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"As Rosas Que Não Chegaram ao Altar" Capítulo 3 — O Caderno Preto

正文开头

Capítulo 3 — O Caderno Preto

Isadora se levantou e limpou as mãos.

“Você costuma procurar coisas que ainda não sabe que perdeu?” perguntei.

Ela demorou um instante. Depois sorriu.

“Estou nervosa com o casamento. Minha cabeça virou uma bagunça.”

“E por isso resolveu organizar os armários da equipe às dez e meia da noite?”

“A Lúcia anda estranha.”

“Estranha como?”

“Ressentida. Depois da cena que você fez ontem, ela deve estar achando que pode me desafiar.”

Fechei o armário de Antônio e comecei a recolocar os objetos no lugar.

“A cena foi você derramando vinho no chão.”

“Foi um acidente.”

“Ontem você disse que Lúcia derrubou a garrafa.”

Pela primeira vez, Isadora demorou a responder.

“Foi isso que eu quis dizer.”

“Claro.”

Ela se aproximou e passou os braços pela minha cintura.

“Não vamos brigar por causa de empregados a quatro dias do nosso casamento.”

Empregados.

Não Lúcia, Janaína ou Diego. Apenas uma categoria conveniente, pequena o suficiente para ser sacrificada em nome da paz.

Toquei o rosto dela.

“Não vamos brigar.”

Isadora me beijou.

Eu correspondi porque precisava que ela acreditasse em mim por mais quatro dias.

Na manhã seguinte, disse que revisaria os últimos pagamentos da festa antes de liberar a parcela final. Ela revirou os olhos, mas me entregou o tablet doméstico.

“Você e essa necessidade de conferir tudo.”

“É o que paga as rosas.”

“Então confira rápido. Temos a prova dos acessórios às quatro.”

O aparelho estava vinculado às minhas contas e aos sistemas de fornecedores da casa. Não precisei acessar nada que não fosse meu.

Baixei os extratos, os relatórios de despesas e as notas apresentadas pela Aurora Prime. Depois devolvi o tablet ao mesmo lugar.

Às dez e vinte, Marina entrou em minha sala.

“Você tem certeza de que quer descobrir isso antes do casamento?” perguntou.

“Tenho certeza de que não vou me casar sem descobrir.”

Contei sobre o vinho, os recibos, as entregas e a mensagem de Dona Lúcia. Marina não interrompeu. Quando terminei, afastou o café e estendeu a mão.

“Me dê apenas cópias. Preserve os originais e registre de quem recebeu cada item.”

Entreguei-lhe as cópias reunidas e uma tabela com datas ainda incompleta.

“E Lúcia?”

“Está com medo.”

“Então não a pressione.”

“Isadora mencionou a família dela.”

“Descubra o que isso significa sem prometer o que não pode cumprir.”

Mandei uma única mensagem para Dona Lúcia.

“Não vou pedir que a senhora denuncie ninguém. Só preciso saber se sua família está em risco imediato. A decisão de falar continuará sendo sua.”

Ela respondeu uma hora depois com o endereço de uma padaria em Botafogo.

Chegou antes de mim e escolheu uma mesa próxima à saída. Vestia uma blusa florida e segurava a bolsa contra o peito.

“Minha filha trabalha numa clínica que recebe publicidade da dona Isadora”, explicou antes mesmo que eu me sentasse. “Ela disse que bastava uma ligação para a clínica mandar minha menina embora.”

正文1

“Qual é o nome da sua filha?”

“Renata.”

“Isadora falou diretamente com a clínica?”

“Não sei. Mas ela mostrou o número do dono no telefone.”

“Marina pode orientar Renata separadamente. Sem usar você como condição e sem falar com a clínica antes que ela autorize.”

Dona Lúcia me estudou.

“A doutora trabalha para o senhor.”

“Trabalha. Por isso ela indicará outra pessoa para representar você, se preferir.”

“E quem paga?”

“Eu pago a primeira consulta. Depois você decide se aceita qualquer outra ajuda.”

Ela soltou a bolsa, mas não relaxou completamente.

“Eu não quero dinheiro para mentir.”

“Nem eu quero comprar uma verdade.”

O garçom trouxe café. Dona Lúcia esperou que ele se afastasse, abriu a bolsa e retirou um caderno preto do tamanho da palma da mão.

“Eu escrevi tudo que consegui.”

Não estendi a mão.

