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"MEU MARIDO ME DEU UMA GATA — ELA ERA A AMANTE DELE" Parte 4 — Ela Não Era um Animal

正文开头

Parte 4 — Ela Não Era um Animal

A letra B continuou marcada no vidro.

Ninguém falou por alguns segundos.

A veterinária se aproximou devagar, sem tirar os olhos da gata.

"Isso foi treinado?"

"Eu a encontrei ontem", Bruno respondeu depressa demais.

Rogério olhou para ele.

"O senhor acabou de chamá-la de Lívia. Agora diz que a encontrou ontem?"

"Eu me confundi."

"Com o nome de uma funcionária?"

Bruno empurrou um dos homens que bloqueavam a passagem.

"Abra a porta. Eu vou tirá-la daqui."

Os dois funcionários seguraram seus braços antes que ele alcançasse o leitor de acesso.

"Se tentar entrar à força, chamaremos a polícia", Rogério avisou.

"Chamem quem quiserem."

A gata arranhou o vidro logo abaixo do B. O som fino percorreu o corredor. Em seguida, ela levantou a pata outra vez e tentou formar uma segunda letra.

O traço saiu torto.

Seu corpo começou a tremer.

A veterinária ergueu a mão.

"Todo mundo para trás. Ela pode estar tendo uma convulsão."

Bruno se soltou com violência.

"Lívia!"

Desta vez, ele não tentou esconder o nome.

A gata arqueou a coluna. Um ruído rouco escapou de sua garganta, metade miado, metade gemido humano.

Linhas luminosas cortaram meu campo de visão.

[A identidade falsa foi reconhecida diante de cinco testemunhas.]

[A ruptura do vínculo começou.]

[Não toque nela. Não interrompa a exposição.]

Eu recuei e abri a câmera do celular.

Bruno avançou contra a porta do recinto.

"Faça alguma coisa!"

A veterinária já chamava o serviço de emergência. Rogério acionou a Polícia Militar e ordenou que ninguém desligasse o sistema de câmeras.

"Estamos fazendo", ela respondeu. "Mas não vou entrar enquanto o animal estiver em crise e o senhor estiver ameaçando a equipe."

Um miado grave veio da sala de observação. O gato cinza não podia alcançar o recinto; havia duas portas e uma grade entre eles. Mesmo assim, a gata branca se encolheu como se algo invisível a pressionasse contra o chão.

O pelo de suas patas dianteiras pareceu recuar.

Pisquei, certa de que a luz me enganara.

Então as patas se alongaram.

Os dedos surgiram onde antes havia pequenas garras.

Uma funcionária gritou. O outro homem fez o sinal da cruz. A veterinária deixou o telefone cair, mas não desviou o olhar.

Bruno bateu as duas mãos no vidro.

"Não olhem para ela! Saiam daqui!"

"Por quê?" perguntei. "Uma gata não deveria ter vergonha."

Ele me encarou com um ódio que já não fazia esforço para esconder.

"Você sabia."

"Eu sabia que meu marido estava mais preocupado com um animal do que com a esposa que ele deixou sangrando. O resto você está explicando sozinho."

As pernas traseiras da gata se esticaram. A cauda desapareceu sob uma massa de pelo branco que se transformava em tecido. O corpo aumentou, contorceu-se e assumiu contornos humanos diante de seis câmeras.

Não houve sangue nem contato com outro animal.

Houve apenas uma impossibilidade se tornando real.

正文1

Quando o tremor cessou, uma mulher estava encolhida no piso do recinto, coberta por uma espécie de vestido branco fino. Os pés estavam descalços. Os cabelos escuros grudavam em seu rosto suado.

A coleira rosa continuava presa ao pescoço.

Bruno soltou um som abafado.

"Lívia."

Ela ergueu a cabeça.

Era a mesma mulher da confraternização da empresa. A mesma que tinha elogiado meu vestido enquanto olhava para meu marido. Mais pálida, aterrorizada e humilhada, mas inconfundível.

