"A Mamadeira Que Salvou Uma Família" Capítulo 5
Isabela não dormiu naquela noite.
Permaneceu sentada na cama, com o bilhete sobre a mesa e a porta trancada, ouvindo cada ruído do corredor como se alguém pudesse voltar a qualquer momento.
Quando amanheceu, Henrique já sabia de tudo.
Ele entrou no quarto acompanhado de Bruno e ficou alguns segundos olhando a gaveta aberta, a bolsa caída no chão e o papel deixado sobre a cama.
"Quem sabia que o frasco estava aqui?"
Isabela apertou os dedos.
"Eu e Clara."
Henrique virou o rosto.
"Mais ninguém?"
"Não que eu saiba."
Bruno fotografou o bilhete.
Henrique pegou a folha usando um lenço.
Leu novamente a frase.
"Você devia ter deixado o bebê beber."
A mandíbula dele endureceu.
Aquilo já não era apenas uma tentativa contra Miguel.
Era uma ameaça direta a Isabela.
"Você não volta a dormir aqui."
Isabela o encarou.
"Senhor Henrique..."
"Não é uma sugestão."
"Eu não quero causar mais problema."
Henrique soltou uma risada seca.
"Problema é alguém entrar no seu quarto, roubar uma possível prova e deixar uma ameaça."
Isabela ficou em silêncio.
"Você vai ficar no quarto ao lado do Miguel."
Ela arregalou os olhos.
"No quarto de apoio?"
"Sim."
"Mas dona Helena..."
"Eu vou falar com ela."
Henrique guardou o bilhete em um envelope plástico.
"Se alguém está com medo do que você percebeu, eu prefiro ter você perto do meu filho do que escondida na área dos funcionários."
Isabela sentiu um peso estranho no peito.
"Por quê?"
Henrique a encarou.
"Porque até agora você foi a única pessoa nesta casa que conseguiu impedir que algo acontecesse com ele."
Horas depois, Helena recebeu a notícia sem discutir.
Isso surpreendeu Isabela mais do que qualquer outra coisa.
A porta do quarto de Miguel estava aberta quando ela entrou.
Helena permanecia sentada na poltrona, observando o filho dormir.
"Fecha a porta."
Isabela obedeceu.
Helena não levantou os olhos de imediato.
"Eu soube do bilhete."
"Sim."
"Você está com medo?"
Isabela pensou antes de responder.
"Estou."
Helena assentiu.
"Eu também."
O silêncio entre as duas foi diferente daquela primeira manhã.
Já não havia raiva.
Havia constrangimento.
Helena se levantou devagar.
"Eu preciso te dizer uma coisa."
Isabela esperou.
Helena respirou fundo.
"Eu bati em você."
Isabela baixou os olhos.
"Eu lembro."
"Eu também."
Helena apertou os lábios.
"Desde aquele dia."
Ela olhou para Miguel.
"Eu não consigo esquecer."
Isabela não sabia o que dizer.
Helena continuou.
"Eu achei que você fosse machucar meu filho."
"Eu entendo."
"Não."
Helena virou para ela.
"Não tenta facilitar para mim."
Isabela ficou imóvel.
Helena respirou fundo.
"Você salvou o Miguel e eu te derrubei no chão."
A voz dela falhou.
"Pior. Eu mandei você sair de perto dele."
Isabela sentiu os olhos arderem.
"Eu teria feito a mesma coisa de novo."
Helena franziu a testa.
"Mesmo sabendo que eu podia te bater?"
"Mesmo assim."
Por alguns segundos, Helena não respondeu.
Depois aproximou-se.
"Me desculpa."
Isabela ergueu os olhos.
Helena repetiu.
"Me desculpa, Isabela."
Não havia orgulho naquela voz.
Só culpa.
Isabela assentiu.
"Está bem."
Helena soltou o ar lentamente.
"Não está."
Ela olhou para o filho.
"Mas talvez um dia fique."
Antes que Isabela respondesse, Henrique apareceu na porta.
"Helena, preciso falar com você."
O rosto dele não trazia boas notícias.
Ela percebeu na mesma hora.
"O que foi agora?"
"Vitória."
Helena fechou os olhos.
"Não."
"Encontramos movimentações financeiras."
Isabela deu um passo para trás.
Henrique entrou e fechou a porta.
"Eu pedi ao Bruno para verificar as contas dela."
Helena o encarou.
"E?"
"Ela tem dívidas."
"Todo mundo tem dívida."
"Não nesse valor."
Helena ficou rígida.
"Quanto?"
"Cerca de quatrocentos e oitenta mil reais."
Helena ficou em silêncio.
Henrique continuou.
"Cartões, empréstimos, uma dívida particular e pagamentos atrasados."
"Ela nunca me falou."
"Tem mais."
Helena ergueu os olhos.
"Recebeu cento e cinquenta mil reais há três semanas."
A expressão dela mudou.
"De quem?"
"Conta de uma empresa intermediária."
"E quem é o dono?"
"Estamos rastreando."
Helena levou a mão ao peito.
Três semanas.
O mesmo período em que os sintomas de Miguel haviam começado a ficar mais frequentes.
"Não."
Henrique não respondeu.
"Não."
Helena repetiu mais forte.
"Ela pode ter recebido por qualquer motivo."
"Pode."
"Então não olha para mim desse jeito."
"Eu não estou dizendo que foi ela."
"Mas está pensando."
Henrique permaneceu em silêncio.
Isso bastou.
Helena saiu do quarto.
Encontrou Vitória no andar de baixo, sentada à mesa da sala de jantar.
A irmã levantou assim que a viu.
"Helena..."
"Quanto?"
Vitória ficou confusa.
"Quanto o quê?"
Helena se aproximou.
"Quanto você recebeu?"
Vitória empalideceu.
