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"MEU MARIDO ME DEU UMA GATA — ELA ERA A AMANTE DELE" Parte 2 — Uma Gata Não Vale Esse Pânico

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Parte 2 — Uma Gata Não Vale Esse Pânico

Às seis e quarenta da manhã, acordei com portas batendo.

Bruno abriu o armário do corredor, vasculhou a lavanderia e chamou pela gata em todos os cômodos. Quando entrou na cozinha, estava com a camisa social abotoada errado e os olhos vermelhos.

Eu passei manteiga em um pão de queijo e servi café.

"Onde ela está?"

"Bom dia para você também."

Bruno apoiou as duas mãos na mesa.

"A gata. Onde você a colocou?"

Deixei meu celular gravando no bolso do robe.

"Levei para um lugar com profissionais. Você disse que eu não sabia cuidar dela."

"Que lugar?"

"Um centro de criação."

O rosto dele perdeu a cor.

Não foi a reação de alguém preocupado com um animal recém-encontrado. Foi a reação de um homem que acabara de ouvir que uma pessoa amada corria perigo.

"Você fez o quê?"

"Ela não é castrada. O centro avalia gatas para reprodução."

Bruno agarrou meu pulso. A pressão alcançou o ferimento sob o curativo.

"Me dê o endereço."

"Está me machucando."

Ele apertou ainda mais.

"O endereço, Helena."

Olhei para os dedos dele ao redor do meu braço e depois para seu rosto.

"Solte ou eu ligo para a polícia."

Bruno pareceu se lembrar de quem fingia ser. Abriu a mão e deu um passo para trás.

"Desculpe. Estou nervoso."

"Por causa de uma gata?"

"Por causa da sua irresponsabilidade."

Ele começou a andar pela cozinha.

"Esses lugares podem ter doenças. Podem machucar a Lí..."

Parou no meio da palavra.

Meu coração acelerou, mas mantive a expressão neutra.

"Machucar quem?"

"A gata."

"Você quase disse um nome."

"Eu não disse nada."

"Então talvez ela precise de um nome. Qual você escolheu?"

Bruno me encarou. Por um instante, vi raiva pura atravessar sua máscara.

"Não é hora para joguinhos."

"Você trouxe o animal, comprou uma coleira e uma cama, mas não lhe deu nome?"

Ele puxou uma cadeira e se sentou diante de mim. Quando falou novamente, sua voz estava baixa e controlada.

"Helena, sei que nossa relação não anda bem. Talvez eu tenha trabalhado demais. Talvez você esteja se sentindo sozinha."

Eu não respondi.

"Uma mordida pode assustar qualquer pessoa", continuou. "Você passou a noite acordada e tomou uma decisão impulsiva. Só preciso buscar a gata. Depois conversaremos com calma."

Era assim que Bruno fazia.

Quando chegava depois da meia-noite, eu era insegura por perguntar onde estivera. Quando levava o celular para o banho, eu era controladora por notar. Quando cancelava nossos planos pela quarta vez, eu era dramática por ficar decepcionada.

Agora ele precisava que eu fosse impulsiva e confusa.

"Não guardei o endereço", falei.

"E o número?"

"Apaguei."

O maxilar dele se contraiu.

A campainha tocou antes que respondesse.

Sônia entrou sem esperar convite.

"Onde está a gata?"

Ela parou ao me ver à mesa. Bruno fechou os olhos por um segundo.

正文1

"Mãe."

Sônia percebeu tarde demais que havia demonstrado preocupação antes mesmo de perguntar por nós.

"Bruno disse que vocês adotaram uma gatinha", corrigiu. "Eu queria conhecê-la."

"Às sete da manhã?"

"Eu já estava acordada."

"E Bruno ligou antes de procurar a casa inteira?"

Ela colocou a bolsa sobre o balcão com força.

"Não gosto do seu tom. Meu filho tentou fazer uma gentileza, e você se livrou do presente como se não significasse nada."

