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"Ele Disse Que Eu Não Era Ninguém" Capítulo 2 — Sessenta e Dois Por Cento

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Capítulo 2 — Sessenta e Dois Por Cento

Os cacos ainda se moviam pelo chão quando Marcelo recuperou a voz.

“Isso é ridículo.”

Ele olhou ao redor, procurando nos convidados a versão de si mesmo que sempre encontrava refletida neles: o executivo brilhante, o genro que salvara um império antigo, o homem destinado a comandar.

“Minha esposa está tendo algum tipo de crise.”

Vitória riu alto demais.

“Senhora presidente? É assim que chamam você naquele projeto beneficente?”

Fechei a ligação sem responder. Tirei do estojo a caneta-tinteiro do meu pai e a coloquei sobre a mesa.

“Meu pai fundou o Grupo Sampaio”, eu disse. “Quando a saúde dele piorou, ele reorganizou o controle da companhia. A Sampaio Participações passou a deter sessenta e dois por cento das ações ordinárias do grupo.”

Um dos conselheiros, sentado perto do palco, abaixou lentamente o celular. Ele já sabia o que viria.

“Eu sou a administradora da holding”, continuei. “E presidente do conselho de administração.”

Regina se levantou.

“Marcelo herdou esta empresa.”

“Marcelo não herdou nada do meu pai.”

“Ele recebeu ações.”

“Doze por cento em ações preferenciais, sem direito de voto. Foram parte do acordo aprovado quando ele assumiu a diretoria.”

Marcelo avançou um passo.

“Você transferiu a companhia para mim.”

“Eu deleguei a gestão executiva. Nunca transferi o controle.”

Um som de notificações começou a se espalhar. Conselheiros, advogados e diretores conferiam os próprios telefones. Eduardo havia enviado a convocação extraordinária e o pedido de preservação de documentos.

Vi o instante em que Marcelo percebeu que não se tratava de uma ameaça conjugal.

Era um procedimento formal.

Mesmo assim, ele tentou sorrir.

“Helena, vamos para casa. Você está abalada. Conversaremos quando estiver em condições de pensar.”

“Não temos mais uma casa.”

Minha mãe levou a mão à boca.

Regina fez um gesto impaciente.

“Não seja melodramática. Homens como Marcelo precisam de mulheres capazes de acompanhar o ritmo deles.”

“Você está certa.”

Ela pareceu surpresa.

“Ele precisa de alguém capaz de acompanhar para onde foi o dinheiro.”

O salão ficou imóvel.

Vitória pousou a taça sobre a mesa.

“Você está tentando destruir uma nomeação profissional porque foi traída. Isso é abuso de poder.”

“Dormir com o diretor-presidente fazia parte do processo seletivo?”

O rubor subiu pelo pescoço dela.

Marcelo se colocou entre nós.

“Vitória trabalhou por esta empresa. Você passou seis anos sem fazer nada além de assinar o que colocávamos na sua frente.”

Aquela mentira feriu mais do que a mão dele na cintura dela.

Durante seis anos, eu havia acreditado que proteger a reputação de Marcelo era proteger o Grupo Sampaio. Corrigi suas projeções antes das reuniões. Convenci diretores a esperar quando ele prometeu resultados impossíveis. Sentei-me em cozinhas de hotéis com gerentes que ele humilhara e impedi que os melhores pedissem demissão.

Na crise de liquidez, hipotecara um edifício que pertencia à holding para que doze mil salários fossem pagos no prazo.

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Marcelo aparecera na imprensa dizendo que sua liderança vencera o pior trimestre da história do grupo.

Eu não o desmenti.

Na época, chamara aquilo de lealdade.

Naquela noite, finalmente reconheci o nome correto: apagamento.

“O contrato com a rede gaúcha foi negociado por mim”, falei. “O acordo que encerrou as duas ações de fornecedores também. E a garantia oferecida ao Banco Aliança saiu do patrimônio da holding, com minha autorização.”

