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"MEU MARIDO ME DEU UMA GATA — ELA ERA A AMANTE DELE" Parte 3 — O Nome Que Ele Quase Disse

正文开头

Parte 3 — O Nome Que Ele Quase Disse

Eu já estava na Marginal Pinheiros quando liguei para Rogério Paes, responsável pela Casa Aurora.

"Meu marido descobriu onde vocês estão", avisei. "Ele pode tentar retirar a gata sem minha autorização."

"O cadastro está no seu nome", respondeu. "Não entregaremos o animal a ninguém sem sua assinatura."

"Guarde todas as imagens. Inclusive da recepção."

Houve uma pausa.

"A senhora espera algum problema?"

"Espero que ele tente convencer vocês de que eu não sei o que estou fazendo."

"Entendido. Vou orientar a equipe."

Cheguei a Cotia antes do meio-dia. A Casa Aurora ocupava uma chácara cercada por árvores, com dois prédios baixos separados por um jardim. O lugar cheirava a desinfetante, e o som dos animais vinha abafado pelas portas de vidro.

Rogério me recebeu com uma prancheta.

"A gata ainda não permitiu um exame completo. Nossa veterinária conseguiu observar dentes, olhos e respiração, mas qualquer aproximação provoca ataque."

"Ela está machucada?"

"Só uma unha lascada por bater na grade. Nós a transferimos para um recinto sem pontas e suspendemos qualquer manipulação."

A resposta me tranquilizou por um motivo que eu não quis examinar. Lívia tinha tentado destruir minha vida, mas eu não precisava ferir um animal para derrotá-la.

"E quanto ao programa de reprodução?"

Rogério apontou para o formulário.

"Primeiro vêm exames, quarentena e histórico genético. Sem isso, não há contato. Se for aprovada, fazemos uma adaptação por cheiro e grade antes de qualquer aproximação física."

"Quero que sigam cada etapa. E que registrem tudo."

"É o nosso procedimento."

Assinei a autorização limitada aos exames e à observação. No campo de restrições, escrevi: "Nenhum contato físico com outro animal sem nova autorização expressa."

Rogério me conduziu até o corredor de quarentena.

Através do vidro, vi a gata branca encolhida no fundo de um recinto amplo. A coleira rosa continuava no pescoço. O pelo, tão perfeito na noite anterior, estava desalinhado.

Quando me reconheceu, ela saltou contra a porta transparente.

O impacto fez o vidro vibrar.

"Ela reage assim somente à senhora", observou Rogério.

"Talvez não tenha gostado de ganhar uma nova casa."

A gata mostrou os dentes.

Do outro lado do corredor, um gato cinza miou dentro de uma sala de observação. Era grande, de pelo curto e peito largo. Não podia nos ver, mas a gata branca ouviu.

Seu corpo inteiro enrijeceu.

Ela recuou até encostar na parede e abaixou a cauda sobre o ventre.

Não era apenas instinto. Havia compreensão naquele medo.

Linhas luminosas apareceram diante de mim.

[Se a identidade falsa for reconhecida diante de testemunhas, o vínculo pode sofrer uma ruptura.]

[A ruptura não será completa enquanto Bruno ainda puder levá-la de volta à cama conjugal.]

Antes que eu terminasse de ler, pneus derraparam no estacionamento.

Bruno entrou na recepção menos de um minuto depois. Não usava paletó, a gravata estava frouxa e uma mancha de café marcava a camisa.

正文1

"Onde ela está?"

Rogério se posicionou entre ele e a porta interna.

"Bom dia. O senhor tem horário?"

"Sou marido dela." Bruno apontou para mim. "Essa gata foi trazida sem meu consentimento."

"O cadastro e a declaração de transferência estão no nome da senhora Helena."

Bruno me encarou.

"Você planejou isso."

"Planejei tratar de um animal que você me deu."

"Quero levá-la embora agora."

"Não autorizo", respondi.

"Você não está em condições de decidir", Bruno disse a Rogério. "Minha esposa teve uma crise depois de ser mordida."

Abri a bolsa, tirei o relatório do pronto atendimento e o coloquei sobre o balcão.

"Aqui está o atendimento da mordida. E aqui está a mensagem em que ele diz que eu estava exagerando, sem perguntar se eu precisava de ajuda."

Rogério leu as primeiras linhas e devolveu os papéis.

"Até este momento, a senhora Helena apresentou documentos válidos e instruções coerentes. Não vejo motivo para ignorar a autorização dela."

Bruno me lançou um olhar carregado de ódio. Sua tentativa de me transformar em uma mulher descontrolada acabara de fracassar diante da primeira testemunha neutra.

Ele se voltou para Rogério.

"Eu pago todas as despesas. O dobro. O que for necessário."

"Não se trata de dinheiro", disse Rogério. "Precisamos seguir a autorização da responsável cadastrada e as condições clínicas do animal."

"Dez mil reais."

"Bruno", falei, "você gastaria dez mil reais numa gata que encontrou ontem?"

Ele ignorou a pergunta.

"Vinte mil", insistiu.

Rogério franziu a testa.

"O senhor não está comprando um animal."

"Então devolva para mim."

"Ela nunca foi sua", lembrei. "Foi isso que você escreveu."

Bruno avançou um passo.

"Helena, isso deixou de ser uma brincadeira."

"Para mim nunca foi."

Um miado grave ecoou atrás da porta. A gata branca respondeu com um som agudo, desesperado.

Bruno se virou na direção do corredor.

"O que estão fazendo com ela?"

"Nada", explicou Rogério. "O macho está em outra sala. Faz parte da observação de resposta por cheiro e som. Não haverá contato."

"Nem observação. Tire-a daqui."

"Por quê?"

Bruno passou a mão pelos cabelos.

"Porque ela não pode passar por isso."

O celular gravava dentro da minha bolsa aberta.

"Ela não pode?" perguntei. "Como você sabe o que uma gata que encontrou na rua pode ou não suportar?"

"Qualquer animal ficaria assustado."

"Você não disse qualquer animal. Disse ela."

"Chega."

Bruno tentou contornar Rogério, mas dois funcionários apareceram junto à porta interna.

"O acesso é restrito", avisou um deles.

A gata tornou a gritar.

Bruno perdeu o controle.

"Lívia não pode ficar perto daquele macho!"

O corredor inteiro silenciou.

Rogério olhou para ele. Depois, para mim.

"Quem é Lívia?"

Bruno percebeu o que acabara de dizer. Seu rosto ficou branco.

"Uma funcionária. Recebi uma ligação dela no caminho."

"Seu celular não tocou", falei.

"Você não sabe o que ouvi."

"Sei que chamou a gata de Lívia."

Ele baixou a voz.

"Você está distorcendo tudo."

"Então explique diante das câmeras."

Apontei para a lente no canto do teto.

Bruno acompanhou meu gesto e finalmente notou os monitores atrás do balcão. Sua raiva mudou de forma. Ficou fria.

"Você vai se arrepender disso."

"Essa frase também ficou gravada."

Rogério pediu que ele deixasse o local. Bruno recusou. Os funcionários se aproximaram, e a discussão atraiu a veterinária para o corredor.

Dentro do recinto, a gata branca parou de se lançar contra a porta.

Ela levantou uma pata e tocou o vidro.

Havia uma faixa de vapor perto do chão, deixada pela limpeza recente.

A unha deslizou lentamente pela superfície.

Primeiro, uma linha vertical.

Depois, duas curvas.

Rogério deu um passo para trás.

No vidro embaçado, a gata acabara de desenhar uma letra.

B.

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