"O Segredo Atrás da Parede" Capítulo 2
As sirenes chegaram à mansão pouco depois das oito da noite.
Uma ambulância parou diante do portão de Jardim Europa, seguida por uma viatura da Polícia Militar.
Henrique permaneceu ao lado de Clara enquanto os socorristas examinavam sua pressão, seus pulsos e o estado de desidratação.
Lívia estava no andar de cima com Dona Célia, a vizinha que ajudava a cuidar dela desde pequena.
Henrique tinha insistido para que a filha não ficasse perto da confusão.
Mas antes de subir, Lívia segurou a mão dele e perguntou:
"Você vai deixar a Vanessa fechar a parede de novo?"
Henrique se ajoelhou diante dela.
"Não."
"Promete?"
"Prometo."
A menina assentiu, mas não pareceu totalmente convencida.
Henrique só percebeu o peso daquela promessa depois que a porta do quarto se fechou.
No depósito, dois policiais fotografavam a parede quebrada, a porta de metal e o armário tombado no chão.
Vanessa estava sentada numa cadeira perto do corredor.
Ela não chorava.
Ainda.
Um dos policiais perguntou:
"A senhora trancou Clara Montenegro naquele cômodo?"
Vanessa levantou os olhos.
"Não."
Clara, sentada na maca, soltou uma risada seca.
"Ela me empurrou para dentro."
Vanessa virou o rosto.
"Você entrou porque queria olhar as caixas."
"E você fechou a porta."
"Foi um acidente."
"Depois você empurrou o armário de volta."
Vanessa apertou os dedos uns contra os outros.
Henrique observava cada movimento.
Quanto mais ela tentava parecer calma, mais ele percebia o medo.
O policial continuou:
"A porta podia ser aberta por dentro?"
Clara respondeu antes de Vanessa.
"Podia."
Vanessa respirou aliviada.
"Está vendo?"
Clara completou:
"Antes."
O silêncio voltou.
Henrique franziu a testa.
"Antes?"
Clara ergueu o pulso vermelho.
"Alguém removeu a trava interna."
Vanessa olhou para a porta de metal.
Foi rápido.
Mas Henrique viu.
O policial também.
"Quem removeu?"
Vanessa balançou a cabeça.
"Eu não sei."
Clara se inclinou para frente.
"Você sabia que eu estava lá."
"Eu sabia que você entrou."
"Você me ouviu bater."
"Eu achei que você ia sair."
"Como?"
Vanessa perdeu a paciência.
"Eu não sei, Clara!"
Henrique deu um passo à frente.
"Chega."
Vanessa olhou para ele.
Por um instante, a dureza desapareceu.
"Henrique, por favor."
Ele não respondeu.
Os socorristas sugeriram levar Clara ao hospital.
Ela recusou.
"Eu só preciso de água e algumas horas de descanso."
Henrique quase discutiu.
Mas Clara o interrompeu.
"Eu não vou embora antes de você entender o que aconteceu."
Vanessa soltou o ar pelo nariz.
"Claro."
Henrique virou.
"Não fala com ela."
"Ela está fazendo parecer que eu tentei matar alguém."
"Você escondeu minha irmã atrás de uma parede."
"Não foi assim."
"Então começa a explicar."
Vanessa abriu a boca.
Clara falou primeiro.
"A gente brigou por causa das transferências."
Henrique sentiu a mandíbula travar.
O dinheiro.
Desde o momento em que Clara mencionara Mariana, aquela palavra não saía da cabeça dele.
"Que transferências?"
Vanessa levantou rapidamente.
"Isso é assunto de família."
Henrique olhou para ela.
"Você acabou de se tornar o motivo de a polícia estar dentro da minha casa."
Ela parou.
"Então não decide agora o que é assunto de família."
Clara pegou o celular sobre a maca.
"A conta da Lívia."
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Você está falando da carteira de investimentos?"
Clara assentiu.
Depois da morte de Mariana, Henrique havia organizado todo o dinheiro do seguro de vida e parte dos investimentos dela em uma estrutura separada.
