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"Minha Avó Disse Que Meu Pai Estava Morto" Capítulo 1

正文开头

— Você está vivo?

Sophie reconheceu Roman antes que os adultos percebessem para onde ela olhava.

Ele surgiu entre dois patronos da Fundação Valença, alto demais para desaparecer na multidão. Usava smoking preto e gravata-borboleta. O cabelo escuro estava penteado para trás, igual ao da fotografia escondida no armário da mãe.

Helena apertou o braço da neta.

— Vamos embora.

Sophie não se moveu. Nora segurava seu outro ombro, protegendo-a do empurrão que quase a fizera cair junto à porta.

Roman parou a três metros.

— Sophie?

A menina encarou a boca dele, procurando alguma diferença entre a voz e a pessoa da foto.

— A vovó disse que você morreu.

O quarteto de cordas continuou por mais dois compassos. Um músico abaixou o arco. Os outros o acompanharam.

Helena olhou em volta. Jornalistas, doadores e conselheiros observavam. No palco, um painel anunciava a Bolsa Lúcia Valença para jovens arquitetas. À meia-noite, Sophie completaria dez anos e seria apresentada como rosto do projeto.

— Esta conversa não acontece aqui — disse Helena.

— Acontece onde minha filha estiver — respondeu Roman.

— Ela está assustada.

— Acabou de descobrir que o pai vive.

Nora fechou a porta de madeira.

— Responda.

Helena ergueu o queixo.

— Você desapareceu. A criança precisava de um fim.

— Passei seis meses preso por uma fraude que não cometi.

— E depois?

— Passei três anos provando isso.

Sophie soltou o braço da avó.

— Eu levei flores.

Roman inclinou a cabeça.

— Onde?

— No cemitério do Morumbi. Tinha seu nome numa placa. Todo novembro ela me levava lá.

Roman fechou os olhos por um segundo.

— Meu irmão Adriano está enterrado naquele jazigo. Meu nome aparece porque paguei a restauração.

Sophie olhou para Nora.

— Mamãe também está no céu e falar do passado faz mal. Foi isso que a vovó disse.

Roman deu um passo. Parou quando a menina recuou. Agachou-se e manteve as mãos sobre as coxas.

— Sou Roman Duarte. Sua mãe me chamava de Rom quando estava com pressa. Eu sou seu pai.

— Prova.

Roman tirou a carteira devagar. Mostrou uma fotografia dobrada: Lúcia dormia num sofá com um bebê no peito; ele aparecia no chão, segurando uma mamadeira.

Sophie reconheceu a manta amarela guardada em sua cama.

— Onde conseguiu isso?

— Eu tirei a foto com um temporizador. Você tinha onze meses.

Helena avançou.

— Chega. Entregue a foto.

Roman a guardou.

— Por que tentou expulsar Sophie antes de eu chegar?

— Não sabia que você viria.

— Ferreira me convidou para discutir o fundo de Lúcia.

O tabelião se aproximou com uma pasta. Helena levou a mão ao bolso do vestido.

— O anúncio será suspenso — disse Roman.

— Você não tem autoridade.

— Ainda sou administrador conjunto do patrimônio de Lúcia.

— Perdeu esse direito quando foi preso.

— Minha absolvição restabeleceu o mandato. Seu advogado recebeu a decisão há quatro anos.

正文1

Nora fitou Helena.

— Por isso queria a assinatura hoje.

Sophie olhou para a pasta.

— Que assinatura?

Nora se ajoelhou ao lado dela.

— Sua avó pediu que eu ajudasse você a autorizar o uso da sua imagem na bolsa. Li a segunda página. O texto entregava a ela o controle exclusivo dos seus bens até você completar vinte e cinco anos.

— Você disse que era uma fotografia.

— Era uma proteção administrativa — respondeu Helena.

— Contra quem?

— Contra pessoas que aparecem quando existe dinheiro.

Roman soltou o ar pelo nariz.

— Como o pai da menina?

— Como um homem acusado de roubar da própria família.

Nora abriu o telefone.

— Ele foi absolvido. As transferências partiram do escritório de Estevão.

Helena virou para a porta. Nora bloqueou a passagem.

— Não sai com os documentos.

Dois seguranças se aproximaram. Roman pediu que mantivessem distância e preservassem as gravações. Ferreira recolheu a pasta e anunciou que nenhum documento seria assinado.

Sophie bebia água numa sala lateral. Segurava o copo com as duas mãos. Roman esperou no corredor até ela permitir sua entrada.

— Por que não veio depois da cadeia? — perguntou.

— Eu vim. Sua avó mostrou uma ordem que parecia assinada por sua mãe. Dizia que eu representava perigo. Depois chegaram cartas contando que vocês tinham mudado para a Argentina.

— Nunca morei lá.

— Passei dois anos procurando vocês em Buenos Aires e Córdoba.

— Mamãe achava você perigoso?

Nora respondeu:

— Lúcia preparava uma declaração para retirar a denúncia quando morreu.

Helena apareceu com Ferreira e uma segurança. Entregara a bolsa para custódia.

— Tudo que fiz foi para proteger Sophie.

Nora mostrou uma mensagem no celular.

— Recebi isto hoje, programado por Lúcia nove anos atrás.

Na tela havia uma linha:

"Se Helena tentar usar o fundo quando Sophie completar dez anos, procurem a caixa azul da casa de Petrópolis."

Sophie conferiu o relógio.

Ferreira abriu a pasta diante das câmeras internas. Havia três vias do termo, uma autorização de imagem e uma procuração redigida em linguagem que uma criança jamais compreenderia.

Roman pediu que o tabelião lesse o trecho sobre a maioridade.

— "A representante exercerá poderes exclusivos de alienação, investimento e garantia até a beneficiária completar vinte e cinco anos."

Sophie franziu a testa.

— Alienação é vender?

— Também pode ser — respondeu Ferreira.

— E garantia?

— Usar um bem para conseguir empréstimo.

Ela olhou para Helena.

— Podia usar a casa da mamãe para pagar uma dívida da fundação?

Helena tentou tocar seu cabelo. Sophie se afastou.

— A fundação precisava de liquidez por algumas semanas.

— Você disse que era para usar minha foto.

Nora pediu uma cópia. Ferreira entregou e anotou a recusa no próprio livro. Roman assinou apenas como testemunha da suspensão.

Um jornalista tentou entrar na sala. O segurança o conteve. Pela fresta, Sophie viu câmeras e pessoas falando seu nome.

— Eles sabem quem eu sou?

— Sabem que você está aqui — disse Nora.

— Vão contar tudo errado?

Roman retirou o celular do bolso e desligou.

— Provavelmente. Hoje você não fala com ninguém. Amanhã, se quiser, escolhemos juntos o que dizer.

— E se eu não quiser nunca?

— Então ninguém usa você para salvar a reputação de adulto nenhum.

Sophie examinou o rosto dele por mais tempo. A promessa não apagava a sepultura, mas tinha uma forma verificável: nenhum microfone entrou na sala.

Faltavam três horas para a meia-noite.

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