"A Mamadeira Que Salvou Uma Família" Capítulo 8
Henrique voltou da Faria Lima depois da meia-noite com uma certeza que o incomodava mais do que a suspeita contra Augusto.
Alguém estava construindo culpados.
Vitória recebera dinheiro por uma operação ligada ao nome de Augusto.
Augusto tinha dívidas suficientes para parecer capaz de qualquer coisa.
E Isabela havia recebido uma ameaça depois de encontrar uma prova.
Nada parecia improvisado.
Na manhã seguinte, Henrique chamou Bruno ao escritório.
"Quero uma investigação diferente."
"Sobre Augusto?"
"Sobre todo mundo."
Bruno franziu a testa.
"Todo mundo quem?"
Henrique olhou para a porta fechada.
"Quem mora aqui. Quem trabalha aqui. Quem entra aqui com frequência."
Bruno ficou em silêncio.
Henrique continuou.
"Funcionários, motoristas, seguranças, enfermeiras, prestadores. Clara também."
"E dona Teresa?"
Henrique demorou alguns segundos.
"Também."
Bruno ergueu as sobrancelhas.
"Ela é sua mãe."
"Meu filho é meu filho."
A resposta encerrou qualquer discussão.
"Quero dívidas, transferências, mudanças de comportamento, ligações estranhas e acesso ao sistema de segurança."
"Sem ninguém saber?"
"Principalmente sem ninguém saber."
Bruno assentiu.
Quando saiu, Henrique permaneceu sozinho.
Nunca imaginara que chegaria ao ponto de investigar a própria mãe.
Mas também nunca imaginara que alguém colocaria veneno na mamadeira de Miguel.
No andar de cima, Helena estava começando a desconfiar até do silêncio.
Uma funcionária entrou para trocar os lençóis do berço.
"Deixa."
A mulher parou.
"Dona Helena?"
"Eu mesma faço."
"Mas eu sempre..."
"Eu disse que faço."
A funcionária saiu constrangida.
Pouco depois, Clara apareceu com uma bandeja.
Helena olhou para o copo de água.
"Quem colocou?"
Clara franziu a testa.
"A água?"
"Sim."
"Eu."
"Você abriu a garrafa?"
"Abri."
Helena não tocou.
Clara percebeu.
"Quer que eu traga outra lacrada?"
Helena fechou os olhos.
"Desculpa."
"Não precisa."
"Precisa, sim."
Ela olhou para Miguel.
"Eu estou começando a olhar para todo mundo como se..."
Não terminou.
Clara completou em voz baixa.
"Como se qualquer pessoa pudesse fazer mal a ele."
Helena assentiu.
"Até você."
Clara não se ofendeu.
"Eu entendo."
Isso fez Helena se sentir ainda pior.
"Eu não sei mais em quem confiar."
Isabela apareceu na porta.
Helena olhou imediatamente para ela.
Por algum motivo, sua presença trazia uma segurança que Helena não conseguia mais encontrar em quase ninguém.
"Ele tomou o suplemento?"
Isabela perguntou.
"Não."
Helena respondeu rápido demais.
Isabela entendeu.
Depois do que haviam descoberto, qualquer frasco parecia perigoso.
"Não vamos dar nada até o hospital analisar."
Helena concordou.
Henrique já havia enviado o suplemento para exames.
Enquanto aguardavam o resultado, Isabela começou a revisar mentalmente os lugares da mansão onde alguém poderia esconder documentos.
A ameaça deixada em seu quarto mostrava que o culpado não tinha medo de circular pela casa.
Talvez também não tivesse medo de esconder coisas ali.
No fim da manhã, ela passou pelo corredor do antigo escritório de Antônio Montenegro.
O cômodo permanecia quase sempre fechado.
Desde a morte do patriarca, Teresa não permitira grandes mudanças.
Isabela parou diante da porta.
Clara vinha atrás dela.
"Quase ninguém entra aí."
"Por quê?"
"Dona Teresa prefere manter como estava."
Isabela olhou para a maçaneta.
"O senhor Antônio guardava documentos aqui?"
"Muitos."
"Posso entrar?"
Clara hesitou.
"Melhor perguntar ao senhor Henrique."
Henrique autorizou imediatamente.
Entrou com elas.
O escritório cheirava a madeira antiga e papel.
Havia uma grande escrivaninha, estantes cheias de livros, fotografias familiares e uma poltrona de couro diante da janela.
Henrique ficou alguns segundos parado.
"Eu não entro aqui há anos."
Isabela olhou para ele.
"Por quê?"
"Porque tudo continua parecendo que ele vai voltar."
Henrique passou a mão pela escrivaninha.
Depois se afastou.
"Procurem."
Durante quase uma hora, encontraram apenas documentos antigos.
Contratos.
Cartas.
Relatórios empresariais.
Recibos.
Nada parecia relacionado ao caso.
Até Isabela notar que uma das prateleiras era menos profunda que as outras.
Ela retirou três livros.
Bateu no fundo.
O som era oco.
"Senhor Henrique."
Ele se aproximou.
Isabela pressionou a madeira.
Nada.
Tentou novamente perto da lateral.
Um pequeno painel se soltou.
Atrás dele havia um espaço estreito.
Dentro, um caderno preto.
Henrique o retirou.
Na primeira página estava a caligrafia de Antônio.
Datas.
Números.
Nomes de empresas.
Valores.
Transferências.
Henrique começou a folhear.
"Isso não é contabilidade oficial."
"Como sabe?"
"Meu pai fazia anotações à mão quando desconfiava de alguma coisa."
