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"As Rosas Que Não Chegaram ao Altar" Capítulo 1 — As Rosas e o Vinho

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Capítulo 1 — As Rosas e o Vinho

Voltei de São Paulo com vinte e quatro rosas brancas no banco de trás e encontrei a mulher com quem me casaria ensinando uma funcionária a ser humilhada.

A viagem terminara um dia antes do previsto. Eu havia recusado o jantar de encerramento com o cliente, trocado meu voo e atravessado o Rio de Janeiro sob uma chuva fina só para surpreender Isadora.

Ela dizia que rosas brancas tinham o perfume de um começo limpo.

Naquele fim de tarde, porém, o primeiro cheiro que me recebeu em casa foi o de vinho tinto.

Parei na entrada da cozinha sem fazer barulho.

Dona Lúcia estava ajoelhada diante da ilha de mármore, com um pano cinza apertado entre os dedos deformados pela artrite. O piso claro ainda brilhava de tão limpo.

Isadora segurava uma garrafa vazia de Bordeaux pelo gargalo.

Bruno, seu irmão, ocupava um dos bancos altos com uma taça na mão e os sapatos apoiados no descanso de metal.

“Ainda ficou manchado”, Isadora disse.

Dona Lúcia olhou para o piso.

“Eu passei três vezes, dona Isadora.”

“Então passe uma quarta.”

Isadora inclinou a garrafa.

Uma última gota escorreu pelo vidro, caiu no mármore e se abriu como uma pequena ferida vermelha.

Bruno riu.

“Cuidado, Isa. O Henrique pode chegar e adotar mais uma pessoa necessitada.”

“Ele só volta amanhã.”

“Melhor ainda. Até lá, ela aprende.”

O papel que envolvia as rosas rangeu sob meus dedos.

Dona Lúcia ergueu os olhos e me viu.

Não houve alívio em seu rosto.

Houve medo.

Ela baixou a cabeça imediatamente, como se ter sido flagrada sofrendo fosse outra falta pela qual pudesse ser punida.

Foi isso, mais do que a garrafa, que fez alguma coisa dentro de mim se partir.

“Henrique?”

Isadora se virou. Levou menos de um segundo para abandonar a expressão de desprezo e vestir o sorriso que seus seguidores conheciam.

“Meu amor! Você não chegaria só amanhã?”

Bruno tirou os pés do banco, mas não pareceu constrangido. Apenas ergueu a taça em minha direção.

“O noivo pródigo voltou.”

Isadora se aproximou para me beijar. Seus olhos passaram pelas rosas, pela mala atrás de mim e por Dona Lúcia.

Eu conhecia aquela velocidade. Em meu trabalho, via executivos inventarem explicações entre uma pergunta e outra. Os melhores mentirosos não hesitavam. Eles ofereciam detalhes antes que alguém pudesse pedi-los.

“Lúcia derrubou a garrafa”, ela disse. “Eu estava tentando fazê-la limpar antes que o vinho penetrasse na pedra.”

Olhei para a mão de Isadora ainda fechada em torno do gargalo.

“Eu vi.”

Seu sorriso não desapareceu. Apenas ficou mais imóvel.

Bruno bebeu um gole.

“Então você viu uma funcionária sendo corrigida.”

Coloquei a mala junto à parede e caminhei até Dona Lúcia.

“Me dê sua mão.”

“Não precisa, seu Henrique.”

“Precisa, sim.”

Ela hesitou antes de apoiar a mão na minha. Seus dedos estavam gelados. Quando a ajudei a se levantar, percebi que ela evitava firmar o peso no joelho esquerdo.

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Nove anos.

Dona Lúcia trabalhava naquela casa havia nove anos. Conhecera minha mãe, cuidara dela durante os últimos meses de tratamento e, depois do enterro, fora a única pessoa capaz de abrir as cortinas do meu quarto sem me perguntar se eu já estava melhor.

Eu nunca a considerara parte da mobília.

Mas talvez tivesse permitido que outra pessoa a tratasse assim.

“Vá para casa”, eu disse. “O dia será pago por inteiro. Diego pode levá-la.”

Isadora cruzou os braços.

“Ela ainda não terminou.”

“Terminou por hoje.”

“Nós vamos conversar sobre isso.”

