"Minha Avó Disse Que Meu Pai Estava Morto" Capítulo 2
— A casa não é mais nossa — disse Helena.
Nora não tirou os olhos da tela.
— Continua registrada em nome da Valença Patrimonial. Você transferiu o imóvel para uma empresa da fundação e manteve tudo fechado.
Ferreira pediu que as duas baixassem a voz. No salão principal, funcionários orientavam os convidados a sair. A notícia de que a cerimônia fora interrompida já circulava em grupos de mensagens.
Roman telefonou para Inês Robledo. A advogada ouviu o resumo sem interromper e respondeu que sairia de Curitiba no primeiro voo para o Rio.
— Não abra a caixa sem testemunhas. Registre cada pessoa que entrar na casa. Leve o tabelião e peça acompanhamento policial.
— Sophie vai comigo.
Helena se virou.
— De jeito nenhum.
A menina pousou o copo sobre a mesa.
— Era a casa da minha mãe.
— Está tarde.
— Também estava tarde quando você queria que eu assinasse.
Roman desviou o rosto por um instante. Nora permaneceu ao lado da cadeira de Sophie.
— Clara vai conosco — disse. — Se houver qualquer risco, Sophie fica no carro.
Helena pediu para acompanhar o grupo. Conhecia a casa, os cômodos reformados por Lúcia e as manias da filha. Nora recusou. Ferreira propôs que Helena seguisse num segundo veículo, acompanhada por uma policial e sem acesso ao telefone.
Ninguém gostou. Foi o acordo possível.
Roman ofereceu o paletó a Sophie na saída. Ela vestiu sem agradecer e puxou as mangas compridas até os dedos. No elevador, ficou entre Nora e Clara. Roman escolheu o canto oposto.
A viagem até Petrópolis atravessou a madrugada. A chuva começou na Serra das Araras, fina o bastante para transformar os faróis em riscos brancos.
Sophie falou primeiro.
— Como você foi preso?
— Alguém usou minhas senhas para fazer transferências da empresa da família. Os acessos ocorreram numa noite em que discuti com sua mãe e dormi num hotel. As câmeras mostravam meu carro saindo do prédio.
— Então parecia que tinha sido você.
— Parecia.
— E mamãe acreditou?
Roman apoiou a cabeça no banco.
— Durante alguns dias. Estevão mostrou documentos e disse que eu estava fugindo com dinheiro. Lúcia assinou uma denúncia provisória. Depois encontrou uma propriedade declarada como vendida que continuava recebendo pagamentos da empresa. Os valores levavam ao escritório de Estevão.
— Por que ela não contou para a polícia?
— Ia contar.
A chuva bateu mais forte.
— Ela morreu antes — concluiu Sophie.
Roman assentiu.
— O relatório diz que o carro perdeu o controle numa curva.
Nora observou Roman pelo retrovisor. Ele não mencionou a suspeita sobre os freios. Sophie já enfrentava informação demais.
A casa de Petrópolis ficava numa rua inclinada, atrás de um muro coberto por hera. A fechadura eletrônica havia sido trocada havia dois meses. Ferreira apresentou os documentos ao segurança da empresa e entrou com uma chave judicial.
O ar interno tinha cheiro de madeira fechada. Lençóis cobriam os móveis. Uma luminária de vidro colorido projetava manchas azuis nas paredes.
Sophie caminhou até a sala.
— Eu lembro disso.
Nora tocou seu ombro.
— Você tinha um ano quando saiu daqui.
— Mamãe me mostrava fotos.
A mensagem trazia a frase: "Onde a casa lembra a chuva até no verão."
Eles examinaram calhas, janelas e o antigo reservatório. Helena permaneceu junto à porta, vigiada. A cada tentativa frustrada, fechava os dedos em torno da alça da bolsa vazia.
Roman lembrou de uma parede no pátio. Lúcia tinha restaurado uma fonte e instalado dezenas de gotas de cerâmica azul. Dizia que a água deixava memória até na pedra.
Atrás da terceira gota havia uma cavidade.
Estava vazia.
Marcas recentes cortavam o pó. Um parafuso novo brilhava junto à borda.
— Chegamos tarde — disse Helena.