Marcelo abriu a boca, mas continuei.

“Você apresentou cada resultado como seu porque eu permiti. Não confunda meu silêncio com sua competência.”

As portas do salão se abriram.

Eduardo entrou acompanhado de Lívia Amaral, diretora jurídica, e Tomás Ribeiro, responsável pela auditoria interna. Eduardo carregava duas pastas. Tomás trazia um notebook lacrado em um envelope de preservação.

Eles não caminharam até Marcelo.

Vieram até mim.

“Senhora presidente”, disse Eduardo, “a convocação foi entregue a todos os conselheiros. Há quórum para deliberar a suspensão cautelar.”

Marcelo baixou a voz.

“Eduardo, pense bem em quem paga seu salário.”

“O Grupo Sampaio”, ele respondeu. “Não o senhor.”

Eduardo abriu a primeira pasta. A resolução determinava a suspensão cautelar dos poderes de assinatura e movimentação extraordinária de Marcelo até a conclusão da reunião.

“Você não pode fazer isso no meio de uma festa”, Marcelo disse.

“A festa é sua”, respondi. “A companhia é dos acionistas.”

Lívia apontou o espaço reservado à assinatura da presidência do conselho. Usei a caneta do meu pai.

A tinta azul tocou o papel sem tremer.

“A suspensão entra em vigor com a deliberação do conselho”, explicou Lívia. “Até lá, os bancos e as áreas de controle já foram notificados para preservar registros e impedir operações fora da rotina.”

Vitória cruzou os braços.

“Vocês têm números soltos e uma esposa com ciúmes. Isso não prova nada.”

Tomás abriu a segunda pasta.

Sobre a primeira página havia um diagrama de transferências. Quatro consultorias, criadas em menos de dezoito meses, haviam recebido pagamentos por estudos que ninguém conseguia localizar e adiantamentos por serviços nunca entregues.

“O total é de R$ 19,8 milhões”, disse ele. “As empresas foram abertas em nome de terceiros, mas os cadastros, procurações bancárias e endereços de recuperação conduzem à mesma beneficiária.”

Ele virou a página.

Uma fotografia de Vitória apareceu ao lado dos registros empresariais.

Os lábios dela se entreabriram.

“Isso é falso.”

“Os documentos vieram da Junta Comercial, das instituições financeiras e dos servidores corporativos”, disse Tomás. “Ainda serão submetidos a todas as verificações necessárias, mas não são uma montagem.”

As páginas seguintes mostravam os destinos conhecidos: o sinal de um apartamento nos Jardins, as parcelas de um carro importado, joias, despesas de decoração e a reserva de compra de uma casa em Ilhabela.

Minha casa conjugal ainda tinha fotografias do nosso casamento na sala.

Marcelo já escolhia cortinas para outra.

Vitória olhou para ele.

“Você disse que esses pagamentos estavam regularizados.”

“Cale a boca”, ele murmurou.

“Regularizados como?” perguntei.

Marcelo arrancou o diagrama das mãos de Tomás.

“Qualquer um pode imprimir uma planilha e inventar uma história.”

Rasgou a folha ao meio.

Depois tornou a rasgá-la, espalhando os pedaços sobre a mesa.

Lívia nem piscou.

“Essas são cópias.”

Eduardo colocou diante de mim a parte mais grossa da pasta.

“Há algo além das transferências.”

Na primeira página, li meu nome completo, o número dos meus documentos e a descrição das ações controladas pela Sampaio Participações.

Era uma procuração supostamente concedida a Marcelo, com poderes para votar em meu nome, substituir administradores e negociar garantias.

No rodapé havia uma assinatura inclinada em tinta azul.

Helena Sampaio.

Todos olharam para mim.

Passei o polegar sobre a caneta do meu pai.

“Essa assinatura não é minha.”

 

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