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"A Mamadeira Que Salvou Uma Família" Capítulo 4

正文开头

Henrique encontrou Clara na cozinha, parada diante do pequeno frasco de vidro escuro.

Isabela permanecia ao lado da bancada, ainda usando as luvas, mas ninguém tocava no objeto.

Henrique fechou a porta atrás de si.

"Clara, olha para mim."

A governanta ergueu os olhos.

"Você disse que meu pai tinha um frasco parecido."

Clara assentiu.

"Quero saber exatamente o que você quis dizer."

"Senhor Henrique..."

"Sem me proteger."

Ela respirou fundo.

"Eu não estou tentando proteger o senhor."

"Então está protegendo quem?"

Clara empalideceu.

"Ninguém."

Henrique apontou para o frasco.

"Meu filho quase foi envenenado. Isso apareceu no lixo da minha cozinha e você acabou de dizer que viu algo parecido antes da morte do meu pai."

A voz dele permaneceu baixa.

Era exatamente por isso que parecia mais ameaçadora.

"Se existe alguma coisa que você escondeu de mim, este é o momento de falar."

Clara baixou os olhos.

Isabela percebeu que a mulher estava lutando contra uma decisão que adiara durante anos.

"Eu prometi ao seu pai."

Henrique endureceu.

"Prometeu o quê?"

"Que não falaria enquanto não fosse necessário."

"Meu filho correr risco de vida não é necessário o bastante?"

Clara fechou os olhos.

"É."

Quando voltou a abri-los, parecia mais velha.

"Seu pai mudou o testamento antes de morrer."

Henrique franziu a testa.

"Eu conheço o testamento."

"Conhece a versão apresentada depois da morte dele."

"É a mesma coisa."

"Não completamente."

O silêncio se instalou na cozinha.

Henrique puxou uma cadeira.

"Senta."

Clara permaneceu em pé.

"Prefiro ficar."

"Então fala."

Ela olhou para Isabela.

Henrique percebeu.

"Ela fica."

"Senhor Henrique..."

"Foi Isabela quem encontrou o frasco. Se alguém tentou matar meu filho, eu não vou afastar justamente a pessoa que percebeu primeiro."

Isabela não disse nada.

Clara finalmente começou.

Antônio Montenegro adoecera nos últimos meses de vida.

Oficialmente, os médicos atribuíam a piora à idade, ao estresse e a complicações cardiovasculares.

Mas antes de morrer, Antônio havia mudado de comportamento.

Passara a trancar o escritório.

Revisava documentos durante a madrugada.

Ligava pessoalmente para advogados que antes tratavam diretamente com a diretoria do Grupo Montenegro.

"Ele desconfiava de alguém?"

Henrique perguntou.

"Eu nunca soube de quem."

"Mas você sabia do testamento."

"Sabia que ele estava alterando."

"Como?"

"Porque fui eu quem levou uma pasta para o advogado dele."

Henrique ficou rígido.

"Qual advogado?"

"Doutor Álvaro Siqueira."

Henrique conhecia o nome.

Álvaro havia trabalhado para Antônio durante décadas e se aposentara pouco depois da morte dele.

Clara continuou.

"Seu pai me disse que havia coisas dentro da família que precisavam ficar protegidas mesmo depois que ele morresse."

"Que coisas?"

"Ele não explicou."

"Você levou a pasta e nunca perguntou?"

"Naquela época, empregados não faziam perguntas ao senhor Antônio."

Henrique soltou uma respiração pesada.

"Continua."

Clara contou que, dias depois, Antônio mencionara uma cláusula.

Não dera valores.

Não explicara todos os detalhes.

Mas dissera uma frase que Clara nunca esqueceu.

"Ele disse: 'Henrique só vai receber tudo quando houver alguém depois dele.'"

正文1

Henrique ficou em silêncio.

Isabela tentou entender.

"Alguém depois dele?"

Clara olhou para ela.

"Um herdeiro."

Henrique levantou devagar.

"Meu filho."

"Sim."

Ele caminhou até a janela.

Por alguns segundos, ninguém falou.

"Você está dizendo que parte do patrimônio do meu pai ficou bloqueada até eu ter um filho?"

"Não sei os termos jurídicos exatos."

"Mas sabia da condição."

"Sim."

Henrique virou.

"E por que isso não apareceu quando o testamento foi aberto?"

"Talvez tenha aparecido."

"Eu estava lá."

"Naquela época o senhor tinha vinte e nove anos, não era casado e não tinha filhos. A cláusula não mudava nada naquele momento."

Henrique apertou a mandíbula.

Agora mudava.

Tudo.

"Quem mais sabia?"

Clara hesitou.

"Seu pai. O advogado. Talvez dona Teresa."

"Talvez?"

"Nunca conversei com ela sobre isso."

Henrique pegou o celular.

"Bruno."

O segurança atendeu imediatamente.

"Senhor."

"Localiza Álvaro Siqueira."

"O advogado?"

"Agora."

Henrique desligou.

Quando saiu da cozinha, encontrou Teresa no corredor.

Ela havia ouvido seu nome.

"O que você quer com Álvaro?"

Henrique parou.

"Então você sabia."

Teresa não perguntou sobre o quê.

Isso bastou.

Henrique riu sem humor.

"Inacreditável."

"Henrique..."

"Quanto?"

A mãe permaneceu imóvel.

"Quanto dinheiro depende do Miguel?"

Teresa olhou para Isabela e Clara.

"Vamos conversar no escritório."

"Não."

"Não faça isso no corredor."

"Meu filho quase morreu dentro desta casa. Eu não estou preocupado com etiqueta."

Teresa respirou fundo.

"Não é dinheiro."

"O que é?"

"Ações."