Inês entrou pelo pátio acompanhada do delegado Saldanha. O voo pousara no Rio, e ela passara o trajeto lendo as fotografias dos documentos.
— Quem conhecia esse lugar? — perguntou.
— Lúcia, Estevão e eu.
— Estevão morreu há quatro anos.
— Juliano conhecia todas as propriedades da fundação — disse Helena. — Pode ter visto plantas.
Sophie encarava as peças da parede.
Antes de saírem para o pátio, Sophie pediu para ver seu antigo quarto. Clara acompanhou. As paredes conservavam marcas claras onde quadros haviam sido retirados.
Dentro de um armário, encontraram uma caixa de lápis, um móbile de planetas e uma fita métrica com datas. Lúcia marcara a altura da filha até os doze meses. Roman ficou no corredor.
— Você morou aqui? — perguntou Sophie.
— Durante dois anos, com sua mãe. Reformávamos a casa nos fins de semana e brigávamos sobre tomadas.
— Quem ganhava?
— Ela. Sempre instalava outra depois.
Sophie entregou o móbile a ele.
— Segura.
Foi a primeira ordem cotidiana que deu ao pai. Roman segurou Saturno e Júpiter enquanto ela desembaraçava os fios. Nora observou da porta.
Num caderno escolar, Sophie encontrou o desenho da parede de gotas. Sete círculos azuis cercavam um branco. Atrás, Lúcia escrevera: "Sophie encontra padrões antes de encontrar palavras."
A menina levou a folha para o pátio.
— Foi assim que ela me ensinou.
O delegado registrou o desenho como apoio à descoberta, sem recolhê-lo. Sophie dobrou o papel e colocou no bolso da jaqueta de Roman.
— Não perde.
— Vou devolver.
— Todo mundo fala isso.
Roman abriu o bolso interno para que ela mesma guardasse a folha.
— Então fica onde você consegue ver.
Quando a caixa surgiu sob o banco, Sophie tocou a manga dele. O gesto durou pouco. Bastou para que Roman esperasse ao lado dela enquanto os peritos fotografavam cada objeto.
— Não é aqui.
— A mensagem fala da chuva — lembrou Nora.
— Mamãe gostava de planetas. As gotas eram estrelas no desenho do meu quarto.
Ela contou sete peças azuis ao redor de uma branca. A distribuição repetia o bordado de um antigo travesseiro guardado por Nora.
Sophie pressionou a peça branca.
Um clique veio do banco de pedra. A tábua sob o assento subiu menos de um centímetro.
Saldanha pediu que todos recuassem. Um perito calçou luvas, levantou a madeira e revelou uma caixa metálica azul. O fecho não tinha chave.
Ferreira fotografou a posição, rompeu o lacre na presença do delegado e abriu a tampa.
Havia um caderno preto, uma memória USB, três envelopes e um telefone antigo sem bateria. No fundo, uma fotografia mostrava Estevão apertando a mão de Juliano Mena, atual tesoureiro da fundação.
Helena avançou.
A policial ergueu o braço.
— Fique onde está.
— Há cartas da minha filha.
— Serão registradas antes da leitura — disse Saldanha.
Inês conectou a memória a um notebook isolado. Pastas de transferências apareceram ao lado de áudios e vídeos. Um arquivo fora gravado na véspera da morte de Lúcia.
Na tela, Lúcia estava sentada na mesma sala. Tinha a sobrancelha cortada e o rosto pálido.
"Se vocês estão vendo isto, Estevão sabe que descobri como incriminou Roman. Helena também sabe. Ela prometeu que amanhã vai comigo ao Ministério Público."
Helena cobriu a boca.
"Se ela desistir, procurem Juliano. Ele guarda os originais e fará qualquer coisa para continuar controlando o dinheiro."
As luzes se apagaram.
Um ruído de janela veio do andar de cima.
Roman puxou Sophie para trás do banco. Nora se ajoelhou junto dela. As lanternas dos policiais abriram cones brancos no pátio.
Passos atravessaram o teto.
Saldanha apontou para a escada. Um agente subiu; outro correu para a saída dos fundos.
Quando a luz voltou, a caixa permanecia aberta.
O telefone antigo tinha desaparecido.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4