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"As Rosas Que Não Chegaram ao Altar" Capítulo 6 — Um Dia Antes do Sim

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Capítulo 6 — Um Dia Antes do Sim

Às duas e treze da madrugada, Marina protocolou o pedido de tutela de urgência.

O dossiê reunia extratos, notas fiscais, registros de acesso, cópias das jornadas, a autorização falsificada e os vídeos preservados por Eduardo. O agendamento de R$ 1,1 milhão para Montevidéu demonstrava que esperar poderia tornar a recuperação do dinheiro muito mais difícil.

A equipe criminal entregou o material à autoridade responsável pela investigação de fraudes. Ninguém prometeu uma resposta imediata.

Até que as decisões chegassem, eu ainda era um noivo a caminho do próprio casamento.

Na manhã de sexta-feira, subi a serra rumo a Petrópolis com Isadora ao meu lado. Ela passou quase toda a viagem respondendo a mensagens de marcas que acompanhariam a cerimônia.

“A transmissão dos bastidores pode passar de dois milhões de visualizações”, disse. “Você entende o que isso significa?”

“Muita gente olhando.”

Ela sorriu.

“Significa que amanhã ninguém vai falar de outra coisa.”

Eu olhei para a estrada coberta pela neblina.

“Nisso você tem razão.”

A propriedade ocupava o alto de uma colina, cercada por jardins antigos e fileiras de hortênsias. Sob a capela de pedra, uma equipe montava o arco de rosas brancas que Isadora escolhera meses antes.

As flores eram idênticas às que eu deixara morrer na despensa.

Lúcia chegara com Janaína e Antônio para orientar a equipe temporária. Eu havia pedido que não trabalhassem, mas ela recusara ir embora antes de entregar aos profissionais contratados uma lista de restrições alimentares e objetos delicados.

“Depois disso, eu sento”, prometeu.

Isadora apareceu usando um vestido de seda marfim para o ensaio. Duas assessoras carregavam o véu atrás dela.

Ela viu uma dobra no tecido e estalou os dedos na direção de Lúcia.

“Arrume isso.”

Lúcia não se moveu.

O jardim pareceu ficar mais silencioso.

Isadora estalou os dedos outra vez.

“Lúcia, eu estou falando com você.”

Dei um passo e fiquei entre as duas.

“Ela não é sua criada aqui.”

Isadora soltou uma risada curta.

“Ela trabalha na nossa casa.”

“Não esta noite.”

“Henrique.”

“Uma das assessoras pode cuidar do véu. É para isso que foram contratadas.”

Os olhos de Isadora percorreram os rostos ao redor. Havia gente demais observando para que ela mostrasse raiva.

“Claro”, disse com um sorriso. “Meu noivo está tenso.”

Ela segurou minha mão e me conduziu para trás da capela.

Assim que ficamos fora de vista, suas unhas apertaram meus dedos.

“Falta um dia”, sussurrou. “Você consegue parar de me constranger por um dia?”

“Pedir que alguém trate Lúcia com respeito não deveria constranger você.”

“Não é sobre respeito. É sobre hierarquia.”

“Que hierarquia?”

“A nossa.”

Ela olhou para os lados antes de continuar.

“Depois da cerimônia, você vai assinar a autorização das contas e formalizar minha entrada no comitê financeiro da holding. Eu vou administrar a casa e representar a família. Se os funcionários acharem que podem ignorar minhas ordens agora, nunca vão me respeitar depois.”

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Ali estava o verdadeiro altar que Isadora pretendia alcançar.

Não o casamento.

O acesso.

“Você ainda quer a autorização amanhã?” perguntei.

“É claro. Foi o nosso acordo.”

“Depois da cerimônia.”

Ela relaxou e tocou minha gravata.

“Depois da cerimônia.”

Isadora interpretou minha repetição como promessa.

Na verdade, eu apenas confirmava o prazo que ela havia escolhido para si mesma.

O ensaio prosseguiu. Caminhei até o altar, ouvi as orientações do celebrante e pratiquei onde deveria segurar as mãos da noiva. Bruno chegou atrasado com uma pasta para computador e passou o restante da tarde dando ordens aos fornecedores como se já fosse dono da propriedade.

Meu celular permaneceu em silêncio.

Às dezenove horas, os convidados do jantar de boas-vindas começaram a ocupar o salão principal. Havia quase duzentas pessoas: parentes, amigos, executivos, influenciadores e representantes das marcas que Isadora cultivara durante anos.

Ela deslizava entre as mesas em seda marfim, beijando rostos e oferecendo sorrisos.

Bruno pegou o microfone antes da sobremesa.