Henrique ficou em silêncio.

"Quantas?"

Teresa demorou.

"Dezoito por cento."

Henrique a encarou.

Dezoito por cento do Grupo Montenegro não era apenas uma fortuna.

Era poder.

O conglomerado tinha participações em construção civil, logística, energia e empreendimentos imobiliários em vários estados.

"Você está dizendo que dezoito por cento estavam em administração fiduciária?"

"Sim."

"E agora?"

"Com o nascimento de Miguel, a condição sucessória foi cumprida."

Henrique passou a mão pelo rosto.

"Valor."

"Henrique..."

"Quero o valor."

Teresa respondeu baixo.

"Considerando a última avaliação do grupo, mais de um bilhão de reais."

Isabela prendeu a respiração.

Henrique permaneceu imóvel.

Mais de um bilhão.

Ligados à existência de uma criança de seis meses.

"Quem receberia essas ações se eu nunca tivesse um herdeiro?"

Teresa desviou os olhos.

Henrique percebeu.

"Mãe."

"Existia uma linha sucessória alternativa."

"Quem?"

Ela fechou os olhos por um instante.

"A família do seu tio Roberto."

Henrique entendeu imediatamente.

"Augusto."

Teresa não respondeu.

Não precisava.

Augusto Montenegro era filho de Roberto, irmão mais novo de Antônio.

Henrique e Augusto haviam crescido praticamente juntos.

Tinham estudado nos mesmos colégios, viajado com as mesmas famílias e entrado no Grupo Montenegro com poucos anos de diferença.

Hoje Augusto comandava parte das operações financeiras da empresa.

Henrique sentiu um gosto amargo na boca.

"Ele sabia?"

"Eu não sei."

"Não mente para mim."

"Eu realmente não sei."

Henrique pegou o telefone novamente.

Havia uma mensagem de Bruno.

Álvaro Siqueira estava em Campinas.

Henrique respondeu apenas:

"Traga ele amanhã."

Helena apareceu no topo da escada.

正文2

"Henrique?"

Ele levantou o rosto.

Ela desceu carregando Miguel.

"O que aconteceu?"

Henrique olhou para o filho.

Agora tudo parecia diferente.

Não porque Miguel tivesse mudado.

Mas porque alguém podia olhar para aquele bebê e enxergar ações, votos, controle empresarial e mais de um bilhão de reais.

"Precisamos conversar."

No escritório, Helena ouviu tudo.

Quando Teresa terminou de explicar a cláusula, Helena ficou tão pálida quanto estivera no hospital.

"Então alguém pode querer meu filho morto por causa de dinheiro?"

"Nós ainda não sabemos."

Henrique respondeu.

"Eu sei que colocaram veneno na mamadeira dele."

Helena olhou para Teresa.

"E você nunca me contou?"

"Não havia motivo."

"Não havia motivo?"

Helena levantou a voz.

"Meu filho nasceu com um alvo nas costas e você achou que eu não precisava saber?"

"Não dramatize."

Helena quase perdeu o controle.

"Não me diga para não dramatizar depois do que aconteceu!"

Miguel começou a se agitar.

Isabela se aproximou instintivamente, mas parou antes de tocar nele.

Helena percebeu.

Dessa vez, não recuou.

Apenas ajeitou o bebê.

Henrique estava diante da janela.

Na cabeça dele, um nome continuava voltando.

Augusto.

Naquela noite, Henrique ligou para o primo.

Augusto atendeu no terceiro toque.

"Henrique? Aconteceu alguma coisa?"

Henrique ficou em silêncio por um segundo.

"Você sabia da cláusula do testamento do meu pai?"

Do outro lado, também houve silêncio.

Curto demais para parecer surpresa.

Longo demais para passar despercebido.

"Que cláusula?"

"Não brinca comigo."

"Eu não sei do que você está falando."

"Dezoito por cento."

Augusto não respondeu.

Henrique apertou o telefone.

"Agora você entendeu?"

"Henrique, onde você quer chegar?"

"Eu fiz uma pergunta."

"Então pergunta direito."

"Você sabia que, depois que Miguel nasceu, sua família perdeu qualquer possibilidade de receber aquelas ações?"

A voz de Augusto mudou.

"Você está me acusando de alguma coisa?"

"Ainda não."

"Ainda?"

"Meu filho foi envenenado."

Silêncio.

Dessa vez, a reação pareceu verdadeira.

"O quê?"

Henrique desligou.

Não queria ouvir mais nada naquela noite.

Pouco depois das onze, a mansão estava silenciosa.

Isabela terminou de ajudar na organização da cozinha e seguiu para a área dos funcionários.

O frasco encontrado no lixo deveria ser entregue a Henrique pela manhã.

Antes disso, ela decidira escondê-lo em seu quarto.

Não confiava mais em deixar qualquer coisa importante em uma área comum.

Chegou ao corredor.

Parou.

A porta de seu quarto estava entreaberta.

Isabela tinha certeza de que a havia trancado.

Seu coração acelerou.

"Clara?"

Nenhuma resposta.

Ela empurrou a porta.

A luz estava apagada.

Isabela acendeu.

A cama havia sido mexida.

Uma gaveta estava aberta.

Sua bolsa estava no chão.

Ela correu até o pequeno armário onde havia escondido o frasco dentro de uma caixa.

Abriu.

Vazio.

Isabela sentiu as pernas enfraquecerem.

Alguém havia entrado ali.

Alguém sabia que ela encontrara o frasco.

Então viu a cama.

No centro do lençol havia uma folha dobrada.

Isabela se aproximou devagar.

Pegou o papel.

Havia apenas uma frase, escrita em letras grandes.

"Você devia ter deixado o bebê beber."

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