Aquele patrimônio era de Lívia.
Para estudo.
Saúde.
Futuro.
Henrique nunca tinha usado um centavo.
Ele sempre considerou aquela conta intocável.
"Como Vanessa sabia disso?"
Vanessa desviou o olhar.
Henrique deu um passo na direção dela.
"Eu perguntei como você sabia."
"Você me mostrou a pasta patrimonial quando a gente se casou."
"Eu mostrei documentos gerais."
"Ela estava lá."
"Saber que existe não dá acesso."
Vanessa ficou calada.
Clara respondeu:
"Ela encontrou os dados do portal."
Henrique virou para a irmã.
"Como?"
Clara hesitou.
Vanessa soltou uma risada amarga.
"Pergunta para ela."
Henrique olhou de uma para a outra.
"Eu estou perguntando para as duas."
Clara fechou os olhos por um segundo.
"Depois."
Henrique quase perdeu a paciência.
"Não existe depois."
"Henrique..."
"Eu encontrei você presa dentro da parede da minha casa."
Ele apontou para Vanessa.
"E ela sabe mexer no dinheiro da minha filha."
A voz dele baixou.
"Então ninguém vai decidir o que eu posso ou não saber."
Vanessa começou a chorar.
Não era um choro alto.
Era pior.
As lágrimas simplesmente começaram a cair.
"Eu não roubei para comprar joias."
Henrique ficou imóvel.
Clara virou o rosto.
Vanessa continuou:
"Eu não comprei carro."
"Não viajei."
"Não mandei dinheiro para amante."
Henrique sentiu o peito apertar.
"Então você está admitindo?"
Ela apertou os olhos.
"Eu usei."
A palavra atingiu Henrique com mais força do que ele esperava.
"Usou?"
"Eu ia devolver."
Ele riu sem humor.
"Você está falando do dinheiro de uma criança como se tivesse usado meu cartão de crédito."
Vanessa passou as mãos pelo rosto.
"Minha mãe precisava."
Henrique franziu a testa.
"Heloísa?"
Vanessa assentiu.
Depois do AVC, Heloísa Ferraz tinha perdido parte da mobilidade.
Nos últimos dois anos, vivia em uma clínica particular no Morumbi.
Henrique já havia visitado o lugar.
Quarto individual.
Fisioterapia.
Enfermagem vinte e quatro horas.
Uma estrutura cara.
Muito cara.
Mas Vanessa sempre dizia que o plano de saúde e um seguro antigo cobriam quase tudo.
Henrique perguntou:
"Você não disse que o seguro pagava?"
"Pagava."
"Pagava?"
"Até começar a negar procedimentos."
Vanessa respirou fundo.
"Depois cortaram parte da fisioterapia."
"Depois o quarto."
"Depois a enfermagem especial."
Henrique sentiu a raiva se misturar com uma confusão que ele odiava.
"Por que você não me contou?"
Vanessa olhou para ele como se aquela pergunta fosse injusta.
"Porque eu sabia exatamente o que você ia fazer."
"Você não sabe."
"Sei."
"Então fala."
"Você ia pagar."
Henrique ficou em silêncio.
Vanessa riu entre lágrimas.
"É."
"Você ia pagar."
"E depois eu passaria o resto da vida ouvindo que minha mãe vive porque o grande Henrique Montenegro decidiu salvar a família da esposa."
"Eu nunca faria isso."
"Talvez não em voz alta."
Clara revirou os olhos.
"Então foi por orgulho?"
Vanessa se virou para ela.
"Não fala da minha mãe."
"Você roubou da Lívia."
"Eu estava tentando impedir que minha mãe fosse jogada em qualquer lugar."
Clara ficou de pé com dificuldade.
"Não chama de empréstimo."
"Eu ia repor."
"Você tirou sem autorização."
Vanessa perdeu o controle.
"Porque a clínica deu cinco dias!"
Henrique ficou imóvel.
Vanessa apontou para ele.
"CINCO."
A voz dela quebrou.
"Eles disseram que, se eu não quitasse o atraso, iam transferir minha mãe para outra unidade."
