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"Minha Avó Disse Que Meu Pai Estava Morto" Capítulo 4

正文开头

A voz de Juliano ficou presa na sala depois que o técnico pausou o arquivo.

Helena sentou no braço do sofá. Durante nove anos, carregara a certeza de que sua recusa matara Lúcia. A gravação revelava uma escolha deliberada: alguém impedira que o aviso chegasse.

— Quem estava com ele? — perguntou Roman.

O técnico ampliou os últimos segundos. Havia motor, porta e uma resposta deformada. A chamada passara pela central do escritório de Estevão. Juliano trabalhava como contador da família e possuía acesso.

Saldanha manteve as mãos nos bolsos.

— Isso comprova a interceptação. Ainda precisamos dos registros de manutenção ou de uma confissão para ligar Juliano aos freios.

Helena levantou a cabeça.

— Estevão guardava recibos num cofre da antiga fábrica de cerâmica. Juliano transformou o local em depósito.

Nora cruzou os braços.

— Por que só contou agora?

— Lá também estão atas que assinei.

A frase veio sem pedido de compreensão. Helena entregou o código e desenhou a passagem entre os antigos fornos. Saldanha organizou a busca. Nenhum familiar iria.

Ao amanhecer, Inês reuniu todos. Solicitaria a suspensão de Helena como administradora do fundo, o bloqueio das contas da fundação e o restabelecimento formal de Nora como tutora testamentária. Roman poderia pedir guarda provisória.

Sophie estava no sofá com a carta da mãe.

— Guarda provisória quer dizer que vou morar com ele?

A audiência emergencial ocorreu por videoconferência naquela manhã. A juíza perguntou diretamente a Sophie onde desejava dormir.

— Na casa da Nora.

— Quer ver seu pai?

Sophie olhou para Roman na outra ponta da mesa.

— Quero. Com a Clara perto no começo.

Roman pediu a palavra.

— Concordo com tudo.

A juíza fixou que nenhum representante da fundação poderia falar com a menina, usar sua imagem ou movimentar o patrimônio. Helena teria contato apenas se Sophie e a equipe terapêutica aceitassem.

Depois da chamada, Roman saiu para o corredor. Inês o encontrou encostado na parede.

— Você poderia ter pedido a guarda.

— Poderia ganhar?

— Talvez uma medida provisória.

— E Sophie perderia a casa conhecida no dia seguinte a descobrir que o pai vive.

Inês fechou o notebook.

— Continue pensando como pai quando ninguém estiver olhando.

Roman voltou para a sala. Sophie organizava as cartas por data. Havia semanas sem correspondência durante o processo criminal. Ela apontou os espaços.

Saldanha pediu os registros do hotel onde Roman se hospedara após sair da prisão. A recepcionista conservava solicitações feitas por investigadores particulares. Três escolas argentinas apareciam nos anexos, todas fornecidas por uma empresa contratada por Helena.

— Ela não escondeu só um endereço — disse Inês. — Criou uma rota falsa para consumir seu tempo.

Roman fechou a pasta.

Sophie anotou os nomes numa folha. Queria conferir depois, não decorar a conclusão de um adulto.

— Por que parou aqui?

— Meu advogado disse que cada carta poderia ser usada para provar obsessão. Parei por três meses.

正文1

— E depois?

— Decidi que você um dia perguntaria. Voltei a escrever, mesmo sem enviar algumas.

— Quero ler as que mostram quando você desistiu.

Roman abriu uma divisória da pasta.

— Estão todas aí.

Não tentou esconder as páginas em que falava de raiva, vergonha e cansaço. Sophie leu uma linha, devolveu a folha e pediu o restante para outro dia.

— Um juiz decide onde você fica enquanto tudo é investigado — explicou Inês. — Sua opinião será ouvida.

— Eu não conheço a casa dele.

Roman não se aproximou.

— Pode ficar com Nora. Nós nos encontramos com Clara e uma psicóloga. Não vou levar você de surpresa.

Sophie assentiu.

Helena aguardava junto à porta. A menina a encarou.

— Você escreveu as cartas da mamãe?

— Algumas. Juliano escreveu outras. Eu entreguei todas sabendo que eram falsas.

— As da Argentina também?

— Sim.

— Você me trancou numa história inventada.

Helena tentou avançar. Sophie recuou.

— Tem razão — disse a avó.

Não acrescentou nada. Sophie segurou Nora pela mão e saiu. Antes de cruzar a porta, olhou para Roman.

— Vem à tarde?

— Se quiser.

— Quero prova de que me procurou. Uma prova sua.

Roman voltou ao apartamento onde ficara em São Paulo. Tirou do armário uma pasta gasta, trazida em cada viagem. Guardava cartas devolvidas, relatórios de detetives, bilhetes para Buenos Aires e fotografias das escolas visitadas.

Havia também desenhos feitos a cada aniversário. Roman hesitou. Eram íntimos, mas selecionar apenas documentos favoráveis repetiria o método de Helena. Levou tudo.

Sophie examinou os carimbos na mesa de Nora. Numa carta, Roman desenhara dez estrelas, uma para cada mês desde a última vez em que vira a filha. Noutra, escrevera que não sabia se ela gostava de cavalos, planetas ou chocolate.

— Gosto de planetas.

— Acertei uma.

— Também gosto de chocolate.

— Duas de três.

O canto da boca dela subiu. Nora serviu chocolate quente, e Sophie fez uma careta.

— Isso eu odeio.

Roman pegou a caneca.

— Informação importante.

Ele mostrou uma fotografia de Lúcia restaurando a casa de Petrópolis. Sophie reconheceu as gotas azuis. Pela primeira vez, os três falaram de Lúcia como pessoa, sem usá-la para provar culpa.

Inês ligou no fim da tarde. O cofre estava vazio. Encontraram pagamentos para a oficina Rivas Motores.

O telefone de Roman tocou em seguida.

— Você tem algo meu — disse Juliano. — O caderno de Lúcia.

Roman ativou o viva-voz. Nora avisou Saldanha por outro aparelho.

— Está com a polícia.

— Não acredito. Entregue e devolvo os originais que mostram quem mandou mexer no carro.

— Estevão?

Juliano riu.

— Estevão era um covarde com dinheiro. Helena era uma covarde com sobrenome. Transformei os erros deles num negócio.

— Você matou Lúcia?

— Ela só devia entregar as cópias depois de um susto. Resolveu dirigir.

Roman apertou o telefone. Sophie ouvia do corredor.

— Onde quer o caderno?

— Na estufa abandonada da Fazenda Valença. Seis da tarde. Venha sozinho ou os documentos queimam.

A chamada terminou.

Saldanha proibiu Roman de aceitar. A localização saltara entre antenas, mas uma câmera registrou o carro cinza rumo à serra. Preparariam uma operação.

Sophie entrou na sala.

— Não vai sozinho.

— Não vou.

— Promete como meu pai?

Roman se ajoelhou.

— Prometo como seu pai que não vou desaparecer tentando parecer corajoso.

Naquela tarde, um mecânico aposentado recuperou a consciência numa clínica. Lembrava de Juliano e da mulher que pagara em dinheiro por um serviço nos freios.

Cabelo castanho. Uma cicatriz sob a orelha.

Nora tinha uma igual.

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