“Posso olhar?”

Ela empurrou o caderno em minha direção.

As primeiras páginas traziam listas comuns: produtos de limpeza, horários de manutenção, refeições. Depois, a caligrafia ficava menor e mais apertada.

Datas.

Valores.

Números de notas fiscais.

Placas de carros.

Frases que Isadora e Bruno haviam dito quando acreditavam que Dona Lúcia não era importante o bastante para compreender.

“12 de agosto — Bruno levou a pasta azul. Disse que H. aprovaria depois.”

“3 de outubro — Isadora mandou Janaína assinar sem valor.”

“19 de dezembro — dinheiro na bolsa preta. Diego levou para o Recreio.”

Virei outra página.

Uma anotação estava marcada por duas linhas vermelhas.

“14 de março — Bruno me obrigou a testemunhar a assinatura de Henrique. Henrique estava em Belo Horizonte. Isadora disse que, depois do casamento, tudo seria deles e ninguém acreditaria numa faxineira.”

Eu passara aquele dia inteiro numa reunião em Belo Horizonte. Havia bilhetes, registros do hotel e dezenas de testemunhas.

“Que documento era?”

“Uma autorização de pagamento. Tinha o símbolo de uma empresa com um sol dourado.”

Aurora Prime.

“Você assinou?”

“Assinei como testemunha.”

“Por quê?”

Ela ergueu o queixo.

“Porque o Bruno colocou o telefone na minha frente com uma foto da Renata saindo da clínica.”

Minha mão se fechou sobre a borda da mesa.

“Eles seguiram sua filha?”

“Não sei. Talvez a foto estivesse na internet. Naquele momento, não fez diferença.”

Respirei antes de falar.

“Por que começou a escrever?”

Dona Lúcia olhou para o caderno.

“Minha mãe trabalhava em casa de família. Acusaram ela de roubar um colar que a patroa tinha emprestado. Quando encontraram, ninguém pediu desculpa. Ela morreu dizendo que, na casa dos ricos, a palavra de quem limpa vale menos do que a poeira.”

Seus dedos tocaram a capa preta.

“Eu não escrevi porque sabia que o senhor ia me salvar. Nem sabia se o senhor acreditaria em mim.”

“Então por quê?”

“Porque, se um dia eles contassem a história, eu não queria que a mentira fosse a única versão que sobrasse.”

Fechei o caderno devagar.

Durante anos, Isadora dissera que eu dava importância demais a pessoas que não podiam me oferecer nada.

Ali estava a prova de que ela nunca entendera o valor de alguém que prestava atenção.

Liguei para Marina. Ela chegou com envelopes, termos simples e um especialista para digitalizar o caderno diante de Dona Lúcia.

Marina explicou cada etapa.

“O caderno é seu”, disse. “Nós só vamos produzir uma cópia documentada. Você poderá parar quando quiser.”

Dona Lúcia assentiu.

Ao final, Lúcia guardou o original. Marina ficou com a cópia lacrada e o registro de recebimento.

“Quero depor”, Dona Lúcia disse.

“Não precisa decidir hoje”, respondi.

“Eu já decidi há meses. Só estava esperando uma porta que não levasse de volta para a mesma casa.”

Às dezesseis horas, eu estava numa joalheria do Leblon com Isadora.

Ela experimentava brincos de diamantes diante de um espelho cercado de luz branca.

“Estes ou os de esmeralda?” perguntou.

“Os de diamantes combinam mais com o vestido.”

“Você nem está olhando.”

“Estou olhando.”

Meu telefone vibrou no bolso.

Isadora se virou para a vendedora, e eu li a mensagem de Marina.

“Confirmei o documento de 14 de março. Sua assinatura foi falsificada. Estou verificando o contrato social da Aurora Prime.”

Apaguei a notificação da tela e ergui os olhos.

Isadora sorria para o próprio reflexo, sem imaginar que Dona Lúcia havia guardado cada data que ela mandara apagar.

Depois, deixei-a na prova final do vestido e segui para o escritório de Marina.

Ela me esperava de pé, junto à janela, com uma ficha cadastral aberta sobre a mesa.

“Henrique, sente-se.”

“Prefiro ficar em pé.”

Marina virou o documento para mim e apontou o nome do único administrador registrado.

Bruno Augusto Figueiredo.

“A empresa que recebeu o seu dinheiro pertence ao Bruno.”

 

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