"Uma hora de distância."
"Sem o fisioterapeuta dela."
"Sem a enfermeira que sabe quando ela está com dor antes mesmo de ela conseguir falar."
Henrique lembrou de Heloísa tentando formar palavras durante um almoço de família.
Vanessa tinha cortado a carne da mãe em pedaços pequenos.
Tinha ajeitado o guardanapo.
Tinha fingido que não via quando Heloísa começou a chorar de vergonha.
A lembrança quase suavizou alguma coisa nele.
Quase.
Então ele lembrou de Lívia no depósito.
A mão de Vanessa sobre a boca dela.
"Você tirou dinheiro da minha filha."
Vanessa respirou fundo.
"Eu estava tentando manter minha mãe viva com dignidade."
Henrique olhou diretamente para ela.
"Quanto você tirou da minha filha?"
Vanessa não respondeu.
"Quanto?"
Ela começou a chorar outra vez.
"Eu não sei o valor exato."
Clara soltou uma risada incrédula.
"Claro que sabe."
"Clara, cala a boca."
"Você sabia cada centavo quando pediu ajuda."
Henrique virou para a irmã.
"Quanto?"
Clara não respondeu imediatamente.
Ela pegou o celular.
Abriu um arquivo.
Henrique viu uma sequência de datas e valores.
Transferências.
Mais de uma.
Muito mais de uma.
Clara ergueu os olhos.
"Pelo menos seiscentos e cinco mil reais."
Henrique sentiu como se tivesse levado um soco.
"Quanto?"
"Seiscentos e cinco mil."
Vanessa chorava em silêncio.
Henrique caminhou até a bancada e apoiou as mãos nela.
Por alguns segundos, ninguém falou.
R$ 605 mil.
Da conta de Lívia.
Do dinheiro de Mariana.
Ele virou para Vanessa.
"Você tirou mais de meio milhão da minha filha?"
"Não foi de uma vez."
A frase fez Henrique explodir.
"Isso deveria melhorar alguma coisa?"
"Eu devolvi parte."
"Parte?"
"Sim."
"Quanto?"
Vanessa não respondeu.
Henrique bateu a mão na bancada.
"QUANTO?"
Um policial olhou na direção deles.
Henrique respirou fundo e baixou a voz.
Clara se aproximou.
"Henrique, tem mais."
Ele fechou os olhos.
Não queria ouvir.
Mas sabia que precisava.
"O quê?"
Clara mostrou a tela.
"Eu comecei a conferir tudo ontem."
"Foi por isso que eu vim aqui."
"Eu percebi que alguns lançamentos não batiam com os relatórios trimestrais."
Henrique pegou o telefone da mão dela.
Os números pareciam absurdos.
R$ 210 mil.
R$ 250 mil.
R$ 305 mil.
R$ 340 mil.
Algumas entradas.
Algumas saídas.
Estornos.
Repasses.
Autorizações.
Ele sentiu uma dor atrás dos olhos.
"Isso tudo é dela?"
Clara ficou em silêncio.
Henrique levantou o rosto.
"Clara."
Ela respirou fundo.
"Não."
Vanessa parou de chorar.
Henrique sentiu um frio atravessar o corpo.
"Quanto saiu no total?"
Clara olhou para o chão.
"Mais de um milhão e cem mil reais."
Ele ficou olhando para ela.
Sem entender.
"Você acabou de dizer que Vanessa pegou seiscentos e cinco mil."
"Eu disse que é o que eu consigo provar que passou por ela."
Henrique largou o telefone sobre a bancada.
"Então me explica o resto."
Clara não respondeu.
"Clara."
Nada.
Henrique deu um passo na direção da irmã.
A expressão dela tinha mudado.
Não parecia mais a mulher que acabara de sair de um quarto escondido.
Parecia alguém encurralado.
Henrique percebeu.
E foi isso que mais o assustou.
"Se Vanessa pegou seiscentos mil..."
Ele parou diante da irmã.
"...quem pegou o resto?"
Clara baixou os olhos.
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