcenaria & Interiores, na Vila Leopoldina.
Naquela manhã, ele estava a quase cem quilômetros dali.
Mesmo assim, alguém tinha entrado na conta de Lívia com as credenciais dele.
E movimentado R$ 290 mil.
Clara olhou para o irmão.
"Alguém estava sentado na sua sala usando o seu computador."
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4