“Claro.”

Peguei o pano da mão de Dona Lúcia e o deixei dentro da pia. Ela quis dizer alguma coisa, mas olhou para Isadora e desistiu.

“Obrigada, seu Henrique.”

“Henrique. Só Henrique.”

Ela assentiu e saiu pela porta de serviço.

Bruno soltou uma risada curta.

“Você continua igual. Basta alguém fazer cara de sofrimento e lá vai você resolver a vida da pessoa.”

“Ainda bem”, respondi. “Seria preocupante voltar de viagem como outra pessoa.”

Ele não percebeu o aviso.

Isadora percebeu. Aproximou-se, ajeitou a gola da minha camisa e baixou a voz.

“Você é bom demais, amor. É por isso que as pessoas se aproveitam de você.”

Durante três anos, eu ouvira variações daquela frase.

Quando eu aumentara o salário de uma cuidadora, Isadora dissera que eu era fácil de manipular. Quando pedira desculpas a um garçom por um comentário dela, afirmou que eu não entendia como o mundo funcionava. Quando me convencia a assinar mais uma despesa da festa, beijava meu rosto e dizia que alguém precisava proteger minha generosidade.

Eu confundira aquilo com preocupação.

Na cozinha, com o vinho se espalhando entre nós, finalmente ouvi o que ela realmente dizia.

Ela me achava fraco.

“Talvez você tenha razão”, falei.

Beijei-lhe a testa.

Os ombros de Isadora relaxaram.

“Eu sabia que você entenderia.”

“A reunião em São Paulo terminou cedo. Quis fazer uma surpresa.”

Ergui as rosas, e ela abriu o sorriso perfeito que usava diante das câmeras.

“São lindas.”

“Vou colocá-las na água.”

“Deixa que a Lúcia faz isso amanhã.”

“Eu cuido.”

Entrei na despensa, fechei a porta e apoiei o buquê sobre uma prateleira. Uma gota de vinho havia atingido o papel branco. A mancha parecia pequena, mas continuava se abrindo pelas fibras.

Tirei o celular do bolso.

Havia dezenas de perguntas que eu poderia fazer naquele instante. Quanto tempo aquilo acontecia? Quem mais sabia? Por que Dona Lúcia tivera medo de mim também?

Não fiz nenhuma.

Perguntas feitas cedo demais servem para avisar culpados.

Abri minha agenda e cancelei as duas primeiras reuniões da manhã seguinte. Depois mandei uma mensagem para Antônio, o jardineiro, pedindo que me encontrasse às seis e meia numa padaria da Barra.

Não mencionei Isadora.

Não mencionei o vinho.

Escrevi apenas que precisava conferir pessoalmente alguns pagamentos da casa.

Quando saí da despensa, Bruno estava contando uma história sobre o jantar de boas-vindas em Petrópolis. Isadora segurava o braço dele e ria.

Sentei-me com os dois.

Perguntei sobre o número de convidados, a iluminação do jardim e o horário da cerimônia. Disse que o vestido dela ficaria deslumbrante sob as rosas brancas. Até experimentei o vinho que Bruno serviu numa taça limpa.

Eles começaram a acreditar que o momento tinha passado.

Enquanto falavam, observei pequenas coisas que antes não pareciam importantes: Bruno sabia o valor exato das últimas transferências da festa; Isadora usava meu tablet doméstico como se fosse dela; os dois paravam de falar sempre que Janaína entrava na cozinha.

Naquela noite, Isadora dormiu com a cabeça sobre meu peito.

“Faltam cinco dias”, murmurou. “Depois de sábado, nada mais vai nos separar.”

Fiquei olhando para o teto escuro.

“Cinco dias”, repeti.

Às seis e vinte e cinco da manhã, estacionei diante da padaria. Antônio já me esperava numa mesa dos fundos, ainda com a camisa de trabalho.

Ele não pediu café.

Não perguntou por que eu o chamara.

Apenas olhou para os lados, tirou do bolso um papel dobrado quatro vezes e o empurrou pela mesa.

Era um comprovante de entrega de dinheiro vivo à Aurora Prime Eventos.

O valor era de oitenta mil reais.

Na linha destinada à autorização, havia uma assinatura com o meu nome.

Eu nunca tinha visto aquele documento.

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