“Quero brindar à minha irmã”, anunciou, “e ao homem que tornou possível tudo que ela imaginou.”

Algumas pessoas olharam para mim.

“Henrique é o único homem generoso o bastante para financiar o gosto da Isadora sem fazer perguntas.”

O salão explodiu em risos.

Bruno ergueu a taça.

“Ao patrocinador oficial da família Figueiredo.”

Isadora cobriu a boca, fingindo repreendê-lo, mas ria também.

Eu me levantei e ergui minha taça.

“À família”, disse.

Bruno inclinou a cabeça, satisfeito.

Eu bebia água.

Do outro lado do salão, Marina olhou para o telefone. Ela não participava da festa como minha advogada. Fora convidada meses antes como amiga de minha mãe.

A tela acendeu.

Ela levantou os olhos e fez um gesto quase imperceptível com a cabeça.

Saí durante os aplausos e a encontrei no corredor lateral.

“A decisão saiu”, disse. “O juiz autorizou a preservação e o bloqueio cautelar dos valores identificados nas contas ligadas às operações questionadas. O banco já foi comunicado.”

“E a transferência?”

“Não vai para Montevidéu.”

O ar deixou meus pulmões lentamente.

“Há mais”, Marina continuou. “A investigação obteve autorização para apreender os dispositivos e documentos vinculados às aprovações. A execução será coordenada para evitar destruição de prova.”

“Quando?”

“Amanhã. Depois que todos os equipamentos relevantes estiverem no mesmo local.”

Olhei para a pasta de Bruno, apoiada ao lado de sua cadeira no salão.

“Ele nunca viaja sem aquele computador.”

“Então não dê motivo para que viaje hoje.”

Voltei à mesa e pedi outra garrafa do vinho favorito dele.

Mais tarde, reuni Lúcia, Janaína, Antônio e Diego numa sala reservada. Cada um já havia conversado com seu próprio advogado.

“Amanhã vocês não precisam trabalhar nem estar presentes”, expliquei. “Os pagamentos serão feitos de qualquer forma. Ninguém precisa aparecer diante de convidados para provar nada.”

Antônio escolheu voltar ao Rio naquela noite. Diego ficaria apenas para conduzir os veículos e aguardaria fora da capela. Janaína queria estar com Lúcia.

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“E a senhora?” perguntei.

Lúcia ajeitou a alça da bolsa onde guardava o caderno preto.

“Passei nove anos entrando pela porta de serviço.”

“Amanhã pode entrar por qualquer porta.”

“Então vou pela da frente.”

“Como funcionária?”

“Como testemunha.”

No sábado, o céu amanheceu claro e sem vento.

A capela foi coberta por rosas brancas. Músicos afinavam os instrumentos enquanto câmeras registravam a chegada dos convidados. Na primeira fila, Bruno mantinha a pasta do computador junto aos pés.

Antes de os convidados ocuparem a capela, Marina entregou ao técnico da projeção uma unidade lacrada. Ela continha apenas três trechos preservados, sem imagens privadas além daquelas cuja exibição os trabalhadores haviam autorizado.

“Ele só abre quando eu pedir”, Marina disse.

“E se a autorização para apreensão for suspensa?”

“Então não exibimos nada e seguimos pela via judicial. Seu plano precisa sobreviver mesmo sem plateia.”

Concordei. O casamento terminaria de qualquer forma. O espetáculo nunca poderia ser mais importante que a prova.

Lúcia entrou pela porta principal usando um vestido azul-marinho. Janaína caminhava ao seu lado.

Eu mesmo as conduzi até dois lugares reservados entre os convidados.

Isadora chegou vinte minutos depois.

Quando as portas se abriram, todos se levantaram.

Ela surgiu sob o arco de flores com o vestido branco, o véu perfeitamente estendido e um sorriso de quem se aproximava de uma vida que já considerava sua.

Durante a caminhada até o altar, seus olhos encontraram Lúcia.

O sorriso vacilou.

Depois ela me viu e recuperou o controle.

Segurei suas mãos diante do celebrante.

As mesmas mãos que haviam derramado vinho, alterado jornadas e usado meu nome para movimentar milhões apertaram as minhas com confiança.

O celebrante falou sobre lealdade, verdade e a escolha diária de proteger quem se ama.

Então fez a primeira pergunta.

“Isadora Figueiredo, você aceita Henrique Tavares como seu marido?”

Ela sorriu para mim.

“Sim. Para sempre.”

Alguns convidados suspiraram. As câmeras se aproximaram.

O celebrante virou-se em minha direção.

“Henrique Tavares, você aceita Isadora Figueiredo como sua esposa?”

Soltei as mãos dela.

Isadora franziu a testa.

Abri a boca.

 

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