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"Minha Avó Disse Que Meu Pai Estava Morto" Capítulo 3

正文开头

— Todo mundo fica no pátio — ordenou Saldanha.

Roman manteve o corpo entre Sophie e a escada. O policial do andar superior encontrou uma janela aberta, uma colilla acesa e marcas de sapato no parapeito. No jardim, as pegadas terminavam junto a uma rua lateral.

Nora conferiu a caixa.

— O caderno está aqui. A memória também. Levaram só o telefone.

Inês olhou para Helena.

— O que havia nele?

A mulher se apoiou no banco.

— A última ligação de Lúcia.

Roman deu um passo. Parou antes de encostar nela.

— Você ouviu?

— Uma vez. Depois do enterro.

— E guardou nove anos?

— Não consegui ligar de novo.

Clara pediu que Sophie fosse para outro cômodo. A menina recusou.

— Cada vez que alguém manda eu sair, aparece outra mentira.

A médica agachou-se.

— Você tem direito a saber. Também tem direito a não ouvir algo que machuque antes de estar preparada. Podemos recuperar o aparelho primeiro.

Sophie segurou a mão de Nora.

— Quero ficar.

A polícia encontrou numa câmera municipal um carro cinza da fundação deixando a rua. Estava registrado para uso de Juliano. Saldanha acionou barreiras sem sirene.

Ferreira folheou o caderno de Lúcia. Datas, sociedades e valores ocupavam as páginas. A última anotação mencionava "H.", "E." e Elena.

Elena fora a filha mais nova de Helena. Morrera aos dezesseis anos após uma doença longa. Lúcia passara a cuidar da mãe e da casa enquanto Estevão ampliava a fundação.

— Ele ameaçou tirar Sophie de mim — disse Helena. — Falou que eu tinha permitido que Lúcia dirigisse machucada. Disse que Roman sairia da cadeia para levar a menina.

— E você acreditou no homem que já havia incriminado Roman — falou Nora.

— Eu precisava salvar alguém.

— Então falsificou a morte dele.

— Mantive distância.

Roman riu uma vez.

— Uma sepultura é distância?

Ele saiu para o corredor. Sophie o seguiu. O vidro de uma porta refletiu a menina antes que ele percebesse sua presença.

— Não precisa cuidar de mim — disse Roman.

— Não estou cuidando. Quero saber se odeia a vovó.

Roman passou a mão pela barba.

— Estou com muita raiva. Ela também foi uma boa mãe para Lúcia antes de começar a obedecer ao medo. Se eu decidir que ela é só um monstro, talvez pare de fazer perguntas importantes.

— Eu amo ela.

— Eu sei.

— E não quero ir embora com ela.

— Pode amar alguém e ainda precisar ficar longe.

Sophie pegou a mão inteira dele. Roman não fechou os dedos até que ela apertasse primeiro.

Um investigador informou que o telefone de Juliano fora encontrado desligado perto de uma ponte. Nora reconheceu a distração. Juliano faltara à gala, embora fosse tesoureiro, e sua assistente perguntara repetidas vezes pelo horário da assinatura.

No caderno havia o endereço de um galpão de restauração em Guarulhos. A polícia preparou uma busca. Roman pediu para acompanhar.

正文1

— Sua filha está aqui — disse Inês. — Juliano quer você correndo atrás dele.

Roman olhou para Sophie e desistiu.

O grupo seguiu para um hotel protegido. A caixa azul foi lacrada. Helena ficou em quarto separado, sob vigilância, enquanto os agentes avaliavam se havia motivo para prisão imediata.

Faltavam quinze minutos para a meia-noite. Nora comprou um bolo pequeno na recepção. Clara conseguiu uma vela.

— Não quero fazer pedido — disse Sophie. — Eu pedia para ver meu pai e fui boba.

— Você não foi boba — respondeu Roman. — O pedido manteve uma pergunta viva.

Sophie soprou a vela e abriu a carta de Lúcia.

As primeiras páginas falavam de coisas comuns. A música antiga que acalmava Sophie. O jeito como ela prendia o dedo de Roman quando bebê. As discussões dos pais e o cuidado que continuava depois de cada uma.

Lúcia admitia que assinara uma denúncia provisória contra Roman sob pressão de Estevão. Descobrira a fraude tarde e preparava a retratação.

"Se seu pai estiver vivo, não deixe ninguém mandar você amá-lo ou rejeitá-lo. Escute. Observe o que ele faz. Escolha com tempo. Amor de verdade aguenta perguntas."

Sophie chorou sem ruído. Roman esperou. Ela se inclinou em direção a ele, e só então ele a abraçou. Nora envolveu os dois.

A carta tinha mais duas páginas. Lúcia descrevia a manhã em que Roman saiu de casa após a discussão. Ele batera a porta, voltara vinte minutos depois e deixara o café dela pronto antes de ir ao hotel. A lembrança arrancou dele uma risada curta.

— Eu estava furioso — disse.

— E fez café?

— Sua mãe ficava com dor de cabeça sem cafeína.

Sophie passou o dedo sobre a assinatura.

— Por que vocês brigaram?

Roman respondeu que desejava vender sua parte na empresa e sair de São Paulo. Lúcia temia que a família interpretasse a saída como culpa. Nenhum dos dois sabia que Estevão já usava a discussão para construir uma narrativa.

— Você ia deixar mamãe?

— Eu ia dormir fora. Falei coisas cruéis. No dia seguinte, queria voltar.

— Voltou?

— A polícia chegou antes.

Sophie fechou a carta.

— Não gosto dessa parte.

— Eu também não.

— Mas aconteceu.

— Aconteceu.

Helena ouviu do outro lado da mesa. Por anos, contara à neta que Roman fugira após roubar dinheiro. Agora a menina recebia uma versão em que o pai errara sem ser o criminoso fabricado por Estevão.

Clara sugeriu uma pausa. Sophie caminhou até a janela. A cidade ainda estava escura.

— Quero guardar a carta comigo.

Inês explicou que o original precisava ser catalogado, mas uma cópia seria entregue na manhã seguinte.

— Sem mudar nenhuma palavra?

— Você confere com o original antes.

Sophie assentiu. Escolheu o procedimento em vez de depender de uma promessa.

Às quatro e vinte, o telefone de Inês tocou.

O galpão estava vazio. A polícia encontrara passaportes falsos, sangue recente e um cômodo atrás de placas de isolamento. Um alto-falante estava conectado a uma gravação remota.

Saldanha levou o grupo para uma sala segura. Um técnico reproduziu o áudio.

A voz de Lúcia saiu baixa, ofegante:

"Helena, se receber isto, não entre no carro de Estevão. Os freios do meu veículo foram mexidos."

A mensagem cortou no meio.

Helena levou as mãos ao rosto.

— Eu nunca recebi isso. Lúcia dirigiu porque não fui buscá-la.

O telefone roubado fora recuperado quebrado numa caçamba. O cartão de memória sobrevivera.

O técnico abriu o último arquivo. Depois da voz de Lúcia, ouviu-se uma porta e o motor de um carro. Um homem falou ao fundo:

"Apaga o aviso antes que Helena escute."

Helena reconheceu a voz.

— Juliano.

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