"Para ele, parece significar muito."

Bruno lançou à mãe um olhar de advertência.

Sônia não viu. Estava ocupada demais olhando meu curativo com desprezo.

"É só uma mordida. Você sempre transforma tudo em tragédia."

"Quer experimentar?"

Ela ficou vermelha.

"Que falta de respeito."

Levantei, lavei minha xícara e saí da cozinha. Sônia começou a falar alto atrás de mim.

"Uma mulher com esse temperamento nunca consegue manter um casamento. Lívia é tão doce, tão educada, tão diferente..."

O silêncio que veio depois foi quase cômico.

Voltei-me devagar.

"Lívia?"

Sônia abriu e fechou a boca.

"Uma moça da igreja", improvisou. "Eu estava pensando nela por outro assunto."

"Claro."

Entrei no escritório e tranquei a porta.

Já tinha transferido para uma pasta protegida as mensagens de Bruno, o áudio da cozinha e a foto da carteirinha. Enviei uma cópia para Camila Torres, advogada que uma colega me indicara meses antes, quando eu ainda não tinha coragem de admitir que pesquisava sobre divórcio.

Ela respondeu em menos de cinco minutos.

"Não apague nada. Salve os arquivos originais e evite ficar sozinha com os dois se houver nova ameaça. Posso falar às dez."

Do lado de fora, Bruno tentou abrir a porta.

"Helena."

"Estou trabalhando."

"Preciso do seu celular antigo."

"Por quê?"

"Quero procurar o contato do lugar. Talvez tenha sincronizado."

Abri a porta apenas o suficiente para vê-lo.

"Traga o seu celular e eu trago o meu. Nós verificamos os dois juntos."

Ele ficou imóvel.

"Não seja infantil."

"Foi o que imaginei."

Fechei a porta outra vez.

Pouco depois, a Casa Aurora me enviou um vídeo. A gata branca estava dentro de um recinto de quarentena, lançando-se contra a tela metálica sempre que alguém se aproximava.

"Agressividade alta e recusa de alimento", dizia a mensagem. "A veterinária fará a avaliação clínica à tarde. Nenhum contato com outros animais antes da liberação."

Respondi que autorizava apenas exames e observação controlada. Pedi ainda que qualquer tentativa de retirada por terceiros fosse registrada e recusada.

Anexei a confirmação de Bruno de que a gata era minha.

Às dez e meia, falei com Camila por chamada de vídeo. Contei apenas o que podia ser provado: Bruno trouxera um animal, insistira para que dormisse em nossa cama, ignorara uma mordida, entrara em pânico quando eu o removi e agora tentava acessar meus aparelhos.

Não mencionei os comentários flutuantes nem a transformação.

Camila ouviu sem interromper.

"O mais importante é separar o que você suspeita do que consegue documentar", disse. "E não provoque uma situação que possa ser apresentada como maus-tratos. A partir de agora, tudo deve seguir orientação veterinária."

"Já deixei isso por escrito."

"Ótimo. Agora revise contas conjuntas, documentos do imóvel e acessos digitais. Se ele está preparando uma narrativa contra você, precisamos saber o que existe por trás dela."

Quando desliguei, percebi que o apartamento estava silencioso.

Bruno havia saído.

Sônia continuava no sofá, fazendo ligações em voz baixa.

Às onze e sete, o aplicativo do condomínio enviou uma notificação: o coproprietário Bruno Azevedo solicitara acesso às imagens da garagem por causa de um suposto animal desaparecido.

Meu telefone vibrou logo depois.

Era uma mensagem dele.

"Encontrei a van."

Em seguida, surgiu uma foto ampliada da câmera lateral. O logotipo azul da Casa Aurora aparecia com nitidez na porta do veículo.

A última mensagem chegou enquanto eu já pegava a bolsa e as chaves.

"Se alguma coisa acontecer com ela, a culpa será sua."

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