Rogério se apoiou na parede.

"Meu Deus."

A veterinária recuperou o telefone e falou com a emergência, agora pedindo atendimento para uma mulher em estado de choque.

Bruno voltou a lutar contra os funcionários.

"Ela precisa de mim. Abram essa porta!"

"Ela precisa ser avaliada", a veterinária respondeu. "E ninguém entra até a polícia chegar."

Lívia tentou se levantar. As pernas cederam, e ela caiu de joelhos. Quando viu o reflexo da coleira no vidro, levou as mãos ao pescoço.

No lado interno da tira de couro havia uma pequena placa de metal. Antes, o pelo escondia a gravação. Agora as palavras podiam ser lidas através do vidro.

MINHA MENINA — B.A.

Fotografei a placa, o vestido branco, Bruno do lado de fora e a letra B ainda desenhada perto do chão.

Depois enviei os arquivos para Camila.

"Pare de filmar!" Bruno gritou.

"Você queria que todos acreditassem que eu estava imaginando coisas. Achei que gostaria de ter provas."

Ele tentou arrancar o telefone da minha mão. Afastei-me, mas seus dedos alcançaram meu pulso ferido.

Rogério entrou entre nós.

"Não toque nela."

Bruno o empurrou com o ombro.

"Apague as gravações deste lugar. Eu pago o prejuízo e assino o que for necessário."

"As imagens já estão sendo preservadas", Rogério respondeu. "Depois do que aconteceu, ninguém apaga nada."

Enquanto Bruno discutia, ativei o envio automático. A barra chegou a cem por cento, e Camila confirmou o recebimento.

Mostrei a tela para ele.

"Mesmo que quebre meu celular, já existem cópias."

Foi então que percebi a verdadeira mudança em seu rosto. Bruno não estava mais tentando salvar apenas Lívia. Tentava salvar a versão da história em que eu era louca e ele era inocente.

Essa versão acabara de morrer diante de testemunhas.

Lívia levantou o rosto na minha direção.

Por um segundo, pareceu implorar.

Então seus olhos se estreitaram.

"Você fez isso comigo."

Sua voz saiu arranhada.

"Você entrou na minha casa fingindo ser um animal", respondi.

"Bruno disse que você não o amava mais. Disse que aquela vida já devia ser minha."

O corredor ficou em silêncio outra vez.

Eu não precisava perguntar que vida era aquela. Ela havia acabado de confessar diante das mesmas câmeras.

"Ele disse que, quando terminasse, ninguém sentiria sua falta", Lívia continuou. "Você devia ter deixado acontecer."

Bruno atingiu o vidro com o punho.

"Cale a boca, Lívia."

Ela virou-se para ele, ferida.

"Você prometeu que ela sairia do apartamento."

As sirenes soaram do lado de fora.

Rogério correu para receber os policiais. A veterinária pegou uma manta térmica e entrou no recinto acompanhada por uma auxiliar, mantendo o gato cinza isolado em outra ala.

Eu fotografei o relógio do corredor e anotei o horário exato da chegada. Depois, enviei a Camila o nome do centro, a localização e a confirmação de Rogério de que os arquivos originais não seriam alterados. Cada minuto passava a ter uma testemunha e uma cópia.

Quando cobriu Lívia, a mulher agarrou seu braço.

"Que horas são?"

"Doze e vinte", respondeu a veterinária.

"Da noite?"

"Do meio-dia."

Lívia fechou os olhos, aliviada.

Eu vi o alívio e soube que o perigo não terminara.

Os comentários reapareceram.

[Exposição em local de terceiros confirmada. A substituição normal foi interrompida.]

[O vínculo pode ser reparado uma única vez.]

[Se Bruno levar Lívia de volta ao quarto conjugal e a aceitar antes da meia-noite, o processo será retomado.]

[Tempo restante: 11 horas e 39 minutos.]

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