Clara empalideceu.
Henrique percebeu.
"Você sabia deste caderno?"
"Não."
Ele continuou lendo.
Algumas empresas eram conhecidas.
Outras pareciam intermediárias.
Havia pagamentos ligados a fornecedores do Grupo Montenegro, consultorias e projetos de saúde financiados pelo conglomerado.
Um nome aparecia repetidamente ao lado de várias operações.
Henrique franziu a testa.
"R.N."
Isabela se aproximou.
"É uma pessoa?"
"Talvez."
Em outra página:
"R.N. — confirmar contrato."
Depois:
"R.N. — pagamentos incompatíveis."
Mais adiante:
"R.N. — Hospital."
Henrique parou.
"Hospital?"
Clara ficou tensa.
Ele virou a página.
Ou tentou.
Havia sido arrancada.
Henrique olhou para a lombada.
Mais duas páginas tinham desaparecido.
"Alguém mexeu nisso."
Isabela observou as marcas.
"Recentemente?"
"Não sei."
Henrique procurou outras referências.
Encontrou uma frase perto do final.
"Rever antes da reunião com A.S."
Álvaro Siqueira.
O advogado.
Henrique fechou o caderno.
"Meu pai estava investigando dinheiro antes de morrer."
Clara não respondeu.
Henrique olhou para ela.
"Você sabia."
"Não dos detalhes."
"Mas sabia de alguma coisa."
Clara apertou as mãos.
"Eu sabia que ele estava com medo."
Henrique ficou imóvel.
"Meu pai não tinha medo."
"Na frente dos outros, não."
"Clara."
Ela respirou fundo.
"Nas últimas semanas, ele começou a me pedir para conferir se as portas estavam trancadas."
Henrique franziu a testa.
"Ele tinha segurança."
"Eu sei."
"Então do que tinha medo?"
"De alguém que a segurança deixaria entrar."
A frase mudou o ar do escritório.
Isabela sentiu um arrepio.
Henrique se aproximou.
"Por que você nunca me contou?"
"Porque ele me pediu."
"Meu pai pediu para você esconder que estava com medo?"
"Não exatamente."
Clara olhou para a fotografia de Antônio sobre a mesa.
"Foi três dias antes de ele morrer."
A voz dela ficou baixa.
"Ele estava sentado exatamente naquela cadeira."
Henrique não desviou os olhos.
"Eu trouxe café."
Clara respirou fundo.
"Ele não bebeu."
"Por quê?"
"Ficou olhando para a xícara."
Isabela lembrou imediatamente da mamadeira.
Clara também.
"Depois ele me perguntou quem tinha preparado."
Henrique ficou rígido.
"O que você respondeu?"
"Que tinha sido a cozinheira."
"E?"
"Ele mandou jogar fora."
Silêncio.
Clara continuou.
"Naquela noite, ele me chamou antes de eu ir embora."
Os olhos dela ficaram úmidos.
"Ele me entregou uma chave."
"Que chave?"
"Do escritório."
"Você ainda tem?"
"Não. Dona Teresa pediu todas as chaves depois da morte."
Henrique olhou para a mãe ausente.
"E o que meu pai disse?"
Clara tentou controlar a voz.
"Ele disse que estava perto de descobrir quem vinha tirando dinheiro do grupo."
"Falou algum nome?"
"Não."
"R.N.?"
"Não."
Henrique respirou fundo.
"Então o que ele disse?"
Clara olhou diretamente para ele.
"Se alguma coisa acontecer comigo, proteja Henrique."
Henrique não se moveu.
Isabela sentiu o peso daquela frase.
Clara enxugou uma lágrima.
"Eu perguntei por que ele estava falando daquele jeito."
"E ele respondeu?"
"Disse que tinha confiado em alguém por tempo demais."
Henrique baixou os olhos para o caderno.
"Meu pai morreu três dias depois."
"Sim."
"Você achou estranho?"
Clara demorou a responder.
"Na época, disseram que o coração dele não resistiu."
"Eu perguntei o que você achou."
Clara fechou os olhos.
"Eu achei estranho."
Henrique ficou pálido.
"Por quê?"
"Porque naquela manhã ele também passou mal depois de tomar uma coisa."
Isabela prendeu a respiração.
"O quê?"
Clara abriu os olhos.
"Um remédio líquido."
Henrique olhou para ela.
"Do mesmo tipo daquele frasco?"
Clara assentiu lentamente.
Foi então que Henrique entendeu por que ela empalidecera na cozinha.
Não era apenas uma lembrança.
Era uma suspeita que carregava havia anos.
"Você está dizendo que meu pai pode ter sido envenenado?"
Clara começou a chorar.
"Eu estou dizendo que ninguém procurou saber."
Henrique abriu novamente o caderno.
Olhou para as iniciais repetidas.
"R.N."
Pagamentos.
Hospital.
Contratos.
Dinheiro desaparecido.
E páginas arrancadas.
Isabela se aproximou da mesa.
"Senhor Henrique..."
Ele levantou os olhos.
"Se fizeram com seu pai algo parecido com o que estão fazendo com Miguel..."
Henrique terminou a frase.
"Então isso não começou com meu filho."
Clara balançou a cabeça.
"Não."
Henrique olhou para a fotografia de Antônio.
Pela primeira vez em anos, a causa oficial da morte do pai deixou de parecer uma certeza.
E se Antônio Montenegro não tivesse morrido de causas naturais?
Henrique voltou a olhar para as iniciais no caderno.
"R.N."
Nesse instante, seu celular tocou.
Era Dr. Rafael Nogueira.
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