"Do que você está falando?"
"Não mente para mim."
Henrique chegou logo atrás.
Vitória olhou para ele.
Entendeu.
"Vocês mexeram nas minhas contas?"
Helena riu sem humor.
"Meu filho está sendo envenenado e você está preocupada com privacidade?"
"Eu não fiz nada!"
"Então explica os cento e cinquenta mil."
Vitória abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Helena sentiu o chão desaparecer sob os pés.
"Meu Deus."
"Helena..."
"Você recebeu dinheiro."
Vitória começou a chorar.
"Não foi por isso."
"Por isso o quê?"
"Não foi para machucar o Miguel."
Helena avançou.
"Quanto vale a vida do meu filho para você?"
Vitória recuou como se tivesse levado um tapa.
"Não fala isso."
"Quanto?"
"Eu amo o Miguel."
"Quanto?"
Vitória chorava abertamente.
"Eu não recebi dinheiro para envenenar ninguém!"
"Mas recebeu."
"Sim!"
A palavra explodiu na sala.
Helena ficou imóvel.
Henrique também.
Vitória levou as mãos ao rosto.
"Eu recebi."
Helena balançou a cabeça.
"De quem?"
"Eu não sei."
Henrique deu um passo.
"Você recebeu cento e cinquenta mil de alguém que não conhece?"
"Não foi assim."
"Então explica."
Vitória respirou fundo.
"Recebi uma mensagem de um número desconhecido."
Henrique franziu a testa.
"Quando?"
"Há quase um mês."
"E o que dizia?"
Vitória enxugou o rosto.
"Que sabiam das minhas dívidas."
Helena fechou os olhos.
Vitória continuou.
"Disseram que podiam resolver parte delas."
"Em troca de quê?"
Vitória olhou para a irmã.
"De um documento."
Helena sentiu um arrepio.
"Que documento?"
Vitória hesitou.
Henrique elevou a voz.
"Fala."
Ela respirou fundo.
"Um exame do Miguel."
Helena ficou branca.
"Qual exame?"
Vitória chorou ainda mais.
"Um teste de DNA."
O silêncio caiu pesado na sala.
Henrique demorou alguns segundos para reagir.
"Você roubou um teste de DNA do meu filho?"
Vitória apertou as mãos.
"Eu não sabia por quê."
"Mas fez."
"Eu precisava do dinheiro."
Helena deu um passo para trás.
"Você entrou no quarto dele procurando isso."
Vitória assentiu.
"Sim."
"Então era mentira aquela história de que alguém tinha mexido nos documentos."
"Não."
Vitória ergueu a cabeça.
"Essa parte é verdade."
Henrique estreitou os olhos.
"Explica."
"Quando recebi a mensagem, fui procurar o exame."
"E?"
"Não achei."
"Porque alguém já tinha levado?"
"Eu acho que sim."
Helena levou a mão à boca.
Vitória continuou.
"Depois recebi outra mensagem dizendo que o documento tinha sido recolocado e que eu devia procurar de novo."
Henrique ficou imóvel.
"Quem mandava essas mensagens sabia o que acontecia dentro desta casa."
"Sim."
"Você respondeu?"
"Algumas vezes."
"Guardou?"
"Apaguei."
Henrique soltou uma respiração furiosa.
"Claro."
"Eu estava com medo!"
"Você estava recebendo dinheiro de um estranho para roubar informação médica de um bebê."
Vitória começou a tremer.
"Eu sei."
"Não, você não sabe."
Helena a encarava como se não reconhecesse mais a própria irmã.
"O que você fez com o exame?"
"Entreguei uma cópia."
"Para quem?"
"Não vi a pessoa."
Henrique se aproximou.
"Onde?"
"Num estacionamento perto da Avenida Faria Lima."
"Como?"
"Mandaram deixar dentro de um envelope, embaixo de um carro."
Henrique fechou os olhos por um instante.
"Que carro?"
"Um sedã cinza."
"Placa?"
"Eu não anotei."
Helena soltou uma risada amarga.
"Incrível."
Vitória chorou.
"Eu achei que fosse alguma briga de herança."
Henrique abriu os olhos.
"Por que você achou isso?"
"Porque a mensagem dizia que o exame provava quem tinha direito ao que."
Henrique ficou imóvel.
A frase atingiu diretamente o que haviam descoberto sobre o testamento de Antônio.
Helena percebeu também.
"O exame provava quem tinha direito ao quê?"
Vitória assentiu.
"Foi isso que escreveram."
Henrique andou até a janela.
Tudo começava a se conectar.
As ações.
O nascimento de Miguel.
O testamento.
Agora um teste de DNA roubado.
Helena olhou para ele.
"Por que alguém precisaria provar que o Miguel é filho do Henrique?"
Ninguém respondeu.
Vitória baixou a voz.
"Talvez não quisessem provar."
Henrique virou lentamente.
"O que você disse?"
Ela engoliu em seco.
"Talvez quisessem fazer parecer o contrário."
Helena abraçou o próprio corpo.
Henrique ficou parado.
Se alguém tivesse tentado alterar, substituir ou desaparecer com aquele exame, então o objetivo podia ser muito maior do que dinheiro imediato.
Podia ser apagar Miguel da linha sucessória.
Ou criar uma dúvida capaz de destruir tudo.
Henrique pegou o celular.
Ligou para Rafael.
"Quero todos os exames de DNA feitos no Miguel desde o nascimento."
Do outro lado, houve uma pausa.
Henrique franziu a testa.
"Rafael?"
A resposta veio mais baixa do que ele esperava.
"Henrique... existe um problema."
"Que problema?"
"Eu acabei de procurar no sistema."
Henrique apertou o telefone.
"E?"
Rafael respirou fundo.
"O exame original não está mais no prontuário."
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